Mundo de ficçãoIniciar sessãoThalia D’Avila
Santorini, Resort Amanpuri
—O jato está pronto —Valerius cortou o silêncio do corredor de pedra branca, os braços cruzados enquanto me encarava de cima para baixo —, ande logo com essas malas. Nós voltamos para Nova York agora.
—Eu não vou a lugar nenhum hoje —ajeitei a alça da minha bolsa de grife, sustentando o olhar cinza dele com uma calmaria calculada —. A suíte master deste resort está paga pelos próximos quatorze dias, Von Valkis. O dinheiro saiu da sua conta, sumiu do seu banco e já está no sistema deles. Se sairmos agora, você perde o valor integral e o reembolso é zero. Eu posso ser muita coisa, mas não sou burra a ponto de desperdiçar esse luxo só porque você teve um ataque de pelanca corporativo.
O maxilar dele trancou de forma visível. Uma linha tensa desenhou-se na lateral do seu rosto aristocrático enquanto ele processava minhas palavras. Valerius detestava ser contrariado, mas, acima de tudo, detestava a lógica fria quando ela vinha de mim.
—Eu não me importo com o valor da diária —ele deu um passo na minha direção, a voz caindo para aquele tom cortante que usava nas salas de reunião —, o meu tempo custa mais caro que este hotel inteiro.
—Mas o meu descanso não —sorri, um esgar desprovido de qualquer calor —, você quer uma noiva impecável para os seus fotógrafos, não quer? Então vai ter que me deixar terminar as minhas massagens. Sente-se, tome um uísque e engula o seu orgulho. Nós saímos daqui quando a reserva terminar.
Ele respirou fundo pelo nariz, os punhos cerrados ao lado do corpo. Por alguns segundos, o silêncio entre nós ficou tão denso que o som das ondas quebrando nas rochas abaixo pareceu sumir. Valerius avaliou a minha postura, procurando qualquer sinal de hesitação, mas só encontrou a minha teimosia de sempre.
—Quatorze dias —ele cedeu, a contragosto, dando um passo para trás enquanto soltava os botões do punho da camisa —, mas você vai seguir as minhas regras a partir de agora.
O impasse foi quebrado quando entramos na suíte. Martha havia enviado o restante das minhas compras direto para o hotel, e o mensageiro havia empilhado as caixas perto do closet. No topo de uma delas, uma sacola de veludo preto continha o item mais caro daquela rodada: uma gargantilha de diamantes e safiras que eu havia comprado em uma joalheria local na tarde anterior.
Valerius caminhou até a mesa onde a sacola estava, puxando o tecido com dois dedos. Ele retirou a joia, deixando os brilhantes oscilarem sob a luz do lustre de cristal. O contraste das pedras azuis contra a pele clara dos seus dedos compridos chamou a minha atenção por um instante.
—Você tem um gosto caro para alguém que usava plástico no pescoço há uma semana —ele comentou, examinando o fecho com desdém.
—Chama-se evolução —retruquei, aproximando-me e arrancando a joia das mãos dele —, e não fale do meu colar antigo. Aquilo vale mais do que qualquer uma dessas pedras, mesmo que o seu cérebro focado em números não consiga entender.
—Veremos o quanto essa sua arrogância dura quando a primeira fatura oficial chegar —ele se virou, caminhando em direção à varanda.
O confronto privado teve que ser interrompido duas horas depois, quando a fome me obrigou a descer até o restaurante do resort. O ambiente era ao ar livre, iluminado por velas e tochas de fogo que davam ao mármore branco um aspecto dourado. Valerius insistiu em me acompanhar, mantendo uma distância segura de dois passos, como se estivesse escoltando uma prisioneira perigosa.
Sentamo-nos em uma mesa mais afastada, mas a nossa bolha de hostilidade não durou muito.
—Valerius? Valerius Von Valkis, não brinque comigo!
Ergui os olhos e vi um casal de meia-idade se aproximando. O homem vestia um paletó de linho claro e a mulher exibia tantas esmeraldas no pescoço que parecia uma árvore de Natal ambulante. Perteneciam claramente àquela elite que achava que o mundo era o seu jardim particular.
—Julian —Valerius mudou de postura no exato milésimo de segundo em que o homem pronunciou seu nome. O tédio gélido sumiu, dando lugar a um sorriso diplomático e perfeitamente polido —, Lady Beatrice. Que surpresa encontrar vocês em Santorini.
—Nós é que estamos surpresos —a mulher disse, os olhos correndo por mim como duas sondas de raio-X —, ouvimos boatos em Nova York de que você estava recluso, lidando com os negócios da família. E agora encontramos você aqui, tão bem acompanhado. Quem é essa jovem encantadora?
A tensão na mesa subiu de nível. Se aqueles aristocratas percebessem qualquer brecha, os boatos sobre a fragilidade da dinastia Von Valkis ou sobre a natureza do nosso acordo destruiriam o plano dele antes mesmo de começarmos.
Antes que eu pudesse inventar um nome ou uma desculpa, a mão de Valerius moveu-se sobre a mesa. Seus dedos longos e quentes envolveram a minha mão livre com uma firmeza avassaladora. Ele puxou a minha cadeira para mais perto da sua, eliminando qualquer espaço entre os nossos corpos. O calor da pele dele me atingiu como um soco, enviando um arrepio incômodo pela minha espinha.
—Esta é Thalia —Valerius disse, a voz agora macia, derretendo como mel, um tom que eu nunca tinha ouvido antes —. Minha noiva. Nós viemos para cá para ter um pouco de privacidade antes que os anúncios oficiais comecem. Sabe como é a imprensa.
—Noiva? —Lady Beatrice quase engasgou com o próprio ar, os olhos fixos na safira que eu exibia no pescoço —. Mas isso é maravilhoso! Marcus e Elena devem estar radiantes.
—Eles estão —Valerius inclinou-se na minha direção, passando o braço livre por trás da minha cintura. Seus dedos pressionaram o tecido fino do meu vestido, desenhando uma linha possessiva na minha pele. Ele aproximou o rosto do meu pescoço, fingindo um gesto de carinho de casal apaixonado.
—Sorria, querida —o sussurro dele veio direto contra o meu ouvido, a voz gélida e ameaçadora contrastando totalmente com o sorriso que ele exibia para o casal —, se você estragar isso, eu faço você engolir cada uma daquelas caixas de sapato.
—Eu estou sorrindo, meu amor —devolvi o sussurro na mesma intensidade, inclinando a cabeça para que os meus lábios quase tocassem o queixo dele, mantendo os dentes trancados —. Mas se você apertar a minha cintura desse jeito de novo, eu quebro o seu nariz na frente dos seus amigos ricos.
—Ela é um encanto, não é? —Julian comentou, rindo, alheio à guerra que acontecia a centímetros dele. Ele deu um passo à frente, fixando o olhar no meu decote e no movimento dos meus ombros —. Você tem muita sorte, Von Valkis. Thalia tem uma beleza... exótica. Rara para os padrões de Manhattan. Sabe, Thalia, se você se cansar da frieza corporativa do Valerius, eu tenho alguns iates ancorados na marina de Mykonos que adorariam a sua presença.
O elogio do homem foi acompanhado por um olhar descarado que desceu pelo meu corpo.
No mesmo instante, o corpo de Valerius ficou rígido como aço ao meu lado. A mão dele que estava na minha cintura apertou com tanta força que o tecido do vestido estalou. O sorriso diplomático dele sumiu por um triplo de segundo, substituído por uma expressão sombria, quase animal. Seus olhos cinzas escureceram, fixando-se em Julian com uma intensidade tão violenta que o homem mais velho deu um passo para trás, o sorriso congelando nos lábios.
Aquela possessividade territorial preencheu o espaço. Valerius puxou-me ainda mais para o seu peito, cobrindo o meu corpo com o seu de forma deliberada, protegendo-me do olhar do outro.
—Julian —a voz de Valerius saiu mais baixa, um som áspero que arranhou o ar —, a minha noiva não tem interesse em iates. E eu sou um homem muito ciumento com as minhas propriedades. Tenham uma boa noite.
O casal percebeu o aviso cortante na voz dele. Desculparam-se rapidamente, inventando um compromisso com outros hóspedes, e sumiram entre as mesas do restaurante em menos de um minuto.
Assim que eles se afastaram, a farsa ruiu. Afastei-me de Valerius com um empurrão firme, limpando o lugar onde a mão dele estivera como se tentasse tirar a queimação que ainda restava ali.
—Propriedade? —perguntei, a ironia pingando das minhas palavras enquanto o encarava com hostilidade —. Você quase quebrou as minhas costelas para manter as aparências, Von Valkis. Aquilo tudo foi ciúmes ou apenas medo de perder o seu brinquedo de trezentos mil dólares para um homem mais velho?
Valerius pegou o copo de água, os dedos ainda trêmulos pela tensão do momento anterior. Ele bebeu o líquido de um gole só, sem desviar os olhos dos meus.
—Foi para manter as aparências, Thalia —ele mentiu, a voz voltando ao tom gélido de sempre, embora o ritmo da sua respiração estivesse mais rápido do que o normal —. Se o mundo achar que eu não me importo com você, o contrato perde o valor. Eu protejo o que está assinado no meu papel. Nada mais.
—Claro —apoiei os cotovelos na mesa, aproximando o meu rosto do dele, vendo a fresta de desconforto que se abriu no olhar dele com a minha proximidade —. Continue dizendo isso a si mesmo se isso te ajuda a dormir à noite. Mas controle as suas mãos da próxima vez. O inferno pode ser seu, mas o corpo ainda é meu.







