Capítulo 3.

>> Blaze Fox <<

Entrei na sala privativa do The Vipers. Aquele lugar carregava mais do que o cheiro de cigarro e óleo de motor — carregava história. Era ali que assuntos sérios eram discutidos. Assuntos ilegais. Decisões que mudavam destinos. A atmosfera era densa, como se o próprio ar soubesse que, ali dentro, nada era dito à toa.

Esperei que todos se acomodassem antes de me sentar na cadeira vaga. A madeira estalou sob meu peso, como se reconhecesse que o fundador havia voltado. Wolf se levantou e veio até mim com algo dobrado nas mãos. Meu colete.

Quando o toquei, meus dedos tremeram por um segundo. Aquilo não era apenas couro e costura. Era o símbolo da minha história. Da nossa irmandade. Algo sagrado. Algo que eu mesmo fundei com sangue, suor e perda. Vesti o colete devagar, sentindo o peso real e simbólico sobre os ombros. Era como se cada cicatriz que carregava ganhasse voz naquele momento.

— Vamos fazer uma festa para anunciar que o fundador e o presidente voltou… — começou Wolf, sua voz firme.

Balancei a cabeça lentamente, cortando o clima antes que ele pudesse criar raízes.

— Não vou voltar a ser o presidente — declarei, minha voz soando mais áspera do que pretendia, mas era necessário. Minha decisão não era um convite para discussão.

Os olhares se voltaram para mim, arregalados, surpresos. Era como se eu tivesse quebrado algo invisível. Mas Raven, foi o primeiro a falar:

— Você vai sair do clube?

Soltei um meio sorriso, cansado, mas firme.

— Eu não disse isso. Só não posso me envolver nos negócios ilegais enquanto meu processo não for encerrado. Vamos manter as coisas como estão. Posso ser o conselheiro… e sempre estarei aqui para vocês. Mas, por enquanto, vou manter meu bar funcionando e ficar quieto. Quero descobrir quem armou para mim, e para isso preciso agir no silêncio.

Eles assentiram em silêncio, voltando os olhos para Wolf. Uma troca muda de pensamentos que, por enquanto, eu não fazia parte. Era estranho estar ali, no meu lugar, mas não sentir mais o controle.

— Sobre isso… — Wolf começou, quebrando o silêncio. — Achamos que foi alguém dos Corvos quem armou aquela emboscada. O líder deles morreu recentemente, e a viúva, Valentina, me procurou. Ela quer propor um tratado de paz.

— Tratado de paz? — repeti, minha desconfiança escorrendo na voz como veneno.

— Ela quer unir nossas gangues em matrimônio. Selar a paz entre o The Vipers e Los Cuervos.

Fiquei olhando para ele por longos segundos. Pisquei algumas vezes, tentando absorver a ideia absurda que ele acabou de jogar na mesa. Matrimônio? Se todos eles já tinham suas mulheres, quem…

— Não… — falei, e a ficha caiu como um tijolo no peito.

— É um ótimo negócio, Fox. Você casa com a viúva, e estando dentro da gangue deles, vai conseguir investigar melhor quem te ferrou — insistiu Wolf.

— Acabei de sair de uma prisão, e você quer me colocar em outra? Ficou maluco?

— Não pensa assim, Fox — disse ele, tentando ser racional. — Essa união vai ser boa para o clube. Sem concorrência, mais força, mais respeito. Você ainda vai poder caçar o desgraçado que te botou atrás das grades e de quebra, foder a viúva… que, por sinal, é bem gostosa.

Fechei os olhos por um momento, tentando não explodir com a leveza com que ele falava daquilo. A ideia de estar infiltrado dentro dos Cuervos fazia sentido. Estratégico e inteligente. Mas casar com o inimigo? Isso me corroía por dentro. Eu era um homem livre, e estavam querendo me amarrar de novo.

— Fox… — Jett falou com cautela. — Lembra de tudo que já perdemos por causa dessa rixa? Se essa união acontecer, ninguém vai ousar enfrentar a gente. 

Suspirei, sentindo o peso das expectativas sobre mim. Eu sabia que eles estavam certos. Mas entender não torna as coisas mais fáceis. Eu não soube proteger Lucy. Agora, me pediam para unir minha vida à de uma mulher que eu nem conhecia, que fazia parte da gangue que sempre tentou nos destruir.

Olhei para eles. Meus irmãos. Homens que deram tudo por esse clube e, mais uma vez, percebi que não era só sobre mim.

— Tudo bem… — falei, rendido à lógica e à lealdade. — Mas tenho uma condição… vamos morar aqui, na minha casa. Se essa viúva quiser mesmo paz, vai ter que viver no ninho da serpente.

Wolf abriu um sorriso largo. Um sorriso maldito de quem já sabia que eu cederia.

— Eu sabia que diria isso. E ela já aceitou essa condição. O casamento é amanhã de manhã.

— Às vezes eu te odeio por me conhecer tanto — rosnei, e ele gargalhou alto, aquele riso que sempre vem quando ele está certo.

— Então vamos organizar uma despedida de solteiro para o nosso conselheiro, hoje à noite! — exclamou Raven, já animado.

Todos concordaram, vibrando com a ideia. Depois de dois anos preso, tudo o que eu queria era me afundar em alguma mulher, encharcar a alma de álcool e esquecer que amanhã, estariam me colocando uma nova coleira. Eu estava livre… e mesmo assim, preso de novo. Mas hoje à noite, pelo menos, seria minha.

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