Mundo ficciónIniciar sesiónAlina atravessou tudo como alguém presa dentro de uma vitrine.
— Você está divina, querida — disse uma socialite, beijando o ar perto de sua bochecha. — Damon é um homem difícil, mas homens difíceis fazem casamentos interessantes.
— Interessantes para quem? — Alina perguntou.
A mulher riu, sem saber se era piada.
Damon estava a poucos metros, cercado por empresários e parentes distantes. Falava pouco. Sempre que alguém brindava à felicidade dos noivos, ele erguia a taça, mas não bebia.
Serena apareceu ao lado de Alina perto da mesa dos doces.
— Você foi corajosa nos votos — disse, pegando uma taça. — Quase comovente.
Alina virou-se para ela.
— Quase?
— É. Faltou Damon acreditar.
O sorriso de Serena era bonito. Caro. Cruel.
— Você costuma avaliar os votos de outras noivas? — Alina perguntou.
— Só quando o noivo deveria ter sido meu.
A frase foi dita com suavidade, como se Serena comentasse o clima.
Alina sentiu a primeira pontada real de raiva naquela noite.
— Então talvez você devesse ter perguntado a ele por que não foi.
Serena riu pelo nariz.
— Ah, querida. Homens como Damon nem sempre escolhem o que desejam. Às vezes escolhem o que precisam destruir.
O ar sumiu por um instante.
Alina sustentou o olhar dela.
— Destruir?
— Serena.
A voz de Damon veio por trás.
Serena virou-se com naturalidade demais.
— Damon. Eu estava apenas dando boas-vindas à sua esposa.
Ele parou ao lado de Alina, mas não a tocou.
— Dê de longe.
O sorriso de Serena vacilou.
— Sempre tão protetor.
Damon olhou para ela.
— Não teste minha paciência hoje.
Serena ergueu a taça, fingindo um brinde.
— Como quiser.
Quando ela saiu, Alina olhou para Damon.
— O que ela quis dizer?
— Serena fala demais quando está ferida.
— Ferida por quê?
— Por perder.
Alina soltou uma risada curta.
— Isso deveria me tranquilizar?
Damon observou o salão.
— Nada nesta noite foi feito para tranquilizar você.
Ela ficou imóvel.
— O quê?
Ele finalmente olhou para ela.
— Dance comigo.
— Eu fiz uma pergunta.
— E eu dei uma ordem.
Por um segundo, Alina quase recusou.
Mas todos estavam olhando de novo.
Damon estendeu a mão.
Ela aceitou, não por obediência, mas porque precisava chegar perto o suficiente para entender que homem tinha acabado de se casar com ela.
A música começou lenta.
No centro do salão, sob o lustre principal, Damon colocou a mão na cintura dela. Alina apoiou os dedos no ombro dele. O tecido do paletó era frio e macio.
— Você fala como se estivesse me ameaçando desde o altar — ela disse.
— Talvez você só esteja ouvindo agora.
— Nós nos conhecemos há três meses.
— Não.
Alina franziu a testa.
— Como assim, não?
Damon a conduziu num giro lento.
— Você me conheceu há três meses.
— E você?
A mandíbula dele endureceu.
— Eu conheço os Valmont desde antes de você aprender a escrever esse sobrenome em convites dourados.
Ela tentou se afastar, mas ele manteve a mão firme.
— Damon.
— Sorria — ele disse.
— Não mande eu sorrir.
— Seu pai está olhando.
Alina não olhou para Victor. Não daria esse gosto a nenhum dos dois.
— Então deixe que ele olhe.
Damon pareceu satisfeito por um segundo. Não feliz. Satisfeito.
Como se a irritação dela fosse uma confirmação.
— Você tem mais coragem do que eu esperava.
— E você tem menos educação do que fingiu ter durante o noivado.
— Eu não fingi educação. Fingi intenção.
O corpo de Alina ficou rígido.
— Que intenção?
A música chegou a uma nota mais alta. Os convidados giravam ao redor deles, vestidos brilhando, risadas subindo, taças tilintando.
Damon se inclinou apenas o suficiente para a voz dele tocar o ouvido dela.
— A de ser seu marido.
Alina parou de dançar.
Foi um erro pequeno, mas visível.
O sapato dela raspou no piso. Alguns olhares se voltaram.
Damon não permitiu que ela se soltasse. Continuou o movimento e a obrigou a acompanhá-lo.
— Continue — ele ordenou.
— Me explique.
— Hoje não.
— Hoje é o nosso casamento.
— Exatamente.
A frieza dele atravessou algo dentro dela.
Alina olhou para a primeira fila de mesas. Celeste Blackthorne estava sentada como uma rainha antiga, a bengala de cabo prateado apoiada ao lado da cadeira. Seus olhos estavam fixos nos dois.
Não havia celebração naquela mulher.
Havia espera.
Quando a dança terminou, os convidados aplaudiram. Damon soltou Alina com um pequeno aceno de cabeça, como se agradecesse uma reunião de negócios.
Victor aproximou-se logo depois, com dois homens que Alina reconheceu de jantares políticos.
— Excelente — disse o pai, pondo a mão nas costas dela com força demais. — Uma bela dança.
— Preciso falar com Damon — Alina disse.
Victor apertou os dedos.
— Você precisa continuar sorrindo até o fim da noite.
Ela virou o rosto para ele.
— O que está acontecendo?
O olhar de Victor mudou.
Foi rápido.
Mas Alina viu.
Medo.
Não raiva. Não impaciência.
Medo.
— Nada que uma esposa precise questionar em público.
— E em particular?
— Em particular, você lembrará que este casamento protege a nossa família.
— Protege de quê?
Victor aproximou a boca do ouvido dela.
— De pessoas que sabem onde estão enterrados os pecados dos Valmont.
Alina sentiu frio.
Antes que pudesse perguntar mais, Celeste Blackthorne surgiu ao lado deles, apoiada na bengala, elegante como uma lâmina.
— Victor — disse ela. — Que cerimônia impecável.
— Celeste.
Os dois se cumprimentaram com beijos no ar, mas a tensão entre eles parecia antiga demais para caber naquele gesto.
Celeste olhou para Alina.
— A nova senhora Blackthorne.
Alina endireitou os ombros.
— Senhora Valmont-Blackthorne, por enquanto.
Um canto da boca de Celeste se ergueu.
— Não, minha querida. Nesta família, quando uma mulher entra, deixa algo para trás.
— Inclusive a própria vontade?
— Principalmente as ilusões.
Victor soltou uma risada falsa.
— Celeste sempre teve senso de humor peculiar.
— Não era humor — disse Celeste.
Alina encarou a mulher.
— Percebi.
Pela primeira vez na noite, Celeste pareceu realmente vê-la.
Não como vestido. Não como filha de Victor. Não como peça.
Como obstáculo.
— Espero que Damon tenha sido claro com você.
Victor ficou imóvel.
Alina sentiu o ar mudar.
— Claro sobre o quê?
— Celeste — Victor advertiu.
A velha senhora sorriu.
— Ah. Então ainda não.
Ela tocou de leve a mão de Alina com dedos gelados.
— Aproveite a festa, menina. Algumas noivas só têm uma noite para acreditar que foram escolhidas.
Celeste saiu.
Alina não se mexeu.
Victor já procurava uma desculpa, uma distração, uma forma de costurar o rasgo antes que ele abrisse.
— Ela é cruel com todos — disse ele. — Não leve para o lado pessoal.
— O que Damon deveria ter me dito?
— Alina…
— Pai.
Ele respirou fundo, irritado por ela não baixar os olhos.
— Faça seu papel até o fim.
— Meu papel?
— Sim. Seu papel. Você acha que nasceu em uma família como a nossa para fazer perguntas sentimentais? Você acha que casamentos como esse são feitos de desejo? Damon trouxe estabilidade. Nome. Proteção.
— E o que nós demos?
Victor não respondeu.
Essa foi a resposta.
O jantar foi servido. Os discursos vieram.
Um tio bêbado falou sobre união. Um empresário falou sobre legado. Helena falou pouco, com os olhos brilhando demais. Victor fez um brinde impecável.
— À minha filha Alina, joia da nossa família, e a Damon, o homem digno de conduzi-la nesta nova fase.
Alina quase deixou a taça cair.
Conduzi-la.
Como se ela fosse uma mala. Um cavalo. Uma propriedade transferida por escritura.
Damon levantou-se para seu discurso.
O salão silenciou depressa.
Ele não usou papel.
— Agradeço à família Valmont pela recepção — disse. — Sei que muitos aqui veem este casamento como o fim de uma distância antiga entre nossos nomes.
Ele olhou para Victor.
Depois para Alina.
— Talvez estejam certos. Algumas distâncias acabam quando uma parte finalmente chega perto o bastante para ver a verdade.
Um murmúrio baixo.
Victor ficou pálido.
Damon ergueu a taça.
— À minha esposa.
Os convidados acompanharam.
Alina não bebeu.
Damon bebeu pela primeira vez na noite.
Depois disso, ele desapareceu por quase meia hora.
Alina o procurou entre as mesas, no jardim iluminado, perto da escadaria. Encontrou Serena rindo com Mirella Valmont, sua prima, as duas inclinadas uma para a outra como velhas cúmplices.
Mirella viu Alina e fingiu surpresa.
— Alina! Você parece cansada.
— É meu casamento. Acho permitido.
— Claro — Mirella disse. — Só cuidado para não parecer triste nas fotos. As pessoas inventam histórias.
Serena tocou o próprio brinco.
— Algumas nem precisam inventar.
Alina passou por elas sem responder.
A paciência estava acabando.
Encontrou Damon no corredor oeste da propriedade, longe da música, perto da biblioteca antiga que Victor mantinha fechada para convidados. Ele falava ao telefone, de costas.







