Mundo de ficçãoIniciar sessãoO sol escaldante de Chicago batia no para-brisa do Lincoln Navigator como um punho cerrado, refletindo nos prédios de aço e vidro que se erguiam ao nosso redor como sentinelas indiferentes. Eu estava no banco do passageiro, com Silas ao volante, dirigindo com a precisão de um cirurgião cortando carne. O ar-condicionado zumbia baixo, misturando o cheiro de couro novo com o leve aroma de café que ainda pairava nas minhas roupas.
Dois dias livres, e eu já me sentia como se nunca tivesse saído daquela cela fedorenta. Mas a liberdade tinha um preço: reconquistar o que era meu por direito. "Porto Calumet", eu havia dito a Silas na noite anterior, depois de analisar os mapas digitais no penthouse. Ele assentira sem questionar, sabendo que eu não perdia tempo com conversas vazias. Agora, o carro deslizava pela I-90, deixando o Gold Coast para trás e rumando para o sul da cidade, onde o ar ficava mais pesado com o fedor de diesel, água salobra e suor de trabalhadores. Os Gallos - remanescentes teimosos da velha família Colombo - haviam se infiltrado em dois dos nossos caminhões de carga máxima. Armas, cigarros contrabandeados, talvez até uma pitada de cocaína para os distribuidores locais. Nada que eu não pudesse resolver, mas era uma afronta direta. E afrontas se pagavam com sangue. Silas estacionou o carro num beco discreto a dois quarteirões do porto, onde o asfalto rachado dava lugar a pilhas de contêineres enferrujados empilhados como túmulos gigantes. Desci, sentindo o vento quente do lago Michigan chicotear meu rosto, carregando o sal e o óleo que impregnavam o ar. Minha camisa branca absorvia o calor exagerado, mas eu ignorava o desconforto - anos na prisão me ensinaram a suportar pior. Silas me seguiu, sua silhueta alta e atlética se movendo com a graça de um predador. Ele carregava uma maleta preta, fina o suficiente para passar despercebida, mas pesada com ferramentas que não eram para conserto de carros. - Quantos? - perguntei, enquanto caminhávamos pela sombra dos contêineres, os pés pisando em poças de água estagnada que refletiam o céu nublado. - Três confirmados. Dois guardas nossos viraram ratos, aceitaram propina dos Gallos. O terceiro é o infiltrado principal, um tal de Marco Ruiz. Tatuagens de cobra no pescoço, fala com sotaque porto-riquenho misturado. Assenti, minha mente traçando o mapa mental do porto: os cais principais, os armazéns escondidos onde a Outfit armazenava o essencial. Eu conhecia cada canto dali de antes da prisão - rotas de fuga, câmeras cegas, pontos onde o barulho das ondas abafava gritos. Silas também me atualizara na noite anterior, mas nada substituía ver com os próprios olhos. Paramos atrás de um contêiner azul desbotado, e ele abriu a maleta: uma Beretta 92FS com silenciador, facas de arremesso, e um par de algemas reforçadas. Peguei a Beretta, sentindo o peso familiar na palma da mão, o metal frio contra a pele. - Vamos. Avançamos silenciosos, misturando-nos aos trabalhadores que carregavam caixas e gritavam ordens em espanhol e inglês. O sol batia forte, fazendo o suor escorrer pelas costas, mas eu mantinha o foco. Lealdade à Outfit significava eficiência - o Don expandira o império enquanto eu estava fora, e eu não queria manchar isso com erros tolos. Silas apontou para um armazém cinza, porta entreaberta, onde dois homens fumavam cigarros baratos, rindo de algo. Nossos traidores. Entramos rápido, como sombras. O primeiro - um italiano baixo com barriga de cerveja - nem viu o ataque: Silas o imobilizou por trás, braço no pescoço, enquanto eu pressionava a Beretta na têmpora do segundo, um branquelo magro com olhos assustados. - Boa tarde, cavalheiros. - eu disse, voz baixa e controlada, como sempre. - Acho que vocês esqueceram para quem trabalham. Eles congelaram, o cigarro caindo da boca do italiano. O ar dentro do armazém era sufocante, cheirando a óleo velho e poeira acumulada em pilhas de caixas rotuladas como "importações legais". Eu os forcei a sentar em cadeiras enferrujadas no canto, algemando-os às pernas de metal. Silas revistou os bolsos deles: dinheiro sujo, chaves de caminhão, um celular queimado. - Por que os Gallos? - perguntei, aguardando a Beretta no cós da calça e arregaçando às mangas. Não precisava de respostas elaboradas - traição era traição. O magricela gaguejou primeiro: - Eles pagaram melhor, senhor Rossi. Foi só uma vez... - a voz dele estava trêmula e sequer ousava me olhar nos olhos. Era mentira. Silas confirmara duas infiltrações. Eu assenti para meu amigo, e ele quebrou o dedo mindinho do homem com um estalo seco. O grito ecoou, mas as ondas do lago abafaram. O italiano suou frio, olhos arregalados. - Marco Ruiz. Onde ele está? - perguntei calmamente como se nada tivesse acontecido e estivéssemos em uma conversa casual. - E espero que não tentem mentir novamente, como podem ver, isso não vai funcionar muito bem para vocês. Eles cantaram rápido: no cais 7, supervisionando a carga roubada. Assenti, satisfeito. Saquei minha arma rápido e atirei na cabeça do homem mais gordo, o sangue jorrou, mas minha camisa se manteve intacta pela distância. Encarei o outro homem. - Você servirá de aviso para quaisquer outros que tentarem trair a organização. - sinalizei com a cabeça para Silas enquanto guardava minha arma novamente e dei às costas. Ele cuidaria do resto, talvez o enforcaria, ou seria um mergulho noturno no lago para ratos como ele. Esperei ao lado de fora, onde os gritos não me alcançavam até que ele terminasse. Saímos do armazém, o sol agora mais baixo, tingindo o céu de laranja avermelhado como sangue diluído. No cais 7, o vento trazia o ronco de guindastes e o cheiro forte de peixe podre misturado a diesel. Marco Ruiz era fácil de reconhecer: alto, tatuagens de cobra subindo pelo pescoço, supervisionando três homens descarregando caixas dos nossos caminhões. Eu e Silas nos aproximamos por trás, usando as sombras dos contêineres como cobertura. Quando chegamos perto o suficiente, eu atirei no joelho de um dos capangas - silenciador abafando o som a um ruído baixo. Ele caiu gritando, e o caos começou. Ruiz virou-se rápido, sacando uma Glock, mas Silas era mais rápido: desarmou-o com um soco no pulso, quebrando ossos. Eu segurei Ruiz pela gola da camisa suja, pressionando-o contra a borda do cais, onde a água escura lambia as pilhas de madeira podre. - Você invadiu território errado, Ruiz. - o homem me encarou surpreso, como se soubesse quem eu era, mas não havia medo algum, apenas irritação. - Damiano Rossi... Então os boatos são verdadeiros, O Corvo voltou. - ignorei seu comentário, não me admirava que ele soubesse meu apelido já que muitos tem contato com muitos homens na cadeia, não era atoa a tentativa constante de assassinato contra mim lá dentro. - Os Gallos deviam ter aprendido com o líder deles anos atrás. - ele riu com deboche. - Vocês estão fracos desde que Bianchi te jogou na cadeia, Corvo. Os Colombo vão voltar! Eu sorri friamente. - Vou adorar vê-los tentar. Não dei tempo para mais palavras. Um soco no estômago o dobrou, e Silas o algemou. Os outros capangas fugiram, mas não importava - mensagem enviada. Liguei para uma equipe de limpeza da Outfit: - Limpem o cais 7. Dois traidores no armazém cinza. Ruiz vai para interrogatório. Enquanto Silas arrastava Ruiz para o carro, eu parei na beira do cais, olhando o Lake Michigan se estendendo infinito, ondas batendo ritmadas como um coração pulsante. O sol poente pintava a água de ouro e vermelho, e por um momento, pensei em Caterina. Ela crescera vendo isso - o império que eu protegia. O Don a criara como filha, pelo que soube, garantindo sua segurança enquanto eu pagava o preço pela Organização. A Gratidão deveria ser eterna por isso. Mas e Sofia? A complicação no parto não parecia ser natural... Eu balançava a cabeça, dissipando a dúvida. Precisava focar no presente: jantar com o Don, reencontro com minha filha, e o casamento que selaria tudo. De volta ao penthouse, o sol já se punha quando entrei. O ar fresco do ar-condicionado me envolveu como um abraço frio, contrastando com o calor das ruas. Tirei a camisa suada, jogando-a no cesto de roupa suja - cheiro de suor e pólvora ainda grudado. No chuveiro, a água quente cascateou sobre mim no box de vidro transparente, lavando o dia. Fechei os olhos, sentindo os músculos relaxarem, a cicatriz na clavícula latejando levemente como lembrete. Onze anos de grades me ensinaram paciência, mas agora, liberdade significava ação. Saí do banho, sequei-me com uma toalha branca macia, e fui para o closet. Escolhi um terno preto sob medida, camisa branca imaculada, gravata fina preta - simples, letal. O espelho me devolveu um homem pronto: 1,92m de músculo controlado, barba rala aparada, cabelos negros penteados para trás, ainda grandes demais. Fiz a nota mental de ir ao cabeleireiro em breve. Coloquei a Beretta no coldre de ombro, escondida sob o paletó. Afinal, lealdade não significava descuido. Silas me encontrou na sala, atualizando relatórios no laptop. "Porto limpo. Ruiz interrogatório: Gallos planejam mais infiltrações no sul. Mandei reforços." - Bom trabalho. - eu disse, bebendo um uísque puro do bar. O líquido queimou a garganta, aquecendo o peito. - Vamos acabar logo com isso, me leve para Oak Park. Continua...






