Anny Sophia Rosa
Se alguém tivesse me contado, cinco anos atrás, que minha vida seria exatamente assim, eu provavelmente teria rido.
Não porque fosse impossível… mas porque eu nunca imaginei que seria tão complicada.
— Mãe! Você esqueceu minha garrafinha! — a voz apressada de Enzo ecoou pela sala antes mesmo de eu conseguir fechar a bolsa.
Suspirei.
Era sempre assim nas manhãs de segunda-feira.
— Eu não esqueci — respondi, caminhando até a cozinha e pegando a garrafinha azul sobre a mesa. — Só estava esperando o senhor lembrar que precisa beber água.
Ele apareceu na porta com a mochila quase maior que o próprio corpo e o cabelo castanho completamente bagunçado, como se fosse impossível de domar.
Cinco anos.
Cinco anos desde o dia em que descobri que estava grávida.
Cinco anos desde que minha vida virou completamente de cabeça para baixo.
E, ainda assim, toda vez que eu olhava para ele, sentia aquela mesma mistura de amor e medo apertando meu peito.
— Aqui — estendi a garrafinha.
Enzo pegou e sorriu.
O tipo de sorriso capaz de iluminar qualquer dia ruim.
— Obrigado, mãe.
Abaixei-me diante dele para arrumar a gola da camisa do uniforme.
— Você estudou para a atividade de hoje?
Ele fez uma careta dramática.
— Mãe… é só desenho.
— Desenho também precisa de dedicação — respondi, tentando parecer séria.
Ele cruzou os braços e estreitou os olhos.
— Você fala igual a tia Valesca.
Não consegui evitar o riso.
— Talvez porque ela esteja certa.
Ele bufou, mas logo abriu um sorriso novamente. Enzo tinha esse jeito leve de enxergar a vida… algo que eu, sinceramente, não tinha mais.
Peguei minha bolsa e as chaves enquanto ele corria até a porta.
Nosso apartamento era pequeno, mas aconchegante. Dois quartos, uma sala simples e uma cozinha que mal cabia duas pessoas ao mesmo tempo. Nada luxuoso, nada sofisticado… mas era nosso, e eu tinha orgulho de cada detalhe daquele lugar.
Cada móvel comprado com esforço.
Cada parede pintada com paciência.
Tudo ali representava uma escolha que fiz há cinco anos:
Criar meu filho sozinha.
Quando saímos do prédio, o sol ainda estava tímido no céu da manhã. O bairro começava a despertar lentamente — algumas lojas abrindo, o cheiro de pão fresco vindo da padaria da esquina, o barulho distante dos ônibus passando pela avenida principal.
Enzo segurou minha mão enquanto caminhávamos pela calçada.
— Mãe?
— Hum?
— Hoje você vai trabalhar até tarde?
— Um pouco — respondi com cuidado. — Mas a vovó Teresa vai te buscar na escola.
Ele pensou por alguns segundos.
— Tudo bem.
Mas eu sabia que ele preferia que fosse eu… e aquilo sempre deixava uma pontinha de culpa dentro de mim.
Trabalhar não era uma escolha.
Era uma necessidade.
Ser mãe solteira significava aprender a fazer mil coisas ao mesmo tempo.
Ser forte, mesmo quando tudo parecia difícil.
Ser suficiente… por dois.
Chegamos ao portão da escola poucos minutos depois.
Crianças correndo, pais conversando, professores organizando a entrada dos alunos.
Era um cenário comum, mas que sempre me deixava um pouco pensativa.
Observei Enzo conversando animadamente com um amigo enquanto esperávamos a fila andar.
Ele era inteligente.
Curioso.
Cheio de perguntas sobre o mundo… às vezes perguntas que eu simplesmente não sabia responder.
Como aquela, feita alguns meses atrás:
“Mãe… quem é meu pai?”
Meu peito apertou só de lembrar.
Respirei fundo.
Eu sempre soube que aquele momento chegaria… mas nunca parece existir uma resposta perfeita para algo assim.
Quando finalmente chegou a vez dele entrar, ajoelhei-me diante dele.
— Comporte-se hoje, senhor Enzo Rosa.
Ele fez uma saudação exagerada.
— Sim, senhora.
Balancei a cabeça, rindo.
— Depois me conta como foi o desenho.
— Vou desenhar um dinossauro gigante!
— Claro que vai.
Dei um beijo em sua testa.
— Eu te amo.
Ele sorriu.
— Eu também te amo, mãe.
E então correu para dentro da escola.
Fiquei ali por alguns segundos, observando até que ele desaparecesse pelo corredor. Era um hábito meu… certificar-me de que ele estava seguro.
Só depois comecei a caminhar de volta para a rua, mas, assim que dei alguns passos, ouvi um barulho diferente vindo do estacionamento lateral da escola.
Um carro.
Na verdade é um carro muito caro.
Preto, brilhante, luxuoso de um jeito que parecia completamente fora de lugar naquele bairro simples.
Franzi a testa, curiosa.
Não demorou muito para as portas se abrirem e dois homens descerem primeiro.
Reconheci imediatamente que eram seguranças, apenas pela forma atenta com que observavam tudo ao redor.
Logo depois ele saiu do carro.
Alto, forte e elegante. Vestia um terno perfeitamente ajustado ao corpo, como se tivesse sido feito sob medida. A postura era de alguém acostumado a comandar ambientes inteiros apenas com a própria presença.
Não consegui ver seu rosto direito naquele primeiro momento, mas havia algo nele que prendeu minha atenção.
Algo estranho.
Como uma sensação incômoda na memória.
Ele conversou rapidamente com um dos seguranças e começou a caminhar em direção ao portão da escola.
Meu instinto dizia para simplesmente ir embora e seguir meu caminho.
Mas, por algum motivo, meus olhos continuaram acompanhando cada passo daquele homem.
Quando ele finalmente se aproximou da entrada, o sol iluminou seu rosto…
E o meu coração parou.
Não.
Não podia ser.
Era ele.
O homem com quem eu havia passado uma única noite… cinco anos atrás.
O homem que nunca mais vi.
O homem que… era o pai do meu filho.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
Eu deveria ter ido embora naquele exato momento.
Deveria ter fingido que nunca o vi.
Mas algo — talvez curiosidade, talvez medo — me fez dar alguns passos em direção a ele.
Foi então que ouvi sua voz.
Grave, fria e ao mesmo tempo perigosamente envolvente.
— Onde está o responsável por essa escola?
O ambiente ao redor pareceu congelar.
Algumas pessoas trocaram olhares, outras simplesmente ficaram em silêncio.
Até que um funcionário se aproximou, visivelmente nervoso.
— Senhor, posso ajudar?
Ele lançou um olhar rápido ao redor, claramente impaciente.
— Quero falar com a direção. Agora.
Não era um pedido, era uma ordem e até eu, que não tinha absolutamente nada a ver com aquilo, senti um arrepio percorrer minha espinha.
Aquilo não era bom.
Não era bom mesmo.
Afastei-me rapidamente antes que pudesse ouvir mais alguma coisa.
Não queria ser vista.
Não por ele.
Não agora.
Talvez… nunca.
Apressei o passo em direção ao trabalho. Se eu chegasse atrasada, o desconto viria, e eu não podia me dar ao luxo de perder nem um centavo,mas, mesmo caminhando, tentando focar na rotina, na pressa, na realidade a imagem dele continuava voltando.
O rosto, a voz, a presença.
Eu não sabia seu nome, não sabia o que ele fazia da vida, mas, pela postura era evidente que não era qualquer pessoa.
Balancei a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos e quase como uma prece silenciosa, torci para que aquele homem nunca cruzasse o caminho do meu filho.