O INÍCIO DA MINHA NOVA VIDA

Quando cheguei em casa naquela sexta-feira à noite, quase tropeçando no saco de lixo que esqueci de por para fora, a primeira coisa que senti foi o cheiro, algo que eu nunca tinha percebido antes e que, de repente, me incomodou profundamente.

Cheiro de homem, de desleixo, de rotina velha. O aroma “cativante” que Eduardo tinha e eu nunca percebi, ou talvez só não me incomodava porque ainda havia amor, de certa forma, mas agora eu não quero mais nada disso.

Joguei a bolsa no sofá, amarrei o cabelo num coque improvisado e fui direto para o quarto. Olhei para a cama onde eu tinha encontrado Eduardo com outra mulher e senti uma onda de nojo subir pela garganta.

— Não. — murmurei para mim mesma. — Isso não vai ficar aqui.

Peguei um saco de lixo enorme e comecei a enfiar tudo dentro: lençóis, fronhas, travesseiros, cobertores. Tudo o que tinha tocado ele e ela.

Depois empurrei o colchão para fora do quarto. Quase desisti no meio do caminho, o colchão era grande demais para caber no elevador e eu teria que descer cinco andares com ele pelas escadas. A raiva de Eduardo ferveu dentro de mim, e como eu não poderia socar a cara dele, o colchão levou a pior, sendo chutado, golpeado e jogado das escadas por vezes seguidas até chegar ao térreo. Foi terapêutico, eu me movia por uma força que eu nem sabia que tinha.

Arrastei o colchão até a porta do saída de serviço, abri, e o puxei até as caçambas do lado de fora do prédio, o deixando ao lado delas.

— Adeus, prova do crime. — sussurrei, e voltei para dentro, praguejando mentalmente, pois ainda tinha pois sacos de lixo enormes para descer, mas agora, pelo elevador de serviço.

Quando terminei, corri para o banho e quando estava terminando de me trocar ouvi passos do lado de fora, no quarto.

Saí com a toalha enrolada na cabeça, com um pijama de camiseta e calça do Ursinho Pooh e armada com meu secador, tudo isso para dar de cara com Eduardo.

Ele deu um grito, enquanto eu só o encarava, preferindo que fosse um assaltante a esse encosto.

— Esther, por favor — ele começou, com os olhos vermelhos, as mãos levantadas em defesa. — A gente precisa conversar.

— Não, você que precisa sair da minha casa agora! — retruquei, levantando o secador outra vez.

— Calma, por favor! — choraminga — Eu errei! Eu sei que errei! Mas você me conhece, você sabe como eu sou…

— Infiel, folgado e babaca. — completei, soltando o secador e cruzando os braços e ele engoliu em seco.

— Eu te amo. — pareceu mais um apelo do que uma declaração, o que me revirou o estômago.

— Não — respondi, firme. — Você ama a ideia de alguém que cuida de você como uma mãe, eu não sou mais essa pessoa, vá se atracar com aquela ruiva ou chorar no colo da sua mãe, mas saia daqui ou eu chamo a polícia! — ameaço.

Então ele começou a chorar feito uma criança e nada nunca me irritou tanto na vida.

— Por que você está fazendo isso comigo? Eu sei que você ainda me ama, Esther, me perdoa, por favor. — implora ajoelhado, limpando as lágrimas e o nariz na manga da blusa que usava, seu rosto rechonchudo todo vermelho e inchado me lembrava um bebê de desenho animado.

Fiquei impassível e em silêncio, até que ele parou de chorar, se acalmou, levantou e tentou se aproximar de mim, mas o impedi levantando os braços.

— Eduardo, eu já não te amo há muito tempo, você ter me atormentado com aquela mensagem e usado nossa casa de motel só me ajudaram a finalmente me desprender do parasita que você era na minha vida, entendeu?

Ele ficou me olhando por alguns segundos, como se estivesse tentando entender tudo o que eu disse.

— Mas que mensagem? — perguntou e eu explodi.

— Ah, pelo amor de Deus, Eduardo! Sai da minha casa, some! — reclamei, o empurrando para fora do quarto.

— É sério, de que mensagem você tá falando?

— Agora não faz diferença, vai embora! — abri a porta da frente e o empurrei para fora ignorando seus protestos.

Ele finalmente saiu, murmurando algo sobre eu estar “descontrolada”.

Fechei a porta, tranquei e travei com uma cadeira, me culpando por nunca ter colocado um trinco, o que teria evitado tudo isso. Por um momento, encostei a testa na madeira, respirei fundo, mas não chorei, eu nunca mais choraria por um crápula como ele.

***

No sábado de manhã, a primeira coisa que fiz foi ligar para um chaveiro, se eu não trocasse hoje mesmo essas fechaduras, nunca mais me sentiria segura em casa.

Ele veio em menos de uma hora e fez a troca do miolo em só dez minutos, e eu finalmente respirei aliviada.

Depois disso, sentei no sofá com o notebook e comecei a procurar colchões online, minha coluna já não aguenta mais dormir no sofá. Escolhi um bem firme, confortável e ortopédico, como eu queria antes, mas comprei de molas para fazer as vontades de Eduardo.

Como eu pude ser tão burra? – refleti e comecei a olhar para a casa com outros olhos.

As cores neutras, os móveis tão quadrados, a decoração minimalista. Tudo escolhido para agradar o bebezão, porque se fosse muito feminino ele daria um show.

Eu nunca tinha percebido o quanto eu me apagava até aquele momento.

Passei o sábado inteiro reorganizando coisas, limpando, abrindo espaço para decorações que planejava comprar, tirei quadros que ele gostava e eu não, guardei objetos que eram mais a cada dele do que a minha e, já comecei a imaginar a casa com flores, almofadas coloridas, cortinas rose e um monte de bibelôs nas estantes.

Aquilo me deu uma paz tão grande, que mesmo no sofá, dormi como um bebê.

No domingo de manhã, acordei com o celular vibrando na mesa de centro da sala. Olhei a tela: Adrian Blackstone.

Meu coração deu um salto tão forte que eu quase deixei o celular cair. Esse homem nunca me ligou fora do expediente, e eu só consigo pensar em cenários horríveis para ele me ligar num domingo, mesmo assim, respirei fundo e atendi.

— Olá, bom dia! — cumprimento, sem saber ao certo o que dizer.

— Bom dia, Esther — a voz dele estava mais grave do que o normal, como se tivesse acordado há pouco. — Acordei você?

— Não — menti. — Eu já estava quase levantando.

— Ótimo — ele disse, e eu pude ouvir um leve sorriso na voz. — Preciso saber se você está livre esta manhã.

Eu me sentei no sofá, tentando organizar as ideias.

— Livre? Sim, eu acho que sim. Por quê?

— Surgiu um encontro com um cliente importante — ele explicou. — Foi de última hora e eu preciso de companhia.

Eu franzi a testa.

— Companhia?

— Sim — ele respondeu, como se fosse óbvio. — Você.

Meu coração bateu mais rápido.

— Eu? Mas… por quê?

Houve um silêncio curto e carregado.

— Porque eu quero você comigo — ele disse, finalmente. — E porque você, além do Marcus, é a única pessoa em quem eu confio para isso. — engoli em seco. — Marcus está fora da cidade, então, realmente, estou sozinho. — suspiro, notando uma certa fragilidade em suas palavras que nunca havia percebido. — ele pareceu soltar o ar com força do outro lado da linha. — Preciso que você venha.

Meu estômago deu um nó, eu não o deixaria na mão, ele não merecia isso.

— Onde? — pergunto e ele parece aliviado quando volta a falar.

— Te mando o endereço — ele disse. — Vista algo confortável. Mas… elegante.

Eu quase ri.

— Isso é bem contraditório, não acha?

— Eu confio no seu bom senso — afirmou, com aquela voz que fazia minha espinha arrepiar. — E, Esther…

— Sim?

— Obrigado por atender. — e desligou antes que eu sequer pudesse reagir, me deixando ali, com o celular na mão e o coração acelerado.

Eu sabia o que estava acontecendo, eu mal saí de um relacionamento e já estou me apaixonando pelo meu chefe como uma adolescente, mas isso é algo a ser controlado à qualquer custo, pois eu não sei o que ele quer com tanta aproximação e nem que bem, ou mal, isso pode me fazer. Só o que sei é que as coisas estão mudando e eu não faço ideia do que vem a seguir.

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