Entre Estranhos

Verônica acordou antes do despertador.

Por alguns segundos, ela ficou deitada olhando para o teto, tentando entender onde estava.

O quarto parecia grande demais.

Silencioso demais.

Então a memória voltou.

A mansão.

O casamento.

Leon.

Ela soltou um suspiro longo e passou a mão pelo rosto.

— Certo… isso é real.

Levantou-se devagar e caminhou até a janela. O jardim estava coberto pela luz suave da manhã, e por um momento tudo parecia tranquilo.

Bonito até.

Mas aquilo não mudava o fato de que sua vida tinha virado de cabeça para baixo em menos de dois dias.

Ela tomou um banho rápido, escolheu uma roupa simples e desceu as escadas.

A casa ainda estava silenciosa.

Até sentir o cheiro de café.

Seguiu o aroma até a cozinha.

Leon estava lá.

De pé diante da cafeteira, vestindo uma camisa escura com as mangas dobradas.

Por um segundo estranho, a cena pareceu… normal.

Como se fossem apenas duas pessoas começando um dia qualquer.

Ele olhou para ela.

— Bom dia.

Verônica demorou um pouco para responder.

— Bom dia.

Ela se sentou na bancada.

— Você sempre acorda tão cedo?

— Hábito.

Ele colocou uma xícara diante dela.

— Café?

— Obrigada.

Ela segurou a xícara entre as mãos.

O calor ajudou um pouco a afastar o peso que ainda estava no peito.

— Dormiu bem? — perguntou ele.

Verônica fez uma pequena careta.

— Mais ou menos.

Leon pareceu entender sem precisar de mais explicações.

— Imagino.

Ela tomou um gole do café.

— Isso tudo ainda parece muito estranho.

— Vai levar um tempo.

— Para mim ou para você?

Leon apoiou as mãos na bancada.

— Para nós dois.

Verônica observou ele por alguns segundos.

Era curioso.

Ela tinha esperado encontrar alguém frio e distante o tempo todo.

Mas Leon parecia… diferente.

Controlado, sim.

Reservado.

Mas não arrogante.

— Posso perguntar uma coisa? — disse ela.

— Pode.

— Você sempre resolve problemas se casando com as pessoas?

Ele soltou um pequeno sorriso.

— Não.

— Ainda bem.

— Essa foi a primeira vez.

— Que romântico.

Leon balançou a cabeça levemente.

— Não use essa palavra para descrever isso.

— Então como você descreveria?

Ele pensou por um momento.

— Prático.

Verônica riu.

— Você realmente é um homem de negócios.

— Culpa da minha família.

Ela ficou em silêncio por um instante.

— Falando nisso…

Leon levantou o olhar.

— Sua família sabia disso?

Ele respondeu sem hesitar.

— Sabia.

— E aprovou?

— Digamos que aceitaram.

Verônica tomou outro gole de café.

— Minha mãe quase desmaiou quando contei.

Leon pareceu surpreso.

— Você contou?

— Claro.

— Pensei que quisesse evitar perguntas.

— Não dava para esconder um casamento.

Ele assentiu.

— Justo.

O silêncio voltou por alguns segundos.

Mas não era um silêncio desconfortável.

Apenas… novo.

Como se ambos ainda estivessem aprendendo a dividir o mesmo espaço.

Até que o celular de Leon vibrou sobre a bancada.

Ele olhou rapidamente a tela.

A expressão mudou.

Verônica percebeu.

— Algo errado?

Leon leu a mensagem antes de responder.

— Talvez.

— O que aconteceu?

Ele colocou o celular de volta sobre a mesa.

— Um dos contratos da empresa foi cancelado esta manhã.

— Isso é grave?

— Bastante.

Ela franziu a testa.

— Por quê?

— Era um dos nossos maiores parceiros.

Verônica apoiou o cotovelo na mesa.

— E eles cancelaram do nada?

Leon assentiu.

— Alegaram mudança de estratégia.

— Isso parece estranho.

— Porque é estranho.

Ela ficou em silêncio por um momento.

— Você acha que tem algo a ver com o que aconteceu com minha família?

Leon pensou antes de responder.

— Ainda não sei.

Mas havia algo no tom dele que dizia que estava começando a suspeitar.

Verônica mexeu distraidamente na xícara.

— Daniel trabalha na empresa da família dele agora.

Leon olhou para ela.

— O Armand?

— Sim.

— Eles são concorrentes antigos.

— Eu sei.

— Você acha que ele teria algo a ver com isso?

Verônica demorou a responder.

Daniel nunca foi alguém cruel.

Mas ele também nunca foi bom em lidar com rejeição.

— Eu… não sei.

Leon observou ela por alguns segundos.

— Você ainda gosta dele?

A pergunta pegou Verônica desprevenida.

— O quê?

— Foi uma pergunta simples.

Ela cruzou os braços.

— Nós terminamos faz tempo.

— Isso não responde.

— Não.

Leon assentiu lentamente.

— Entendi.

— E você? — perguntou ela.

— Eu o quê?

— Já foi apaixonado assim por alguém?

Leon ficou em silêncio por um momento.

Como se estivesse procurando uma resposta honesta.

— Não.

— Nunca?

— Nunca tive tempo.

Verônica levantou uma sobrancelha.

— Isso parece triste.

— Ou prático.

Ela riu novamente.

— Você realmente gosta dessa palavra.

— Funciona bem.

Mas naquele momento…

Do outro lado da cidade…

Daniel estava sentado em seu escritório.

Um dos funcionários entrou.

— Senhor Armand… o contrato com a Alighieri Corporation foi cancelado como o senhor pediu.

Daniel assentiu.

— Ótimo.

O funcionário hesitou.

— Isso pode causar problemas.

Daniel levantou os olhos.

— Eu sei.

— Então por que fazer isso?

Daniel ficou em silêncio por alguns segundos.

Então respondeu calmamente:

— Porque às vezes é preciso começar pequeno.

Ele caminhou até a janela.

De lá, podia ver parte da cidade.

— E às vezes… a melhor forma de derrubar alguém…

Ele apertou o telefone com força.

— É tirar um pedaço de cada vez.

O funcionário saiu sem dizer mais nada.

Daniel ficou sozinho.

Ele abriu uma gaveta da mesa.

Dentro havia uma fotografia.

Verônica.

Ele olhou para a imagem por alguns segundos.

— Eu vou tirar você daquele lugar.

Sua voz estava baixa.

Mas carregada de determinação.

— Mesmo que ele seja o último obstáculo no meu caminho.

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