Capítulo 6 — A Saída de Helena

— Seu pai está furioso — disse.

Alina voltou para a mala.

— Que novidade.

— Ele mandou os seguranças ficarem no portão.

Alina parou.

— Ele quer me prender aqui?

Helena apertou a bolsa contra o corpo.

— Ele quer controlar a situação.

— Situação sou eu?

A mãe não respondeu.

Alina riu sem humor.

— Claro.

Helena aproximou-se.

— Para onde você pretende ir?

— Para qualquer lugar onde ninguém decida meu destino durante o jantar.

— Você não tem estrutura para sair assim.

A frase doeu porque era verdade.

Alina virou-se.

— E de quem é a culpa?

Helena recuou um pouco.

— Minha também.

A confissão desarmou Alina por um segundo.

Helena abriu a bolsa e tirou um envelope.

— Pegue.

— O que é isso?

— Dinheiro. Um cartão no meu nome de solteira. E a chave de um apartamento antigo.

Alina não pegou de imediato.

— Que apartamento?

Helena olhou para a porta, como se Victor pudesse atravessá-la.

— Era da minha família. Pequeno. Está vazio há anos, mas ainda é meu. Seu pai não sabe que mantive.

Alina segurou o envelope devagar.

— Você tinha uma saída.

Helena pareceu envergonhada.

— Tinha uma lembrança de saída.

— Mas nunca usou.

— Não é tão simples.

Alina respirou fundo.

A raiva queria bater.

Mas havia medo demais no rosto da mãe.

— O que você começou a dizer lá embaixo?

Helena ficou imóvel.

— Quando Celeste falou em dívida. Você disse que eu não tinha nada a ver com alguma coisa.

— Alina…

— Não minta para mim hoje.

A mãe desviou os olhos.

— Eu não posso falar aqui.

— Então fale em outro lugar.

— Não.

— Mãe.

Helena segurou as mãos dela.

Os dedos estavam gelados.

— Existem coisas que homens como Victor e Damon usam como armas. Se você pega uma verdade antes de saber como segurá-la, ela corta você primeiro.

— Eu já estou cortada.

— Não assim.

Alina estudou o rosto da mãe.

Por baixo do medo, havia culpa.

Antiga.

Profunda.

— Você conhecia a mãe de Damon?

Helena soltou as mãos dela.

A resposta veio antes da palavra.

Alina sentiu o coração bater mais forte.

— Conhecia.

Helena fechou os olhos, como se tivesse se traído.

— Quem era ela?

— Uma mulher boa.

— Isso não responde.

— Era minha amiga.

A palavra entrou no quarto como uma pedra jogada contra vidro.

Amiga.

A mãe de Alina tinha sido amiga da mãe de Damon.

E mesmo assim Damon acreditava que os Valmont a tinham destruído.

— Damon sabe disso?

— Não sei.

— Celeste sabe?

Helena empalideceu.

— Celeste sabe tudo que escolhe usar.

Alina deu um passo para perto.

— Mãe, o que aconteceu com a mãe dele?

Helena olhou para a mala aberta.

— Termine de arrumar.

— Não.

— Termine, Alina.

— Você está fugindo da pergunta.

— Estou tentando manter você viva dentro de uma guerra que começou antes do seu nascimento.

Alina ficou em silêncio.

A palavra viva não parecia exagero na boca de Helena.

Parecia aviso.

Passos pesados soaram do lado de fora.

Helena enfiou algo pequeno entre as roupas da mala de Alina com rapidez.

— Não abra aqui — sussurrou.

— O que é?

A maçaneta girou.

Victor entrou sem bater.

Helena se afastou da mala.

— O que está acontecendo aqui?

Alina fechou a mala pela metade.

— Estou indo embora.

Victor olhou para Helena.

— Você está ajudando?

Helena endireitou os ombros.

Foi um gesto pequeno.

Mas, vindo dela, pareceu quase uma rebelião.

— Ela precisa respirar.

Victor riu.

— Respirar? Nossa filha acabou de ser humilhada publicamente por Damon Blackthorne, e você acha que a solução é deixá-la correr pela cidade como uma desesperada?

Alina segurou a alça da mala.

— Não sou nossa filha quando você fala assim. Sou seu prejuízo de imagem.

Victor virou-se para ela.

— Você quer honestidade? Sim. Você é. Neste momento, você é um problema que ameaça décadas de construção.

— Construção de quê? Da mentira?

O tapa não veio.

Mas Victor levantou a mão.

Helena entrou na frente.

— Não.

Alina sentiu o corpo gelar.

Victor olhou para a esposa como se ela fosse uma estranha.

— Saia da frente, Helena.

— Não.

A segunda negativa da manhã.

A casa Valmont parecia não saber o que fazer com mulheres dizendo não.

Victor abaixou a mão devagar, mas a fúria não diminuiu.

— Você não vai sair — disse a Alina. — Os jornalistas estão no portão. Você quer aparecer de mala na mão para que terminem de te transformar em piada?

Alina pegou o celular e abriu a tela. As notificações se acumulavam.

— Eles já fizeram isso.

Victor arrancou o aparelho da mão dela.

— Chega de exposição.

— Devolva.

— Você não está em condição de decidir nada.

Alina olhou para a mão vazia.

Algo dentro dela ficou quieto.

Perigosamente quieto.

— Sabe o que é mais humilhante do que ser abandonada por Damon Blackthorne? — perguntou.

Victor não respondeu.

— Perceber que meu próprio pai acha que a humilhação é minha culpa.

— Eu lhe dei um casamento.

— Você me entregou a um inimigo.

— Eu tentei salvar esta família.

— Vendendo sua filha.

A frase acertou o quarto inteiro.

Victor aproximou-se dela com os olhos duros.

— Cuidado com o que diz.

— Por quê? Vai me casar de novo com outro homem que me odeia?

Helena soltou um som baixo.

Victor segurou o celular de Alina com tanta força que os dedos ficaram brancos.

— Você não sabe nada sobre sacrifício.

— Sei o bastante. Eu fui o sacrifício.

O rosto dele se fechou.

— Você acha que Damon é o vilão porque feriu seu orgulho? Escute bem, Alina. O que os Blackthorne podem fazer se abrirmos uma guerra agora é muito pior do que uma noite de vergonha.

— O que eles têm contra você?

Silêncio.

Victor desviou os olhos por uma fração de segundo.

Alina sorriu, sem alegria.

— É sempre isso. Quando pergunto a verdade, vocês falam de proteção.

Victor jogou o celular dela sobre a cama.

— Fique neste quarto. Não fale com imprensa, não fale com Damon, não fale com Elias Moreau.

Alina congelou.

— Elias?

Victor percebeu tarde demais que tinha revelado medo.

— Ele não se aproximará deste assunto.

— Por que você odeia tanto Elias?

— Porque jovens advogados ambiciosos adoram transformar dor de família em carreira.

— Ou porque ele não te obedece?

Victor apontou para ela.

— Você não vai procurá-lo.

— Agora eu vou.

Ele deu um passo, mas Helena segurou seu braço.

— Victor, pare.

— Tire as mãos de mim.

Alina aproveitou.

Fechou a mala, puxou-a da cama e caminhou até a porta.

Victor tentou bloquear.

Ela parou diante dele.

— Se você me impedir de sair, eu grito para os jornalistas do portão que meu pai está me mantendo presa depois de vender meu casamento a Damon Blackthorne.

Victor ficou imóvel.

Alina não sabia se teria coragem.

Mas ele não sabia disso.

E, naquela manhã, era o bastante.

Ela passou.

Helena foi atrás.

— Alina.

No corredor, a mãe segurou sua mão e colocou algo nela.

Uma chave antiga.

— Portão lateral da cozinha — sussurrou. — O segurança de lá ainda respeita minha família.

Alina apertou a chave.

Por um segundo, quis abraçar a mãe.

Mas havia perguntas demais entre elas.

— Você vai me contar sobre a mãe de Damon.

Helena assentiu, com os olhos cheios.

— Quando for seguro.

Alina quase disse que nada era seguro.

Em vez disso, desceu pela escada de serviço.

O corredor dos fundos da mansão Valmont era menos bonito. Azulejos antigos. Cheiro de café. Funcionários falando baixo e parando quando ela passava. Alguns olhavam para sua mala. Outros fingiam não ver.

Na cozinha, duas empregadas calaram-se de imediato.

Alina reconheceu Teresa, que trabalhava na casa desde antes de ela nascer.

A mulher olhou para a mala, depois para o rosto dela.

— Menina…

A palavra quase quebrou Alina.

Menina.

Não senhora Blackthorne.

Não herdeira Valmont.

Menina.

— O portão lateral — Alina disse.

Teresa enxugou as mãos no avental.

— Tem repórter na rua.

— Eu sei.

— Tem gente que sente cheiro de sangue de longe.

— Hoje o sangue é meu.

Teresa fechou a expressão.

— Então lave o rosto antes de sair. Não dê a eles lágrima bonita para vender.

Alina respirou fundo.

Assentiu.

Foi até a pia da cozinha, abriu a torneira e jogou água fria no rosto. Sem espelho, sem algodão, sem delicadeza. A água escorreu pelo pescoço, molhou a gola do vestido.

Teresa lhe entregou um pano limpo.

— Levante o queixo — disse.

Alina obedeceu.

A empregada abriu a porta dos fundos.

— Vá pela direita. O carro de entregas está saindo. Use ele como cobertura.

— Obrigada.

Teresa tocou seu braço.

— Sua mãe não foi sempre fraca. Só ficou com medo por muito tempo.

Alina olhou para ela.

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