Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 2
O hospital parecia frio demais para aquela hora da noite. As luzes brancas iluminavam os corredores silenciosos enquanto Lia Cooper caminhava apressada em direção à recepção, o coração batendo tão forte que ela mal conseguia respirar. Seus dedos tremiam enquanto segurava a bolsa contra o peito. — Boa noite… — sua voz saiu fraca. — Minha avó… Rosa Avelar… disseram que ela foi trazida para cá. A enfermeira digitou algumas informações no computador e levantou os olhos alguns segundos depois. — Ela está na UTI. O mundo de Lia pareceu girar por um instante. — UTI? — Ela sofreu uma crise cardíaca grave. Os médicos ainda estão tentando estabilizá-la. As palavras ecoaram na mente de Lia como se viessem de muito longe. Sua avó era a única pessoa que sempre esteve ao seu lado. Foi quem a criou, quem a protegeu quando o resto da família parecia distante demais. — Eu posso vê-la? — perguntou, com a voz quase quebrando. — Ainda não. Ela está sendo atendida. Lia sentou-se em uma das cadeiras do corredor, sentindo as forças desaparecerem. O dia inteiro parecia um pesadelo sem fim. Primeiro a traição de Bruno e Sabrina… agora aquilo. Ela passou as mãos pelo rosto, tentando conter o choro. — Lia. A voz conhecida fez seu corpo enrijecer. Ela levantou os olhos lentamente e encontrou a figura elegante de Isabela Avelar parada alguns passos à frente. A madrasta parecia impecável como sempre, com roupas caras e um olhar calculado que Lia conhecia bem demais. Lia murmurou. — O que você está fazendo aqui? Isabela caminhou lentamente até ela, o som de seus saltos ecoando no corredor vazio. — Ligaram para o seu pai do hospital quando sua avó deu entrada aqui — respondeu com naturalidade. — Eu estava conversando com o médico agora há pouco… mas decidi vir ver como você está. Lia franziu levemente a testa. Aquilo não parecia certo. Isabela nunca se preocupava com ela. Na verdade, sempre fazia questão de deixar claro que Lia não fazia parte daquela família. — Como ela está? — Lia perguntou rapidamente, ignorando o desconforto que sentia na presença da madrasta. Isabela cruzou os braços, observando Lia com aquele olhar calculado que sempre a fazia sentir como se estivesse sendo analisada. — O tratamento será caro. Muito caro. Um frio percorreu a espinha de Lia. — Eu dou um jeito. Isabela soltou uma pequena risada. — Você? Lia, seja realista. Você mal consegue pagar seu aluguel. As mãos de Lia se fecharam em punhos. A paciência que ainda restava desapareceu naquele instante. — Isso não é da sua conta — respondeu com frieza. — Então fala logo o que você quer e sai daqui. Os olhos de Isabela se estreitaram levemente. — Porque nós duas sabemos muito bem que você não está aqui porque se importa com a minha avó… e muito menos comigo. O silêncio que se seguiu ficou pesado no corredor. Então, lentamente, um sorriso frio surgiu nos lábios de Isabela. — Sempre tão direta… — murmurou ela. — Muito bem, Lia. Vou ser direta também. Ela fez uma pequena pausa antes de continuar. — Um casamento. Lia piscou, incrédula. — O quê? — A empresa do seu pai está negociando uma parceria com a família Beaumont. Como parte do acordo… haverá um casamento entre os herdeiros. Lia soltou uma risada sem humor. — Então case a sua filha. Isabela inclinou levemente a cabeça. — Ela se recusou. — E isso é problema meu desde quando? — Desde agora. Isabela se aproximou mais, olhando diretamente nos olhos de Lia. — O noivo é Santiago Beaumont. O nome era conhecido. O herdeiro de um dos maiores impérios empresariais do país. Mas também havia rumores. Rumores de que ele havia sofrido um acidente anos atrás… e que ninguém mais o via em público. — Dizem que ele ficou desfigurado — comentou Isabela com indiferença. — Foi por isso que minha filha recusou o casamento. Lia sentiu o estômago revirar. — Então você quer que eu… — Se case com ele no lugar dela. Lia levantou-se imediatamente. — Você está louca? — Pense bem antes de responder. — Eu não vou me vender em um casamento ridículo para salvar os negócios de vocês! Os olhos de Lia brilhavam de raiva. — Meu pai jamais aceitaria isso! — ela continuou. — Ele nunca faria uma coisa dessas comigo… e muito menos com a minha avó. Isabela apenas sorriu. — Seu pai faz tudo o que eu quero. As palavras caíram como uma pedra no peito de Lia. — Você está mentindo. — Não estou. — Isabela respondeu calmamente. — Ele sabe muito bem dessa proposta. Lia balançou a cabeça, sentindo a revolta crescer dentro dela. — Então diga a ele que eu não aceito. Eu vou dar meu próprio jeito. Isabela pegou a bolsa com tranquilidade. — Vai mesmo? Ela caminhou alguns passos em direção à saída do corredor. — Não se preocupe, Lia. Você vai mudar de ideia. E sem dizer mais nada, saiu do hospital. Lia ficou parada ali por alguns segundos, tentando controlar a respiração. Ela jamais aceitaria aquilo. Jamais. Mas naquele momento um médico apareceu no corredor, caminhando rapidamente até ela. — Você é a neta da senhora Rosa Avelar? O coração de Lia disparou. — Sim. O que aconteceu? A expressão do médico era grave. — O estado dela piorou. Precisamos iniciar um tratamento imediatamente… mas ele é muito caro. Lia sentiu o chão desaparecer sob seus pés. O peso daquela realidade esmagou seu orgulho de uma vez só. Ela precisava de dinheiro. E precisava rápido. Sua mente buscou desesperadamente por alguma solução… qualquer solução. E então um nome surgiu em seus pensamentos. Bruno. Ele tinha um bom emprego. Uma vida financeira estável. Além disso… ele sempre administrava o dinheiro dos dois. Lia fechou os olhos por um momento, sentindo o coração apertar. Horas antes ela havia visto o homem que amava beijando sua melhor amiga. Mas agora… o orgulho dela não valia mais do que a vida de sua avó. Respirando fundo, Lia pegou o celular. E pela primeira vez em sua vida… ela se preparava para implorar por ajuda.






