Capítulo 5

(POV: Sophie)

Tentei passar por ele novamente, mas não cheguei longe. O braço de Alexandre barrou meu caminho com a firmeza de uma tranca de ferro, me forçando a parar a poucos centímetros de seu peito. O silêncio na cozinha era absoluto, quebrado apenas pelo som da minha respiração descompassada. Foi então que o cheiro me atingiu de novo.

Aquele perfume amadeirado, profundo e inconfundível. O mesmo aroma que ficou impregnado em minha pele e em minhas memórias naquela noite no bar. Senti um calafrio de puro horror percorrer minha espinha enquanto olhava para os olhos cinza-ferro dele, que eram idênticos aos de Caleb. Ele me observava com uma calma predatória. E por um momento, tive um pensamento sombrio.

— Esse perfume... — minha voz saiu como um sussurro trêmulo, carregado de uma percepção súbita e dolorosa. — Ontem à noite... no bar... era você, não era? Não era o Caleb.

Alexandre não desviou o olhar. Não houve hesitação, nem tentativa de negação.

— Era — ele respondeu, a voz gélida e direta.

O chão pareceu sumir sob meus pés. A náusea subiu pela minha garganta ao perceber a gravidade do que aquilo significava. Até aquele segundo, eu não imaginava que tinha traído o meu noivo, e agora a verdade era infinitamente pior: eu tinha traído o Caleb com o próprio tio dele.

— Você sabia? — Questionei, a voz subindo de tom enquanto a ficha caía com um peso esmagador. — Você sabia o tempo todo que eu estava te confundindo com outra pessoa?

— Sabia — ele admitiu, sem um pingo de remorso.

— E você sabia quem eu era? — Dei um passo à frente, a indignação queimando em meu peito. — Você sabia que eu era a noiva do seu sobrinho?

— Não... — ele respondeu, e por um segundo houve uma sombra de verdade em seu olhar. — Naquela noite, eu não fazia ideia de quem você era.

— MAS DEPOIS VOCÊ DESCOBRIU! — gritei, as lágrimas de raiva começando a transbordar. — E mesmo assim não disse nada! Você me deixou acreditar que eu estava com o Caleb enquanto... enquanto eu estava com você! Ai meu deus... O que eu fiz...

Dei outro passo, ficando perigosamente próxima dele. — Como você pôde? Agora, vou ter que carregar a culpa de ter traído o meu noivo... Quando na verdade eu estava sendo enganada por você! Você não tinha esse direito.

Ele deu um passo em minha direção, diminuindo o espaço entre nós até que eu estivesse encurralada contra a parede fria da cozinha.

— Por que você não esclareceu tudo naquela hora? — Perguntei

— Eu não disse nada por que você olhava para mim como se eu fosse alguém importante, Sophie. Alguém que importava de verdade. E eu quis entender o porquê. Eu quis ver até onde você iria com aquela ilusão.

— Então foi um jogo? — minha voz falhou em meio ao desespero. — Eu fui apenas um experimento para você se divertir às custas da minha vida e do meu compromisso com o Caleb?

O silêncio que se seguiu foi pesado. Ele se aproximou mais, agora perto demais, a ponto de eu sentir o calor que emanava dele.

— Não no começo — a voz dele baixou, tornando-se um sussurro rouco que arrepiou minha pele. — Mas depois... ficou difícil ignorar. Me impressionou o jeito que você me desafiava mesmo sem saber quem eu era.

— Você é um mentiroso — acusei, sentindo-me suja e usada.

— Sou — ele admitiu, os olhos fixos nos meus.

— Mesmo agora… — ele murmurou, aproximando o rosto do meu — você ainda não sabe se me odeia ou se…

Antes que eu pudesse recuar ou responder, ele inclinou o rosto e me beijou. Foi um beijo amargo, urgente e possessivo. Por um segundo terrível e confuso, meu corpo reagiu à intensidade, as mãos dele firmes em minha cintura me puxando para ele, me lembrando exatamente daquela sensação avassaladora da noite anterior.

Mas a lealdade ao meu noivo e o nojo pela aquela situação me atingiram como um choque. Eu o afastei com força, o peito subindo e descendo enquanto eu tentava recuperar o fôlego. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, minha mão voou em direção ao seu rosto.

O som do tapa ecoou pelas paredes da cozinha.

Alexandre virou o rosto com o impacto, mas não recuou. Ele permaneceu imóvel, a marca vermelha surgindo em sua pele clara. Quando ele voltou a me olhar, não havia raiva, apenas uma aceitação sombria e um brilho desafiador.

— Eu odeio você — eu disse, as lágrimas finalmente rolando pelo meu rosto.

— Eu sei — ele respondeu, a voz gélida voltando ao lugar. — Mas mesmo assim você ainda correspondeu ao meu beijo.

Não respondi nada, apenas sai da cozinha e fui para o quarto, sentindo que o mundo que eu conhecia havia acabado de ser destruído por um homem que eu mal conhecia, mas que já tinha o poder de me arruinar.

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