Mundo de ficçãoIniciar sessão(POV: Sophie)
Durante o enterro não tivermos mais interações, e eu agradeci aos céus por isso. Depois do enterro, seguimos para a mansão Drummond. Na sala de estar principal, Heitor, o avô do meu noivo, pediu que eu me retirasse para uma conversa particular em família. Fiquei grata pela saída, e fui direto para a cozinha, onde a governanta dona Helena estava, ela me ofereceu um pedaço de bolo de fubá, um pequeno oásis de gentileza. Ao voltar pelo corredor quase uma hora depois, para chamá-los para o café, parei diante da imensa porta do escritório, a mão erguida para bater, quando ouvi a voz cortante de senhor Heitor. — O único assassino aqui é você, Alexandre. Não se esqueça. Meu sangue gelou. Fiquei paralisada, o coração martelando. Em seguida ouvi a voz do tio de Caleb, baixa e perigosa. — Para um velho inválido, você está sendo bem ousado. Cuidado! Com o que fala. Um ruído de passos me fez recuar, mas não fui rápida o suficiente. A porta se abriu, e dei de cara com Alexandre. Ficamos parados, a poucos centímetros um do outro. O ar denso. Seus olhos cinza-ferro me avaliaram, e um brilho de diversão sombria surgiu neles. Um sorriso debochado. — Ora, ora — sussurrou ele. Antes que eu pudesse reagir, ele segurou meu braço, e me puxou para mais perto e depois afastou uma mecha do meu cabelo, os dedos roçando minha bochecha. O toque suave, estranho e extremamente íntimo, que me enviou um choque elétrico por todo o meu corpo. Fiquei paralisada. Ele inclinou a cabeça, sussurrando, a voz um veneno suave. — Se quer saber o que acontece dentro de uma sala, Sophie, não fique do lado de fora. Então, ele se afastou, e sua voz subiu para um tom normal. — Mas vejo que Lúcia já está lhe ensinando os costumes da família. Espionar pelas portas é um dos favoritos dela. — Ele me deu um último olhar de vitória e sorriu para mim, em seguida foi embora. Fiquei ali, a mão no rosto, o calor da vergonha misturado ao arrepio. Caleb e Lúcia apareceram, alheios ao que acabara de acontecer. — Soph? O que você está fazendo? — perguntou Caleb. — Eu… eu vim avisar que a mesa do café está posta — gaguejei. Caleb entendeu, mas Lúcia bufou com desdém. — Deixem-me sozinho — ordenou Heitor de dentro do escritório. Caleb me guiou escada acima. No quarto, ele se desculpou. — Minha família é… complicada. Contei sobre ter ouvido o avô dele chamar o tio de assassino. — Esquece isso. Eles se odeiam desde sempre. Agora, que meu pai deixou a maioria das ações pro meu tio, isso só piorou tudo. Vovô está furioso. — Ele forçou um sorriso. — Soph, não tenta entender. Nada nessa família faz sentido. — Seu tio… Ele me assusta. Caleb riu, sem humor. — Ele assusta todo mundo. Mas no fim das contas, é só um cachorro raivoso que late alto. Pode ficar tranquila que eu te protejo meu amor. Ele se aproximou para me beijar, e foi nesse momento que a dúvida me atingiu. Franzi o cenho, sentindo o aroma cítrico e leve que emanava dele. Era o cheiro de sempre, o cheiro que eu conhecia há anos. — Caleb... — comecei, hesitante, enquanto meus olhos buscavam a estante onde ele guardava seus pertences. Vi o frasco de vidro azul de sempre ali. — Você mudou de perfume? Ontem à noite, no bar... eu tinha certeza de que você estava usando algo diferente. Algo mais... amadeirado, marcante. Caleb soltou uma risadinha, acariciando meu rosto. — Amadeirado? Não, Soph. Eu uso o mesmo perfume desde o colégio, você sabe disso. Nunca mudei. Deve ter sido o cheiro do lugar, ou talvez de alguém que passou perto de nós. — Mas eu senti em você... — insisti baixinho, mais para mim mesma do que para ele. — Impressão sua, amor — Ele me beijou, e por um instante, a maciez de seus lábios me fez querer esquecer aquela estranheza. Eu tinha certeza do que havia sentido, mas decidi não questionar mais. Afinal, por que ele mentiria sobre algo tão bobo? ***** (POV: Sophie) O jantar foi um exercício de autocontrole. O silêncio pesava. Alexandre se juntou à mesa, acompanhado de outro homem, seu guarda-costas, talvez. — Helena, coloque sempre dois pratos a mais na mesa a partir de agora — disse ele, a voz calma, mas imperativa. — E prepare o meu quarto e um quarto de hospede para o Eric. Vamos ficar na mansão. Ninguém contestou. Durante a refeição, senti o olhar analítico e invasivo dele em mim. Eu me encolhia, evitando-o. Caleb percebeu meu desconforto e segurou minha mão por debaixo da mesa, sorrindo. Naquele instante, o mundo desapareceu, restando apenas ele e seu lindo sorriso. Quando subimos para o quarto, Caleb adormeceu rapidamente, exausto pelas tensões do funeral e das discussões familiares. Eu, no entanto, não conseguia fechar os olhos. O silêncio da mansão Drummond parecia pesado, carregado de segredos que eu ainda não conseguia decifrar. Tentei ler um pouco, folheando as páginas de um livro de arte, mas as imagens se misturavam em borrões sem sentido na minha mente. Sentindo um aperto estranho no peito e a garganta seca, decidi descer até a cozinha para buscar um copo de água, na esperança de que o movimento me trouxesse algum sono. Caminhei na ponta dos pés pelos corredores escuros, com a luz da lua filtrando-se pelas janelas altas e projetando sombras longas no chão de mármore. O silêncio era absoluto enquanto eu entrava na cozinha. Bebi a água rapidamente, querendo voltar logo para a segurança do quarto de Caleb. Mas, ao me virar para sair, meu coração saltou na garganta. — Perdeu o sono, Sophie? — A voz de Alexandre cortou o silêncio, gélida e direta. Ele estava encostado no batente da porta, as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria, observando-me com aquela intensidade predatória que me fazia sentir vulnerável e exposta. O susto foi tão grande que quase derrubei o copo. Não respondi; a surpresa travou minha voz. Baixei o olhar e tentei passar rápido por ele, meu corpo tenso, cada instinto gritando para eu fugir dali. Mas eu não cheguei longe. Alexandre se moveu com uma agilidade silenciosa e parou exatamente na minha frente, bloqueando a saída e me forçando a recuar um passo.






