Mundo de ficçãoIniciar sessão🌕🐺 Rowan Blackstone,
Caminhei pelos corredores da sede da matilha como se estivesse atravessando uma realidade paralela. Cada passo meu, parecia ecoar mais do que o normal. Cada sombra parecia se mover mais devagar. Meu corpo seguia adiante, mas minha mente estava suspensa da realidade, como se tudo em volta não existisse. Senti Darian ao meu lado. Ouvi sua respiração, percebi sua ansiedade pulsando, mas não consegui me conectar com ele. Era como se um instinto mais profundo me guiasse, um chamado que eu ainda não compreendia. Quando entramos no salão principal, todos os presentes se alinharam. Guardas, conselheiros, anciãos e soldados. Aqueles que governavam ao meu lado, que temiam meu nome e respeitavam minhas leis. Sentei-me no trono como fazia todos os dias, mas naquele momento, ele parecia um altar de julgamento. Darian não parava de andar de um lado para o outro. Notei o brilho em seus olhos, a expectativa contida, a esperança que ele tentava disfarçar com passos nervosos. Ele estava prestes a ver se a fêmea que aceitou traria a redenção que ele tanto sonhava. Então aconteceu. As portas duplas se abriram. Dois homens entraram, ambos pouca coisa mais baixos que Darian, fortes, vestindo o brasão da alcateia de Neros. Entre eles, arrastavam uma mulher. Ela tem longos cabelos pretos, pele morena, corpo curvado pelo torpor e, mesmo assim, havia uma tensão selvagem nela. Como se fosse uma chama sendo arrastada pelo chão. Eles a jogaram aos meus pés como se fosse algo sem valor. Levantei-me com um salto, o peito arfando, o rosnado escapando antes mesmo que eu percebesse: — Não faça isso com um ser humano, não diante de mim. Eu poderia rasgar suas gargantas agora só por essa atitude grotesca. O salão congelou. Os homens recuaram, os olhos arregalados de medo. Darian parou de andar. Todos os olhares estavam sobre mim. Mas eu só olhava para ela. Porque, mesmo dopada, ela se ergueu. Cambaleante. Fraca. Mas ereta. O corpo tremia, mas não se curvava. Havia uma petulância naquela postura. E então ela tirou os cabelos do rosto. E nossos olhos se encontraram. E no seu olhar, o mundo desapareceu. Não havia mais som. Não havia mais luz. Não havia mais Darian, nem matilha, nem trono. Tudo era ela. Tudo em mim gritou o nome dela, mesmo que eu não o soubesse. Meu coração, até minutos atrás ritmado, perdeu o compasso. Minha respiração se desfez em suspiros densos. Era como se meu corpo estivesse em bruma de novo, como se aquele calor lancinante queimasse por dentro e me arrancava a alma. Mas não era bruma. Era ela. Desejei beijá-la. Não como se deseja um corpo. Mas como se deseja a única verdade que importa no universo. Eu podia sentir o gosto do beijo dela mesmo sem nunca tê-la tocado. Seus lábios se moveram. Quase não havia som. Apenas um sussurro. Mas eu ouvi. Porque era para mim. — Eu rejeito você. O mundo voltou. As vozes, os passos, a respiração dos soldados, a presença de Darian. Virei o rosto e o vi me olhando. Ele olhava de mim para ela. Seus olhos estavam abertos demais. Sua mão trêmula ao lado do corpo. E então, naquele olhar, ele me perguntou sem palavras: — Aconteceu? Ela é sua Luna? Minhas defesas começaram a ruir. As muralhas que levei décadas para construir desmoronaram pedra por pedra sob a presença dela. Engoli em seco, minha voz seca, firme, escapando: — Já recebi sua fêmea. Agora preciso ir. Não esperei resposta. Saí. Fugi. Os pés tão rápidos que nem o vento conseguia me acompanhar. Passei pelas portas e corredores tão rápido que quando dei por mim, já estava em meio à floresta. Minha pele se rompeu. Ossos se moldaram. E eu estava em minha forma de lobo. Correndo. — Ela é nossa — Kaelar falou — Ela chegou. Eu não respondi. Corri mais rápido. Tentando deixar para trás o que o destino me empurrou de encontro. Mas não havia como fugir do que já estava cravado na alma. Ela me rejeitou.






