Verdades ditas baixo

CAPÍTULO 6

POV — Marino Bianchi

O silêncio voltou a se espalhar pelo clube como fumaça velha.

Ninguém se movia.

Ninguém falava.

Era o tipo de silêncio que só existe quando algo perigoso está prestes a ser dito.

Eu continuei parado perto da em silêncio por alguns segundos, depois olhei pra Alessio.

— Alessio — eu disse, sem elevar a voz. — Agora você vai me contar tudo.

Ele não fingiu não entender.

— Tudo o quê?

— Tudo o que você descobriu sobre a Willow. — Apoiei as mãos no balcão. — E como você soube que ela era uma Nowak.

Matteo e Lorenzo ficaram imóveis, atentos.

Alessio respirou fundo, como se estivesse abrindo uma gaveta que manteve trancada por anos.

— Não foi de uma vez — começou. — Foi aos poucos. Fragmentos.

— Fragmentos de quê? — perguntei.

— De conversas. — Ele fez um gesto vago com a mão. — Clientes mais velhos. Aqueles que vêm aqui há décadas.

Lorenzo soltou um riso curto.

— Os dinossauros.

— Exatamente — Alessio concordou. — Eles não fazem muita coisa além de beber, alem de transar… e fofocar.

Meu maxilar se contraiu.

— Fofocar sobre o quê?

— Famílias. — Ele me encarou. — Famílias rivais. Escândalos antigos. Filhos ilegítimos. Mulheres “apagadas”.

A palavra me atingiu em cheio.

— E o nome dela apareceu? — perguntei.

— Não de imediato. — Ele balançou a cabeça. — Primeiro, eles falavam dos Nowak. Sempre falam.

— O quê, exatamente?

— Que Edward Nowak nunca foi leal a ninguém — Alessio respondeu. — Nem aos amigos, nem às mulheres, nem aos próprios filhos. O que sabem que ele só tem dois filhos

- Isso é o que ele diz. - Matteo respondeu. - Se Willow for filha dela, qual motivo seria pra coloca a própria filha na prostituição?

O ar ficou mais pesado.

— Eles diziam que ele teve uma amante polonesa anos atrás — continuou. — Uma beta curandeira. Katarzyna Kowalczyk.

Meu coração acelerou.

— E o que aconteceu com ela?

— Foi descartada — Alessio disse, seco. — Quando engravidou. Dizem que ele abusava dela, de fato ela não era a companheira dele, dizem que ele era obcecado por ela. Que chegou a engravidar ela duas vezes.

Minhas mãos se fecharam lentamente.

— Continue.

— Diziam que a criança nasceu com cabelo vermelho uma menina de fato, já que o filho mais velho dele continua lá. Que Edward mandou a mãe embora do país. Que apagou registros. Que pagou para o nome nunca aparecer em lugar nenhum.

Matteo murmurou:

— Maldito.

— Um dos velhos — Alessio prosseguiu — comentou, anos depois, que a garota reapareceu… mas não como Nowak.

— Como o quê? — perguntei.

— Como mercadoria.

O silêncio que se seguiu foi brutal.

— Eles nunca disseram o nome — Alessio explicou. — Mas falavam de uma ômega de cabelo vermelho, sotaque estranho, que evitava contato visual quando o assunto era família.

Meu lobo rosnou.

— E quando você ligou os pontos? — perguntei.

— Na noite em que você saiu com ela. — Ele me olhou diretamente. — Depois que ela sumiu, os comentários voltaram. Um deles disse: “Edward resolveu um erro antigo”. Dizendo que Edward odiava essa filha por ela parecer a mulher que ele amou, mais os rumores dizem que essa mulher amou outro homem

Senti algo frio subir pela espinha.

— Então você sabia — eu disse. — Ou pelo menos suspeitava.

— Sim.

— Por que nunca me contou?

A pergunta ficou suspensa no ar.

Alessio abaixou o olhar.

— Porque não era só sobre você, Marino.

— Então era sobre quem?

Ele respirou fundo.

— Sobre mim.

Levantei o rosto dele com o olhar.

— Explica.

— Minha família sempre foi inimiga dos Nowak — ele disse, a voz mais baixa agora. — Cresci ouvindo histórias. Ódio herdado. Juramentos vazios.

Ele fez uma pausa.

— E mesmo assim… — engoliu em seco — eu servi bebidas, protegi silêncios… e vi você dormir com uma inimiga sua.

O impacto veio lento.

— Você achou que eu estava fraco — concluí.

— Achei que você estava vulnerável — ele corrigiu. — E eu não quis ser o homem que colocaria uma arma na mão de Edward apontada pra você.

Eu fechei os olhos por um instante.

Quando abri a boca, minha voz saiu firme.

— Você devia ter me contado.

— Eu sei.

— Mas agora contou.

Alessio assentiu.

— Porque isso já não é só passado. — Ele me encarou com seriedade. — É algo que está voltando.

Lorenzo respirou fundo.

— Então Willow não era apenas uma mulher perdida no clube.

— Não — eu disse, sentindo a verdade se encaixar como uma lâmina. — Ela era uma Nowak descartada.

— E você… — Matteo murmurou — dormiu com a filha do seu inimigo jurado.

Um sorriso lento, perigoso, surgiu no meu rosto.

— Não. — Corrigi. — Eu encontrei a mulher que Edward tentou apagar.

O clube parecia pequeno demais agora.

— E se ele descobrir que você sabe? — Alessio perguntou.

Eu me endireitei.

— Então ele vai entender que algumas coisas não ficam enterradas para sempre.

Especialmente sangue.

Especialmente vínculos.

Especialmente Willow.

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