O Gosto do Mar Egeu

Thalia D’Avila

Santorini, Resort Amanpuri

O vento que soprava do mar Egeu trazia um cheiro limpo de sal e oliveiras, algo completamente diferente da fuligem sufocante de Manhattan ou do odor de desinfetante daquele abrigo no Queens. Eu estava jogada em uma espreguiçadeira de linho branco, de frente para uma piscina de borda infinita que parecia se fundir perfeitamente com o azul-turquesa do oceano logo abaixo. Usando um par de óculos escuros da grife que eu mesma havia comprado três dias atrás e um vestido de seda leve que se movia com a brisa, observei o sol começar a descer no horizonte, tingindo as casas brancas de Santorini com tons de ouro e rosa.

Pela primeira vez em anos, minha mente estava em paz. Minha loba interna, que passou semanas acuada pelo medo e pelo concreto da cidade grande, parecia finalmente ter relaxado sob o calor da Grécia. Eu ainda tocava o amuleto de turmalina negra escondido sob o decote do vestido, garantindo que o feitiço de camuflagem estivesse intacto, mas o pânico constante de ser caçada havia diminuído.

Aquele contrato era o meu escudo de ouro.

Eu não sentia a menor culpa por ter limpado mais de trezentos mil dólares da conta de Valerius Von Valkis em menos de uma semana. Ele queria uma imperatriz para exibir para a mídia humana? Pois ele teria uma. Eu não ia aparecer nos jornais usando os sapatos velhos e o casaco surrado que Thomas me deixou. Se o playboy gélido achou que tinha comprado uma coitada submissa que aceitaria ser trancada na mansão dele, o susto com a fatura do cartão Black foi apenas o meu cartão de visitas. Aquilo foi o meu pagamento antecipado pelo desaforo e pelas palavras insolentes que ele cuspiu no escritório.

Peguei a taça de cristal com água de coco fresca na mesinha ao lado e dei um gole longo, sorrindo com o pensamento do rosto dele quando o contador mostrasse os gastos com sapatos Louboutin e bolsas Hermès. Ele merecia cada centavo de prejuízo.

—Achei que o contrato especificasse um ano de serviços, senhorita D’Avila, não férias vitalícias financiadas pela minha empresa.

A taça quase escorregou dos meus dedos. Aquela voz. Aquele tom grave, aveludado e carregado de uma autoridade fria que me fez congelar por um milésimo de segundo.

Tirei os óculos escuros devagar, sentindo uma lufada de vento frio inexplicável cortar o calor da tarde. Valerius estava parado a poucos passos da minha espreguiçadeira. Ele tinha dispensado o terno corporativo, vestindo apenas uma camisa de linho preta com os primeiros botões abertos e uma calça escura de corte impecável. O cabelo estava levemente bagunçado pelo vento do mar, e os três anéis de obsidiana brilhavam na sua mão esquerda. Seus olhos cinzas eram duas lâminas de gelo focadas diretamente em mim, exalando uma fúria contida que teria feito qualquer humano normal cair de joelhos implorando por clemência.

Eu, no entanto, apenas me ajeitei na espreguiçadeira, cruzando as pernas com deliberada lentidão antes de encará-lo.

—Von Valkis —falei, arqueando uma sobrancelha, mantendo a voz firme e recheada de ironia —, que surpresa desagradável. O trânsito de Nova York estava tão ruim que você resolveu vir respirar o ar da Grécia ou veio apenas conferir se eu estava usando o protetor solar correto?

Valerius deu dois passos longos na minha direção, diminuindo a distância entre nós de um jeito que me obrigou a olhar para cima. Ele parecia uma estátua de mármore esculpida com puro desdém.

—Você tem exatamente cinco minutos para arrumar as suas malas de trezentos mil dólares e entrar no meu jato —ele disse, a mandíbula tão travada que as linhas do seu rosto pareciam navalhas —. Você assinou um documento, Thalia. Você pertence à minha estrutura pelos próximos doze meses. Eu não pago uma fortuna para a minha noiva sumir do continente no primeiro segundo em que coloco as mãos no cartão.

—Em primeiro lugar, eu não pertenço a você e nem a ninguém —levantei-me da espreguiçadeira, ficando cara a cara com ele, recusando-me a recuar diante do seu tamanho —. Em segundo lugar, o contrato diz que eu sou sua noiva perante a sociedade, e nenhuma noiva da dinastia Von Valkis se apresentaria para os paparazzi parecendo que saiu de uma lixeira em Manhattan. Eu apenas fiz um investimento na imagem da sua preciosa empresa. Você deveria me agradecer pelo bom gosto.

Valerius soltou uma risada curta, desprovida de qualquer humor, e deu mais um passo à frente, invadindo completamente o meu espaço pessoal. Eu conseguia sentir o calor que emanava dele, uma energia intensa e sufocante que fez o meu colar de turmalina vibrar levemente contra o meu peito. Ambos éramos humanos naquele tabuleiro, mas a presença dele era magnética de um jeito perturbador.

—Bom gosto? —ele olhou de cima para baixo, seus olhos cinzas demorando-se nas linhas do meu vestido de seda antes de voltarem para o meu rosto —. Você limpou o meu limite prioritário em seis dias. Cassandra não gastava isso em um ano.

—Talvez por isso ela tenha virado sua ex —retruquei, sustentando o olhar dele com um sorriso cínico nos lábios —. Mulheres com personalidade custam caro, Von Valkis. Se você queria uma boneca de plástico barata para obedecer às suas ordens, deveria ter procurado em outro lugar. Agora, se me dá licença, o meu tratamento de esfoliação facial grega começa em dez minutos e eu não pretendo me atrasar por causa das suas crises de mesquinharia.

Tentei passar por ele, mas a mão de Valerius disparou no ar, segurando o meu pulso com firmeza. O toque dele foi como uma descarga elétrica. Senti um arrepio violento subir pelo meu braço, uma queimação esquisita que me fez puxar o ar com força. Ele não apertou a ponto de machucar, mas a força humana dele era impressionante.

—Solta o meu pulso —sussurrei, o tom de deboche sumindo, os meus olhos estreitando-se em uma promessa de guerra —. Ou eu juro que o próximo tapa vai deixar uma marca permanente nesse seu rosto aristocrático.

Valerius não soltou. Ele inclinou o rosto na minha direção, os lábios a poucos centímetros do meu ouvido, e a sua respiração quente bateu contra a minha pele, enviando uma onda de estática direto para a minha espinha.

—Tente me bater de novo, Thalia, e eu garanto que você vai descobrir o quão pouco eu me importo com a opinião pública —a voz dele era um sussurro perigoso, carregado de um subtexto que fez o meu coração acelerar contra a minha vontade —. O jogo acabou. Eu não vim aqui para discutir a fatura do cartão. Eu vim buscar o que é meu por direito de contrato. Nós temos um herdeiro para gerar, e o tempo está correndo.

Eu olhei bem no fundo daquelas pupilas cinzentas, sentindo a tensão e o ódio mútuo colidirem no ar como duas tempestades. Ele achava que podia me dobrar pelo medo, mas tudo o que ele conseguia era acender o fogo do meu orgulho.

Puxei o meu pulso com força, livrando-me do aperto dele com um movimento brusco. Dei um passo para trás, ajeitando a seda do meu vestido enquanto exibia o meu melhor sorriso diabólico.

—Ótimo —falei, a voz mansa, mas afiada como um punhal —. Quer começar os trabalhos do herdeiro, Von Valkis? Então vamos voltar para aquela sua mansão cinzenta. Mas fique sabendo de uma coisa: se você acha que ter o meu corpo vai ser uma tarefa fácil, se prepare. Eu vou fazer você implorar por cada milímetro de cooperação. E você vai descobrir que o demônio que você colocou dentro da sua casa não aceita ordens de nenhum carrasco de terno.

Valerius me encarou por longos segundos, a respiração levemente pesada, os punhos cerrados ao lado do corpo. A rivalidade entre nós estava totalmente selada sob o sol da Grécia.

—Gideon já está com o carro nos fundos do hotel —ele disse, virando-se de costas e caminhando em direção à saída do resort sem olhar para trás —. Não me faça esperar, Thalia. A tolerância para as suas insolências acabou hoje.

Olhei para as costas imponentes dele enquanto ele se afastava. O meu estômago deu um nó de pura adrenalina. O ano seria longo, tenso e absolutamente explosivo, mas eu estava pronta para queimar cada ponte antes de dar a vitória àquele homem.

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