Rafael entrou no quarto sem fazer ruído.
A casa Yamamoto tinha essa estranha capacidade de engolir passos, sons, intenções. Tudo ali parecia existir em estado de observação constante — até o silêncio.
Ele fechou a porta com cuidado, mais por hábito do que por necessidade, e caminhou alguns passos para dentro.
Parou.
Valentina dormia.
O corpo estava virado de lado, parcialmente encolhido, os cabelos espalhados pelo travesseiro, a respiração lenta, profunda. O rosto relaxado, distante de qualquer tensão do dia — como se o mundo tivesse sido desligado com um botão invisível.
Mas não foi ela que prendeu sua atenção.
Foi o muro.
Almofadas. Várias. Empilhadas com precisão quase militar no meio da cama, formando uma divisória clara, inequívoca, impossível de ignorar.
Rafael piscou uma vez.
Depois outra.
Avaliou a cena como avaliava tudo: em silêncio, sem reação imediata.
Então… algo aconteceu.
O canto de sua boca se moveu.
Não foi um sorriso aberto. Não foi algo que ele permitiria em público