Capítulo 6

Rafael Costa Valente

— É sério? Ela falou que assinaria um papel em branco para você colocar os termos que quisesse? — Assinto para o meu amigo Christopher que está estupefato. — Que louca! Poderia cair em uma armadilha perigosa. Sorte dela que estava diante de alguém honesto.

Deixo o garfo sobre o prato da sobremesa e digo:

— Quero sua ajuda para redigir o contrato. Afinal, você foi um grande advogado no exterior antes de se tornar um escritor bestseller anônimo.

Estamos comendo na sua varanda rustica em uma parte de Valdora onde a natureza é mais abundante. Depois que minha mãe declinou do almoço, resolvi almoçar com meu amigo.

— Pode contar comigo. Faço questão de acompanhar essa loucura de perto. — Seu olhar de gato arrisco me encara. — E a garota é gostosa?

— Não reparei, loiro. Estava mais preocupado com a questão de ser forçado a casar. E você trate de se comportar. Você é o anônimo mais famoso que existe.

A gargalhada dele vibra. Seu cabelo, cortado como um ídolo dos anos dois mil, balança com o vento fresco da propriedade.

— Mulher de amigo meu é zona proibida, pode ficar tranquilo.

— Acho bom. Não quero ser corno, nem por contrato.

— Ok. Agora que estamos cientes dos limites, vamos logo ao contrato? Estou ansioso para começar a mexer nisso. Nunca fiz algo tão intrigante.

Diz o autor se romances fantasiosos que cativas leitoras pelo mundo.

Quando estou prestes a concordar em seguirmos para o contrato, meu celular vibra sobre a mesa.

Primeiro toque... levanto uma sobrancelha ao ver de quem se trata. Segundo toque... Christopher me olha claramente questionando com os olhos “é ela?”. Terceiro toque... atendo, já colocando no viva-voz.

— Achei que tinha deixado claro — falo.

— Deixou, mas preciso que venha até a minha casa para que minha família acredite que casei. — A voz dela mostra nervosismo.

Christopher faz um gesto indicando uma forca e acabo rindo.

— Você só pode estar de brincadeira — digo para a mulher do outro lado. Isso que ela me pede é demais, e está longe do que foi combinado.

— Por favor! — É impressão minha ou ela está implorando com voz de quem chorou? Aff! Tanto faz. Fizemos um acordo.

— Não — respondo frio.— Nos vemos na assinatura do contrato, como acordamos.

Antes que meu dedo toque o aparelho encerrando o contato, podemos ouvir seu sussurro:

— Se eu estiver viva até lá.

Meu amigo e eu nos encaramos.

— Você disse que queria acompanhar a loucura de perto.

— O que precisa?

— Dos seus dons para criar personagens.

*

Depois de minutos estou quase irreconhecível. Christopher tinha escolhido algumas coisas para o disfarce e viemos fazendo a transformação no helicóptero. Nada muito gritante. Uma pequena pinta, um óculos, roupas comuns. Se o Superman pode se disfarçar com o mínimo, vamos ver se também consigo.

— Você está parecendo um CLT.

— E o que é isso mesmo?

— Um assalariado. Alguém que vive de salário.

Reviro os olhos para ele.

— E como sabe disso? Nem quando era advogado você vivia de salário, filhinho da mamãe nascido em berço de ouro.

— Pesquisas para criar personagens. — Ele dá de ombros, guardando as coisas que eu me recusei a usar na maleta. Correntes de ouro, brincos... isso já é demais. — Eu vivo meus personagens.

E ele quer dizer literalmente. Tirando a parte dos poderes e magia, que ele não teria nem se quisesse, meu amigo gostava de sentir os personagens vivendo algo deles. Acredite ou não, mas ele já jogou futebol, trabalhou como babá, até mesmo viveu um dia de garoto de programa por isso, entre muitas outras coisas. Às vezes acho que ele ainda vai cair em uma cilada por seus experimentos.

— Sabe para onde estamos indo? — questiona.

— Claro que sei. No momento em que peguei o número dela, já mandei para Kevin rastrear.

— Kelvin! — ele diz o nome fazendo uma careta.

Eu ignoro, meus pensamentos estão na estranha mulher com a qual me casei. Por que será que ela precisa de mim tão urgentemente?

O helicóptero pousa, descemos e vamos de carro que já estava esperando. O caminho é curtíssimo.

Em poucos minutos estamos diante da porta da casa onde o rastreamento do celular dela nos levou. Foi fácil buscar a localização pelo número. Rastrear é uma das especialidades do Kevin, que não ficou nada contente ao saber que eu estava aprontando com Christopher. Eles meio que sente ciúmes de mim, da amizade um do outro.

Depois de tocar a campainha, uma senhora com uniforme típico de empregada doméstica atende a porta.

— Sou o marido de Clara Luz Monteiro. Ela me chamou. — Diante da reação da mulher, ou melhor, a falta de reação, passo por ela e entro em uma sala razoavelmente bem decorada.

— O que é isso? Quem se atreve a invadir a minha casa assim? — Um homem na casa dos cinquenta anos, vestido de terno e gravada dentro da própria casa, questiona levantando do sofá.

— Ele é o marido da senhorita Clara. — A empregada diz. Parece que passou a surpresa.

— Onde está a minha mulher?

— Então você é o sujeito que enganou minha filha dizendo ser Rafael Costa Valente — ele diz me olhando de cima a baixo, com desdém. Isso prova que a fantasia de Christopher fez seu trabalho.

— Esse é o meu nome. Por que? Tenho que prestar contas agora por outra pessoa também ter esse nome?

— Seu atrevido! — ele vem para cima de mim, mas posso ver lhe faltar coragem diante do meu tamanho.

Só que nada disso importa quando ouço um grito, logo em seguida coisas se quebrando. É no segundo andar.

— Isso não é nada. É só a minha filha fazendo birra. — Ele diz claramente tentando evitar que eu suba.

Posso ouvir a voz da minha esposa por contrato gritando “socorro”, “não”, “me solta”.

— Isso não parece em nada com birra. — Christopher diz atrás de mim.

Sem pensar duas vezes, subo correndo as escadas, com eles em meu encalço tentando impedir. A porta de onde vem os gritos está trancada. Se eu estiver sem razão, dou até uma casa nova para eles, porque no momento... enfio o pé nela, quebrando a dobradiça.

— Puta que pariu! — ouço brevemente a voz do meu amigo atrás de mim.

Nesse momento, só vejo e sinto o meu punho indo em direção a face nojenta do velho que acabei de tirar de cima de Clara.

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