Casada com o INIMIGO
Casada com o INIMIGO
Por: Biah.C.Silveira
Capítulo 1.

>> Valentina Sallazar <<

O caixão descia lentamente, enquanto eu observava com uma mistura de emoções indescritíveis. Juan Garcia, líder da gangue Los Cuervos e meu marido, estava morto. Seu corpo ficou irreconhecível de tão queimado que estava, a única coisa que me fez reconhecê-lo foi o colar da nossa família que ele nunca tirava, agora parcialmente derretido e deformado.

A gangue estava desprotegida agora, e o peso do legado de meu pai pesava sobre meus ombros. Eu sabia que precisava agir, não só para proteger a mim mesma, mas também a minha filha Blanca, que segurava firmemente em meus braços enquanto observava o túmulo ser coberto de terra.

Quando a primeira carrada de terra foi jogada sobre o caixão, senti um aperto no peito. Puxei  Blanca para mais perto de mim, sentindo a responsabilidade esmagadora que agora repousava sobre meus ombros. Era hora de tomar as rédeas da situação, como líder dos Cuervos.

— Prima quer que eu a leve para casa? — Santiago perguntou, sua voz carregada de preocupação e lealdade. Ele era meu braço direito, e sabia que podia confiar nele.

— Não. Me leve para a sede do clube, precisamos nos reunir! — minha voz saiu firme, determinada. Era hora de planejar, de garantir que Blanca estivesse protegida e que os Cuervos continuassem forte, apesar da perda de Juan.

Com um pequeno aceno, Santiago abriu a porta do carro para mim, e eu entrei com Blanca nos braços. Ela era tudo o que eu me importava, a razão pela qual eu havia suportado tantos anos nas mãos daquele homem que agora estava morto.

O caminho até a sede do clube foi silencioso, apenas o som do motor e o ruído ocasional da cidade ao redor. Dentro de mim, um misto de alívio e determinação se misturavam. A guerra iminente não seria fácil, mas eu faria tudo o que fosse necessário para proteger Blanca e manter o legado de meu pai vivo.

***

Sentada na cadeira que, até poucos dias atrás, pertencia ao meu marido, sentia o couro ainda quente de um poder que agora era meu. O peso da liderança se instalava nos meus ombros como uma corrente silenciosa. Enquanto os membros do conselho debatiam animadamente sobre quem poderia ter matado Juan, eu os observava em silêncio, com os olhos fixos em Blanca, brincando distraída com sua boneca num canto da sala. Ela era inocente demais para entender o que estava acontecendo, mas eu sabia que, cedo ou tarde, o mundo cruel do qual ela fazia parte por nascimento, mostraria suas garras.

A verdade é que eu não me importava com a morte do Juan. Já fazia tempo que ele deixara de ser o homem por quem um dia me apaixonei. Tentei inúmeras vezes convencê-lo a deixar o tráfico de armas de lado, a retornar às corridas ilegais, onde o clube havia nascido com honra e adrenalina — não com sangue. Mas, como todo macho intoxicado pelo poder, nunca me ouviu. Mandava, berrava... e batia. Passei anos sufocando meu orgulho, engolindo a dor com o mesmo veneno que ele servia na mesa. Aguentei por Blanca… aguentei por medo. Mas agora ele estava morto, e com ele, se enterrava a parte frágil que um dia existiu em mim.

Olhei para meu pai, envelhecido e frágil em sua cadeira de rodas. Seus olhos, apesar da idade, ainda brilhavam com uma lucidez melancólica. Quando fundou o clube, tudo era diferente. Era só ele e alguns amigos viciados em velocidade, apostando em corridas que valiam dinheiro e respeito. Mas o clube cresceu, inchou, contaminado pela ambição de homens como Juan. Hoje, éramos a maior gangue de motociclistas de Rattlerock, na fronteira com o Arizona — território dos The Vipers, nossos maiores rivais e ameaça constante.

Casei com Juan por amor — ou o que achei que fosse amor — e quando ele assumiu a cadeira do meu pai, prometeu transformar o clube. E transformou. Em algo que nunca deveria ter existido. A entrada nas armas trouxe dinheiro... mas trouxe morte também, enterramos irmãos, primos, amigos. Quando os The Vipers tomaram o controle do comércio no Arizona, o ódio virou guerra… uma guerra que eu nunca quis e mesmo calada, vi meu mundo se esfarelar.

Por muito tempo, fui apenas um fantasma no clube. Eu cuidava das corridas, da logística, da parte limpa — se é que isso existe nesse universo. Nunca fui fraca, mas deixei que o amor me tornasse submissa. Não mais. Agora, tudo mudou, a vida me ensinou que o amor pode ser uma arma, e o silêncio, uma sentença de morte. Se você não for forte o bastante para enfrentar os homens, será esmagada por eles.

— Salazar, o que você quer fazer? — perguntou Carlos, o vice-presidente. A voz dele me irritava. Ele achava que tinha direito à liderança, mas todos sabíamos dos seus vícios e das decisões erradas que tomou nos últimos meses. Escolhido por Juan, ele era mais um reflexo do passado que eu queria enterrar.

— Vocês sabem que o negócio de armas nunca foi a intenção do meu pai quando fundou esse clube — comecei, firme, controlando o tremor que sentia no peito — mas também não podemos largar tudo do nada. Temos acordos com clientes perigosos. Minha proposta é simples: unir nosso clube aos The Vipers num casamento de conveniência.

Um silêncio pesado caiu na sala, seguido por uma explosão de fúria.

— Ficou maluca? — Carlos gritou, espumando de raiva. — Seu marido mal foi enterrado e você já está pensando em dar essa boceta pros nossos inimigos? Para os caras que podem ter matado o Juan?

Sem pensar, peguei minha faca e a cravei na sua mão, o sangue escorrendo da sua pele imunda. O grito de susto e dor cortou o ar como aço, mas eu não me intimidei. Meu olhar era de gelo.

— Cuidado com as palavras quando se dirigir à presidente desse clube — rosnei. — Não vou tolerar desrespeito por ser mulher. E principalmente não na frente da minha filha. Você me entendeu?

Carlos me encarou com ódio, mas acenou com a cabeça, o orgulho ferido e o medo falando mais alto. Com calma, puxei a faca e limpei a lâmina com um lenço, como quem fecha um capítulo sujo de um livro.

— Esse casamento é um tratado de paz. Os Vipers cuidam do comércio de armas. Nós voltamos às corridas, às nossas raízes. Não quero mais sangue derramado por causa da ganância de homens. Alguém tem alguma objeção?

Carlos mordeu a língua. Mas não se calou.

— Vamos votar sobre isso… e sobre sua posição como presidente.

A primeira votação foi rápida. Todos, menos ele, me apoiaram. Meus primos, os antigos aliados do meu pai, todos sabiam o que eu era capaz de fazer. Eu nasci nesse clube. Eu respirei a fumaça dessas motos. A segunda votação, sobre o casamento, foi mais difícil. Venceu por um voto… um único voto que selava um novo capítulo da nossa história.

Sabia que nem todos confiavam nos The Vipers — e com razão. Eles eram cruéis, impiedosos, movidos por uma lógica de guerra onde só os mais fortes sobrevivem. Mas, ainda assim, eu sabia que era uma boa escolha. Não só por estratégia… mas porque o pai da minha filha era um Viper. Um segredo que guardei no mais profundo do meu peito, sufocando a verdade com medo do que ela poderia causar. Não era só uma proposta de aliança. Era o primeiro passo para reescrever o futuro da minha filha.

***

Parei minha moto em frente à oficina dos The Vipers, que dividia terreno com o bar Serpente Negra, o coração pulsante da gangue rival. O som do motor se calou, mas meu peito ainda rugia com a adrenalina que vinha disfarçada de calma. Ajudei Blanca a descer da moto, suas perninhas pequenas e desajeitadas tocando o chão. Tirei com cuidado seu capacete e ajeitei seus cabelos loiros bagunçados, beijando sua testa com uma doçura que escondia um vendaval por dentro.

Olhei para a rua: o carro com nossos seguranças estava parado do outro lado, observando tudo em silêncio, como sombras treinadas para a guerra. Suspirei fundo e tirei meu capacete. Quatro homens estavam na entrada da oficina, me encarando com aquela mistura clássica de desconfiança e curiosidade, eles não sabiam quem eu era… não completamente. Já haviam me visto nas corridas ilegais, mas ali, sem o colete dos Cuervos, eu era só uma mulher com uma criança… uma sombra com passado oculto.

— Posso ajudar, senhorita? — um deles perguntou, com voz firme, o olhar afiado como lâmina.

Meus olhos caíram sobre seu colete: o título de Presidente bordado em vermelho sangue. Wolf. O homem que assumiu após a prisão de Fox. Quase sorri, mas mantive a neutralidade no rosto, não vim ali para provocar, vim para mudar o rumo de tudo.

— Quero falar com vocês… em particular. Tenho uma proposta para o clube The Vipers. — Falei direto, sem rodeios. A tensão que surgiu entre eles era palpável, como um motor engasgando antes de explodir.

— Vem comigo. — ordenou outro, e reconheci o nome no colete: Jett, o vice-presidente.

Ele nos guiou até o bar, que estava fechado àquela hora. O lugar cheirava a gasolina, couro e cigarro velho. Me levou até uma sala reservada, onde uma enorme serpente estava talhada na madeira da mesa — símbolo da gangue. No canto, um aquário abrigava uma píton viva, enrolada com preguiça predatória.

— Olha, mamãe, uma cobra de verdade! — Blanca exclamou, encantada, indo até o vidro, os olhinhos brilhando.

Sorri para ela, mas por dentro, meu estômago queimava de medo. Mas ela era a razão de tudo, a única coisa que fazia todo esse inferno valer a pena.

Jett apontou para uma cadeira e me sentei. Aos poucos, os outros entraram, a sala foi se fechando, como uma armadilha. Um deles, Ghost, me encarou.

— Sua filha pode esperar lá fora, esse assunto não é para a idade dela.

— Ela fica comigo. — Falei, firme como aço. O olhar dele recuou, mas sabiam que eu não cederia, e mais que isso, sabiam que mesmo os lobos respeitam o instinto protetor de uma loba com filhote.

— Certo — Wolf começou, cruzando os braços. — Qual seria a proposta?

Respirei fundo, observando Blanca, que agora desenhava no vidro do aquário com o dedinho.

— Nos próximos dias, vocês vão ouvir sobre a morte de Juan Garcia…

— O líder dos Cuervos? — Raven me interrompeu, surpreso.

— Sim, foi encontrado ontem. Hoje o enterramos, ainda estamos abafando a notícia, mas não durará muito.

O silêncio foi absoluto. Todos me encaravam com olhos atentos, alguns com cautela, outros com hostilidade.

— Você é da gangue dele? — Jett perguntou, a voz dura como concreto.

Sabia que, se Blanca não estivesse ali, já teriam me matado, mas ela era um escudo feito de inocência e eles sabiam disso.

— Sou a filha do fundador, a viúva e a atual presidente dos Cuervos.

Foi como atirar gasolina no fogo. As cadeiras arrastaram, mãos coçaram perto das armas, mas nenhum deles se moveu. O olhar de Blanca, curioso e tranquilo, era um lembrete cruel de que havia uma criança ali e por mais implacáveis que fossem, não eram monstros.

— Já te vi nas corridas — Wolf falou, com uma sombra nos olhos. — Não sabia que era esposa daquele verme.

Sorri de canto. Um sorriso amargo.

— Guardei esse lado por segurança. Mas o ponto é: estou cansada dessa guerra. Sangramos demais… homens morreram, famílias foram destruídas. Minha proposta é simples: união. Um matrimônio entre gangues. Vocês ficam com o contrabando de armas, incluindo o que era nosso e eu assumo as corridas ilegais. Divisão clara, sem mais mortes. Um império de dois reinos.

— Parece armadilha. — Raven rosnou.

Revirei os olhos, cansada da previsibilidade dos homens. Levantei devagar, fazendo os quatro ficarem tensos. Abri minha bolsa lentamente, suas mãos indo às armas, mas apenas tirei um contrato. O joguei na mesa. Jett pegou o papel, leu, passou para Wolf.

— Temos que ver se algum dos nossos aceitaria isso. Não vai ser fácil. — Jett me olhava com cautela.

— Não quero qualquer um. Quero alguém com voz aqui dentro. — Falei, firme como aço derretido.

Eles trocaram olhares. Um silêncio carregado se instalou.

— Todos aqui são casados. O único solteiro… é o Fox, nosso fundador e ele está preso. — Wolf me encarava com algo mais que curiosidade agora.

— Eu espero por ele. — Minha voz saiu firme, quase em sussurro. — Então, The Vipers, temos um acordo?

Mais olhares trocados. Mais hesitação. Mas, no fundo, eu sabia: se Fox aceitasse… minha filha estaria segura. Vivendo com o pai que ela nem sabe que tem e ele, talvez, nunca imaginou. Não sei como vai reagir quando descobrir que tem uma filha de cinco anos, uma parte de mim, uma parte dele, resultado de uma noite regada a festa e bebida.

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