Mundo de ficçãoIniciar sessãoLORENZO
O nome Jonas Guerra ficou ecoando na minha cabeça. Não remetia a qualquer criminoso com quem cruzei, e era possível que Valentina tivesse razão: começou como um zé ninguém, devia estar comendo pelas beiradas há algum tempo, e, se chamou a atenção dos Calderón, era uma pedra no caminho que precisava ser retirada.
"Descubra tudo sobre esse Jonas", foi o que ordenei à minha Capo. Seguido por um: "Vou para casa." Só não fui. Tentei cochilar no sofá do escritório, e, como esperado, foi em vão. A ficha criminal dele chegou a mim às quatro da manhã, enviada por um contato do sistema penitenciário. O criminoso era um empresário do setor de segurança privada, condenado por agressão e tentativa de feminicídio.
Da janela, assisti ao dia amanhecer num céu cor de chumbo, o que, na cultura local, era considerado um mau agouro. Para mim, era indiferente: não importa como a manhã seja, o dia sempre podia acabar vermelho. Domingo: dizem que foi quando Deus descansou. Nunca me dei a esse luxo — até porque, na história, sempre fui um anticristo.
Valentina apareceu às seis horas.
— O que vem primeiro: café ou sangue? — jogou um dossiê sobre a mesa.
— Café. Me arrume um enquanto leio esta merda.
— Só lembrando que não sou sua cozinheira particular, tá? Vou ver se alguma puta ainda está por aí, pra fazer.
No documento, tomei ciência de que Amélia e Jonas trocaram três ligações nas últimas semanas; uma delas durou mais de vinte minutos. Lendo por completo, juntei as peças — o dito cujo comprava armas e recrutava menores para sua gangue. Valentina regressou, com duas xícaras de café. Não foi o melhor que tomei, mas estava amargo o suficiente.
— Idiotas! — cuspi. — Alberto acha que pode vender armas sem o meu consentimento? E Amélia, ela acha que pode bancar a viúva antes do enterro?
— E tem mais. Não tenho provas, mas tenho convicção, de que o tal Jonas tá fazendo de tudo pra diminuir a pena. Ele anda, sabe, molhando a mão de pessoas por aí.
Levantei-me. Puxei o terno que vestia o encosto da cadeira. Busquei pela gravata jogada no chão.
— Vá, reúna nossos melhores assassinos. Temos uma visita pra fazer.
— Agora? — Arqueou as sobrancelhas. — Domingo logo cedo?
— Se não há domingo pra mim, não haverá para ninguém.
***
A mansão dos Calderón situava-se numa colina, cercada por muros, câmeras e uma cerca elétrica que não funcionava desde o último blecaute. A segurança era mais instagramável do que eficaz — como tudo naquela família. Valentina liderou a entrada com apenas três homens — pode parecer pouco, mas eram os mais letais. Em menos de dez minutos, os guardas se encontravam desarmados, os cães sedados, e a porta da frente escancarada.
Entrei por último, como sempre. Eu não sujava as mãos sem necessidade e, naquele dia, não seria diferente.
Na sala principal, Alberto Calderón jazia no tapete, com um tiro entre os olhos. Minha Capo tinha recebido minha benção para fazê-lo. Já Amélia, de robe de seda e uma xícara de café nas mãos, se encontrava sentada no sofá, me esperando.
— Demorou mais do que eu calculei — comentou, sem levantar os olhos. — Eu avisei ao Beto que você descobriria tudo.
Aproximei-me devagar. O cheiro de seu perfume floral era nauseante.
— Você estava ciente de que ele vendia armas pra gangues que recrutam menores?
— Claro que sabia. Esse idiota me contava tudo. Era péssimo em guardar segredos... e em seguir meus conselhos.
— Qual foi seu conselho? Fazer negócios com Jonas Guerra?
Finalmente me encarou. Seu olhar castanho não demonstrou medo, muito menos alma.
— Os negócios de armas eram do Alberto. Meu negócio com o Jonas era algo mais... visceral.
Observei-a por um segundo.
— Que palavra bonita pra dizer que chifrava o marido. — Mesmo que parecesse uma piada, minha voz permaneceu fria.
Ela se dignou a não tecer comentários.
— Nossos pais tiveram um bom relacionamento no passado, por isso vou te dar o benefício da escolha — avisei.
Tirei a arma debaixo do terno.
— Nossos pais eram tão próximos que cogitaram em nos casar, lembra? Mas você, Don Lorenzo, matou o próprio pai. E eu tive que me casar com esse traste.
Li em sua expressão que ela não queria morrer: tinha muitos desejos a serem saciados. Guardei a arma e lhe dei as costas. Seu riso, confiante e venenoso, era a reação que eu esperava.
— Você está ficando mole, Don. Antigamente, já teria me matado. Agora, vira as costas pra uma mulher sem verificar se ela está armada?
Vocês imaginam qual a resposta de Lorenzo?







