Capítulo 2.

>> Blaze Fox <<

Após dois anos preso, finalmente consegui sair por bom comportamento, mas a raiva por quem me colocou aqui ainda queimava nas minhas veias como lava viva. Era um fogo constante, um lembrete diário de que armaram para mim. Não houve justiça — só a dor e o silêncio das grades. Eu não esqueci, irei torturar tanto esse bastardo que, sim, provavelmente voltarei para a prisão… mas voltarei vingado.  Aquela entrega foi uma armadilha, e se eu não tivesse ido com os recrutas, meus irmãos é que teriam sido pegos. E isso… isso eu jamais suportaria. Preferia apodrecer na solitária a ver qualquer um deles atrás das mesmas grades que me engoliram.

O vento quente do Arizona soprou contra meu rosto como um tapa vindo da liberdade. Fechei os olhos por um instante, inalando o cheiro seco e empoeirado do deserto, e naquele segundo… senti. A liberdade era real, ainda que frágil. Era como acordar de um pesadelo. Mas eu sabia que o mundo aqui fora não era seguro, não para mim. Não enquanto meu inimigo ainda estava a solta.

Tenho muito o que fazer. Mesmo em liberdade condicional, terei que ser mais esperto, mais silencioso. O clube continua envolvido até o pescoço em negócios ilegais, e agora, com tudo em jogo, preciso descobrir quem foi o desgraçado que armou para mim. 

Quando ouvi os sons familiares de motores Harley rugindo pela estrada, cortando o silêncio do deserto como trovões anunciando tempestade. Sorri, ainda de olhos fechados. Eu reconheceria esse som em qualquer lugar. The Vipers… meus irmãos.

>> Passado (12 ANOS ATRÁS) <<

O portão do orfanato fez aquele rangido velho e irritante quando se fechou atrás de mim, como se quisesse me lembrar que eu ainda pertencia àquele lugar. Eu não olhei para trás. Não por orgulho — mas porque, se olhasse, podia acabar ficando ao ver meus amigos… meus irmãos.

Eu tinha dezoito anos, uma mochila leve, a mesma jaqueta puída de sempre e uma promessa pesada nas costas: em um ano, eu voltaria para buscar meu irmão.

O mundo lá fora não estava me esperando de braços abertos. A cidade fede a suor, gasolina e decepção. Mas eu já conhecia esse cheiro. Cresci no meio dele. E mesmo com os bolsos vazios, eu tinha algo que nenhum daqueles engravatados lá fora tinha: fome.

Consegui um trampo num bar decadente no Brooklyn. Fazia de tudo: limpava, servia, aguentava bêbado, segurava briga. O dono, um velho chamado Buck, me observava como quem já tinha visto muitos como eu… e, por algum motivo, ele me deixou morar aqui. 

Esse era o tipo de bar que vivia cheio de motoqueiros — caras com mais cicatriz que juízo, histórias demais e leis de menos. Gente que falava pouco, mas deixava tudo no olhar. Com o tempo, eles começaram a me notar. A me respeitar. E, um dia, me ensinaram a pilotar.

Na primeira vez que subi numa moto, entendi o que era liberdade.  Não tinha teto, não tinha cerca, não tinha freio. Só o vento na cara e o mundo correndo sob os pneus.

Com o salário do bar, dava para sobreviver mal. Mas meus irmãos iam sair do orfanato em breve, e eu queria ter mais que promessas vazias para dar pra eles. Então fiz o que sempre critiquei: comecei a roubar.

Motos, peças… velocidade na fuga, precisão na venda. E um rastro limpo. Não me orgulho, mas também não me arrependo, a cidade nunca jogou limpo comigo. Eu só devolvi o favor.

Quando Buck morreu, deixou o bar para mim. Sem testamento, sem aviso. Só a chave e um bilhete: “Faça melhor”. Então eu fiz. Vendi o bar e com o dinheiro comprei uma propriedade pequena em Rattlerock no Arizona. Chamei os poucos que confiavam em mim, os que rodavam comigo, os que carregavam no peito a mesma fúria que eu. E ali, naquela casa velha no meio do deserto, nasceu o meu legado. O bar Serpente Negra, um negócio legal para justificar de onde vinha minha grana e o The Vipers MC.

The Vipers MC, não era só um clube. Era um lar para quem nunca teve um.  E sim… éramos ladrões, mas com um código, com lealdade, com sangue nas mãos e orgulho no peito.

Eu não queria só sair do orfanato… eu queria ter algo para chamar de meu. E agora eu tinha.

O mundo ainda não conhecia meu nome, mas ia conhecer. E quando conhecesse… ia se ajoelhar ou queimar.

Quando meus amigos completaram dezoito anos e finalmente deixaram o portão enferrujado do orfanato para trás, eu estava lá fora esperando. Encostado na minha moto, o motor ainda quente, tentando parecer relaxado, mas por dentro o peito parecia apertado demais para caber tanto sentimento.

Aquele lugar tinha sido um inferno para todos nós. Frio no inverno, fome em muitos dias, e a constante sensação de que o mundo tinha nos esquecido. Ainda assim, foi ali que criamos algo que ninguém conseguiu tirar da gente: lealdade.

Quando eles apareceram no portão com mochilas pequenas e olhos cheios de incerteza, senti um nó na garganta. Não eram mais as crianças magras que dividiram comigo pão duro e brigas no pátio. Agora eram adultos… mesmo que o mundo ainda não estivesse pronto para nós.

>> Presente (DIAS ATUAIS) <<

Abri os olhos e lá estavam eles. Wolf, Jett, Raven e Ghost. O coração apertou no peito — não de dor, mas de algo que eu não sentia há muito tempo. Pertencimento.

— Estão atrasados! — disse com a cara fechada, mas deixei escapar um fio de ironia na voz.

— Também sentimos sua falta, Fox! — Wolf respondeu com sua expressão carrancuda de sempre, mas havia um calor ali, escondido no olhar. Sorri, e dessa vez foi de verdade. Um sorriso de alma.

Fui até cada um deles e os abracei com força, sentindo o peso da realidade. Eles ainda estavam aqui. Ainda eram meus. Ainda éramos nós.

— Temos que conversar sobre… — Jett começou, sempre direto, mas eu o interrompi com firmeza.

— Nada de negócios agora. Tudo que quero é um almoço decente com meus irmãos, ouvir suas histórias, suas risadas. Depois falamos sobre o clube.

Eles riram — aquele riso alto, sujo, sincero — e meu peito se aqueceu com algo raro: alegria. Arqueei a sobrancelha, desafiando o bom humor deles, e olhei para Wolf. Ele agora era o presidente, a voz final entre nós.

— Sabia que diria isso — respondeu, rindo pela primeira vez em muito tempo. — Vamos para casa!

***

Assim que cheguei ao bar, o cheiro familiar de cerveja, couro e fumaça invadiu meus sentidos como uma lembrança viva. O ambiente estava mais vivo do que eu me lembrava, ou talvez fosse eu que estava mais sensível a tudo. Outros membros da gangue vieram ao meu encontro, me cumprimentando com socos no ombro, abraços fortes e sorrisos sinceros. Era estranho… depois de tanto tempo encarando muros frios e olhares hostis, ver rostos que realmente se importavam mexia comigo mais do que eu gostaria de admitir.

Mas o que realmente chamou minha atenção foram as garotas que se aproximaram dos meus irmãos. Helena, eu já conhecia — ainda linda e com aquele olhar afiado que nunca deixava escapar nada, mas as outras eram rostos novos. Novas conexões. Novas histórias que eu não fiz parte.

— Fox, essa são Thalia, Eliane e Cláudia. — apresentou Wolf, com aquele tom tranquilo, mas firme, de quem agora carrega mais do que o peso do colete: carrega a responsabilidade de liderar.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Ghost completou:

— E meu filho, Davys. — Ele pegou nos braços a criança que parecia ter, no máximo, 6 anos. Pequeno, frágil, no entanto, símbolo de algo imenso: um futuro.

Por um segundo, perdi o fôlego. Uma criança. Eles estavam construindo vidas aqui fora, enquanto eu… bom, eu estava contando os dias numa cela gelada.

— Acho que perdi muita coisa enquanto estava preso… até o mascotinho o The Vipers ganhou.  — Comentei com um meio sorriso, tentando esconder a pontada amarga que subiu pela garganta. Foi uma tentativa de manter o tom leve, mas todos sabiam. Todos sentiam.

Ghost me olhou com orgulho. Orgulho de mim, por ter aguentado. Orgulho dos irmãos, por seguirem em frente. E mesmo que eu estivesse feliz por cada um deles ter encontrado alguém, construído algo… não podia negar que havia um vazio dentro de mim. Uma pontada de inveja silenciosa. Um eco daquilo que eu já tive… e perdi. Lucy.

O nome bateu como um soco no estômago. A lembrança dela veio nítida, cruel, como sempre. Seu sorriso, seu jeito ousado, e aquele olhar que me desafiava como ninguém. E depois, a dor. O sangue. O silêncio eterno. Eu a perdi por um erro meu, por ter sido estúpido o bastante para deixá-la participar daquela corrida ilegal. Eu pensava que ela aguentaria… que éramos invencíveis. Mas não éramos.

As garotas começaram a arrumar a mesa com uma naturalidade encantadora. Em meio às risadas, piadas e provocações que voavam de um lado para o outro, me peguei apenas observando. Sorrindo. O coração pesado, mas aquecido. Pela primeira vez em muito tempo, me senti ancorado. Estava cercado de família. De barulho. De vida.

Estava, enfim, em casa.

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