Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 6
A manhã em Monte Ravello amanheceu dourada, espalhando luz pelas montanhas e atravessando as enormes janelas da mansão Beaumont. Samuel descia as escadas ajustando o relógio no pulso quando ouviu risadinhas vindas da sala de jantar. Alice estava à mesa com Catarina, os pés balançando no ar e o uniforme da escola levemente amassado. — Samu! — gritou a menina, pulando da cadeira e se jogando nos braços dele. Samuel a segurou no ar com facilidade, e um sorriso raro surgiu em seu rosto. Toda a frieza da noite anterior parecia ter ficado no escritório. — Hoje é dia do Samuel ficar com a Sofia! — anunciou ela animada, referindo-se à sua boneca favorita. — Ei, furacãozinho… — disse ele, tocando o nariz da irmã. — Você sabe que passeios são nos fins de semana. O mano precisa trabalhar. Alice cruzou os braços e revirou os olhos dramaticamente. — Blá, blá, blá… você é muito chato. Por isso não tem namorada! — Alice! — A voz firme de Catarina ecoou da mesa. — Respeite seu irmão. Samuel apenas riu contido e fez cócegas na irmã até ela implorar para parar. Depois de muitos beijos e promessas de brincar mais tarde, Alice saiu correndo pelo corredor. Catarina foi atrás, tentando conter o riso. O silêncio voltou a ocupar a casa. Samuel caminhou até a saída, onde o Royce já o esperava. Assim que ele entrou, o painel brilhou. — Bom dia, Senhor — a voz grave de Sirius preencheu a cabine. — A rota para a BeauTech está traçada, mas o endereço da família Avelar foi priorizado conforme sua última ordem. — Vamos passar por lá primeiro, Sirius. Quero ver de perto a "joia" que Daniel Avelar tanto protege — disse Samuel, com um tom de sarcasmo. Samuel dirigiu até o bairro dos Avelar e estacionou o Royce do outro lado da rua. Segundo o dossiê, ele deveria se casar com a filha de Daniel. Ele imaginava uma garota mimada, cheia de joias e futilidade. Foi quando a viu. Uma mulher saía pelo portão da casa com passos rápidos e expressão fechada. Os cabelos loiros balançavam com o movimento apressado, e o vestido branco com flores rosadas era simples, quase comum. Ela não tinha joias, não tinha bolsas de grife, e parecia furiosa com o mundo. — Sirius, confirme a identidade — ordenou Samuel, estreitando os olhos. — Reconhecimento positivo senhor — informou a voz profunda de Sirius. — Nos registros constam que a filha, Isabela Avelar, de 28 anos, mora aí com Daniel Avelar, Regina Avelar e mais um adolescente de 17 anos, Luca Avelar. Samuel franziu a testa, observando a mulher atravessar a calçada com uma expressão fechada. Então aquela era a famosa Isabela? A "relíquia" de Daniel? Ela não parecia em nada com a patricinha impecável que ele imaginava. Parecia real demais. Crua demais. — Ela não parece uma princesa de gala — murmurou Samuel para si mesmo. — Vamos ver o que ela esconde por trás dessa fachada de simplicidade Ele desceu do carro, decidido a testar a mulher. Calculou o passo e forçou um esbarrão leve na calçada, exatamente no momento em que ela passava. — Ei! Você não olha por onde anda, não? — disparou ela, fuzilando-o com os olhos. A aspereza de Lia o pegou de surpresa. Não havia o sorriso ensaiado das mulheres que queriam sua atenção. — Me desculpe, senhorita. Não foi minha intenção — respondeu ele, mantendo a voz controlada. Ele notou que ela olhou para o seu terno e o relógio caro com um desprezo quase visível. Como se odiasse tudo o que cheirasse a dinheiro. — Tudo bem — disse ela, seca, virando as costas. Samuel a seguiu. Ele queria entender por que ela parecia carregar o mundo nas costas. — Pelo seu tom… brigou com o namorado ou teve problemas com a mãe? — ofereceu seu melhor sorriso. — Deixa eu compensar minha distração. Posso te pagar um lanche ou o que você quiser. Lia parou de repente. Virou-se devagar, e o olhar dela faiscava de raiva. — Meu pai. A casa é do meu pai — a voz saiu firme, cortante. — E isso que você está pensando… não vai rolar. Não sou mais uma das garotas que caem no seu charme de terno caro. Com licença. Antes que ele respondesse, ela atravessou a rua e subiu apressada em um ônibus de linha. Samuel ficou parado na calçada, observando o ônibus se afastar. No seu ouvido, através do ponto eletrônico, a voz grave de Sirius interrompeu o silêncio. — Senhor, os níveis de rejeição foram absolutos. Meus algoritmos indicam que a senhorita Avelar não se impressionou com sua presença ou com seu status financeiro. Samuel deu um sorriso de lado, mas era um sorriso perigoso e carregado de descrença. — Não seja ingênuo, Sirius. Tudo isso foi calculado. O esbarrão, o olhar de desprezo e até aquele ônibus... — Samuel voltou para o Royce, fechando a porta e sentindo o silêncio absoluto da cabine. — Daniel Avelar deve ter treinado a filha muito bem. Ela sabe exatamente quem eu sou e está fazendo o papel da "menina simples e rebelde" para me instigar. Houve uma pequena pausa antes de a inteligência artificial responder, com aquele tom lógico que às vezes irritava Samuel. — Senhor, os protocolos de segurança da BeauTech garantem que sua imagem como Santiago Beaumont nunca foi revelada à imprensa. Não existem fotos suas em bancos de dados públicos. Como ela o reconheceria na calçada? Samuel apertou o volante revestido de couro, os olhos fixos na rua deserta. — Eu não sei, Sirius... mas vou descobrir — murmurou ele, com a voz sombria. — Se esse é o jogo que ela quer jogar, fingindo que não se importa com bilhões para parecer uma "vítima" a ser salva, eu também sei jogar. E eu nunca perco. Ele acionou o motor silencioso do Royce e acelerou. — Sirius, quero um relatório completo da rotina dela. Se ela pega aquele ônibus todo dia, eu quero saber para onde ela vai. Quero ver até onde vai essa atuação de "Isabela, a humilde". — Comando aceito, Criador. Iniciando rastreamento de câmeras urbanas no trajeto da linha de ônibus — respondeu a voz profunda da máquina. Samuel sorriu para o nada. Daniel Avelar achava que estava entregando uma filha protegida, mas Samuel acreditava que tinha acabado de encontrar uma adversária à altura. Mal sabia ele que o seu sistema de inteligência e o seu próprio ego o estavam levando direto para os braços da mulher errada.






