Mundo ficciónIniciar sesión
Lana Mérida estava casada havia dez anos com Rael. Um amor que, com o tempo, caiu na rotina. Ela vivia ocupada com as tarefas domésticas e com as responsabilidades do dia a dia. Trabalhava fora, cuidava da casa, e se acostumou com a vida que levava, mesmo que já não fosse feliz como antes.
Rael, por outro lado, se afundou no trabalho. Era um corretor de imóveis conhecido e respeitado, e trabalhava na empresa da família. Depois que seus pais se aposentaram, ele assumiu a administração da empresa, tomando conta de tudo sozinho. Seu irmão mais novo, Raul Mérida, não quis assumir responsabilidades, e isso fez com que Rael se apoderasse de vez do negócio, esquecendo que também tinha uma esposa esperando por ele em casa. Ao retornar do trabalho, Lana Mérida entrou em casa, tirou os sapatos e sentiu o piso gelado sob os pés. Rael ainda não havia chegado; a casa permanecia exatamente do jeito que ela a deixara pela manhã. Abandonou os calçados perto da escada que levava aos quartos e caminhou até a cozinha para servir-se de um copo de água. Foi quando ouviu o som das teclas de um notebook. Na ponta dos pés, aproximou-se do escritório. A porta estava fechada, mas não trancada. Girou a maçaneta lentamente e o viu: ele estava ao telefone enquanto digitava algo freneticamente; ora descansava o aparelho no ombro, ora assinava papéis com pressa. Rael já estava em casa, mas sequer tivera a audácia de acender as luzes do restante da residência. Lana consultou o relógio de pulso; já passava das dezenove e trinta. Tossiu levemente para sinalizar sua presença, mas ele continuou focado na ligação, discutindo em tom ríspido sobre um erro em um financiamento. Ela fechou a porta silenciosamente, pegou seus pertences e subiu para o quarto. Após o banho, a melancolia a invadiu. Fazia meses que não conversavam de verdade, sequer jantavam juntos. Naquela semana, celebrariam três anos de casados. Como um gesto de esperança, ela comprara lingeries novas; camisolas de seda delicadas e uma peça especial em couro, reservada para o sábado. Vestiu-se e desceu para preparar o jantar, prevendo que comeriam por volta das dez da noite. Quando terminava de pôr a mesa, ouviu o ruído da porta. De longe, a voz dele ecoou: — Preciso ir urgentemente à casa do Sérgio, um dos corretores da empresa. Não me espere para jantar. Diante da mesa posta e vestida para ele, Lana não conteve as lágrimas. Em um impulso de dor, jogou a comida fora, subiu, trocou de roupa e deitou-se. Para que esperar por alguém que sempre coloca o trabalho acima da própria esposa? Ela se perguntava se Rael ainda se lembrava de quem ela era. Na manhã seguinte, Lana acordou e o encontrou se arrumando. Um sorriso involuntário surgiu em seu rosto; muitas vezes, ela despertava e ele já havia partido. Ainda na cama, perguntou animada: — Tem planos para sábado? Ele a encarou como se a pergunta fosse um absurdo e voltou a atenção ao espelho, lutando contra o nó da gravata. Lana levantou-se rapidamente e ofereceu ajuda. Ele assentiu em silêncio. Próxima a ele, sentindo o perfume que tanto amava misturado ao cheiro do creme de barbear, uma vontade imensa de beijá-lo a dominou. Fazia tanto tempo que não eram íntimos. Contudo, assim que o nó foi feito, Rael pegou sua pasta de documentos. Sem um beijo, sem um toque, ele apenas avisou que não sabia se estaria livre no sábado e que, novamente, não voltaria para o jantar. Lana permaneceu estática na soleira da porta, observando o carro de Rael desaparecer na curva da rua. Ele partira sem ao menos lhe beijar a testa — um gesto que, no início, era tão natural quanto respirar. Agora, ele parecia ter esquecido o óbvio: um "tchau" ou um "até logo" sequer eram pronunciados, e a frase "eu te amo" havia se tornado uma relíquia de um passado distante. O silêncio que ele deixava para trás era pesado, sufocante. Sozinha naquele casarão que um dia prometeu ser um lar, ela caminhou lentamente até o quarto e encarou-se no espelho. Por longos minutos, Lana buscou no próprio reflexo algum vestígio do que havia de errado. Procurava uma resposta para a sua invisibilidade, tentando entender em que momento deixara de ser a mulher da vida de Rael para se tornar apenas uma sombra que ele não se dava mais ao trabalho de notar. Após o banho, Lana sentiu que as paredes daquela casa, outrora o cenário de seus sonhos, agora a comprimiam. Cada móvel escolhido com carinho parecia um monumento ao que não aconteceu. Sufocada, ela cruzou o jardim seco e ganhou a calçada, buscando no ar da manhã uma paz que já não encontrava entre aquelas quatro paredes. Caminhando sem rumo, ela passou a observar a vida pulsando ao redor. Viu crianças de mãos dadas com suas mães, mochilas coloridas balançando enquanto seguiam em direção à escola. O riso infantil e o gesto simples de cuidado de outras famílias foram como lâminas em seu peito. Uma dor profunda e lancinante penetrou nela ao lembrar-se do sonho de Rael no jardim, dez anos atrás: o desejo de ver um filho correndo entre as flores. Lana percebeu, com uma clareza cruel, que enquanto ele se dedicava a construir um império de imóveis e números, o tempo havia roubado dela a chance de construir a família que haviam planejado. Ela não era apenas invisível para o marido; sentia que a vida que ela desejara também havia se tornado um fantasma.






