Mundo de ficçãoIniciar sessãoMamãe me pediu para planejar uma viagem em família. Ao contornarmos uma área perigosa, eu e minha irmã, Linda, fomos atacadas por lobos selvagens. Para protegê-la, bloqueei as garras que vinham em nossa direção e fui empurrada para dentro de uma mina de prata. Minhas costas foram rasgadas por cortes profundos até o osso durante a queda, e toda a minha perna direita ficou crivada de fragmentos de prata. O veneno ardente se espalhou rapidamente, queimando por dentro — a mim e à minha loba. Minha loba uivava de dor. Ela estava morrendo. Mas minha mãe, a Curandeira-Chefe da alcateia, reuniu todas as curandeiras ao redor da Linda, para examinar minuciosamente cada arranhão insignificante que ela tinha. Chorando, implorei: — Mãe... o veneno está corroendo meu coração... Eu não vou aguentar... Ela se virou com impaciência e gritou: — Você ainda está competindo com sua irmã?! Você tem ideia de que ela quase teve o rosto ferido por uma garra de prata? Nossa alcateia não tem lugar para uma loba tão cruel como você! Naquele momento, ouvi o uivo de despedida da minha loba — e o meu também. No fim, adormeci no vento gelado... e nunca mais acordei.
Ler maisO rosto do pai, da mãe e do irmão se contorceu de choque ao encarar Linda. Um silêncio mortal caiu sobre o velório.Foi a mãe quem primeiro reagiu. Lançou-se sobre Linda, agarrando seu colarinho com força:— Linda! Como você pôde ser tão cruel?! Tirar a vida da sua própria irmã?!Tomada por fúria, ela ergueu a mão para bater, mas os Lobos-guardas a detiveram a tempo.Era a primeira vez, em todos esses anos, que a vi levantar a mão contra Linda.Linda, ciente de que já estava encurralada, soltou uma risada fria e encarou a mãe com desprezo:— Cruel? Eu só aprendi com você. Assassina? Quem ordenou que todas as Curandeiras fossem ao quarto da sua filhinha querida, atrasando o socorro da Coni? Foi você. Se não fosse por isso, eu jamais teria conseguido matá-la tão facilmente.As palavras cortaram como lâminas. Minha mãe paralisou. As lembranças que sempre ignorou começaram a arranhar sua mente.A culpa a invadiu como uma besta faminta.Ela caiu de joelhos, agarrando os cabelos, os olhos ar
Alguns dias depois, movida por um remorso tardio, minha mãe finalmente organizou uma cerimônia simples, porém digna, em minha homenagem.Além de alguns parentes distantes e conhecidos de outrora, compareceram também várias Curandeiras do centro de tratamento onde ela trabalhava.Aquela Curandeira estagiária que certa vez me tratara às escondidas também estava lá. Segurando um buquê de Erva da Lua, comum nas montanhas, ela se aproximou de minha lápide e sussurrou:— Sinto muito... Se eu tivesse sido mais corajosa naquela época, talvez você não tivesse chegado a esse ponto...Ela foi a única que verdadeiramente tentou me tirar do abismo — e também a única que, naquela cerimônia, inclinou a cabeça em arrependimento por mim.Ironia cruel: minha mãe, que me empurrou para a escuridão, permaneceu diante do meu túmulo e declarou, sem qualquer pudor:— Coni sempre teve um temperamento difícil. Dessa vez, ficou obcecada com o passado, quis prejudicar Linda e acabou se prejudicando.Todos present
Ao ouvir aquelas palavras, os olhos da minha mãe se dilataram. Ela ficou paralisada.Tentou forçar a mente a reconstituir a cena do acidente. Franziu a testa, falando com firmeza:— Isso é impossível. Ela caiu na mina junto com a Linda. A Linda já teve alta faz dias. O que poderia ter acontecido com ela? Não pensem que não percebo os joguinhos dela! Tudo não passa de manha para chamar minha atenção – mais uma tentativa patética de competir com a irmã pelo nosso afeto!— Aviso logo: parem de fingir drama! Não defendam mais essa filha ingrata que abandonou a família!A jovem Curandeira suspirou fundo. Sua voz carregava cansaço e um último apelo:— Curandeira-Chefe, não estou mentindo… Se duvida, vá até a sala mortuária e veja com seus próprios olhos.O semblante da minha mãe, por fim, vacilou. Ela começou a andar de um lado para o outro, os passos duros, murmurando:— Isso é loucura... Vocês estão todos loucos! Como se atrevem a inventar algo assim?!Sem esperar mais uma palavra, desligo
Assim que cruzou a porta de casa, Linda deixou-se cair delicadamente no sofá.Mal reclamou que estava com fome, e Natã — o mesmo guerreiro orgulhoso que jamais se aproximava do fogão — correu para a cozinha, decidido a preparar pessoalmente uma refeição nutritiva “só para ela”.Papai surgiu com um vestido cravejado de rubis nas mãos, um presente de “boas-vindas pela recuperação”.Mamãe passou a manhã redecorando o quarto da filha, cobrindo-o com Sinos Lunares e flores frescas, tudo para que ela acordasse com “boas energias”.Linda, apenas girando em frente ao espelho com o vestido contra o corpo, fazia os corações deles pararem. Bastava um movimento para que todos se alarmassem, com medo de que ela se ferisse de novo.E eu?Minha alma os seguiu de volta para casa.Mas a casa onde eu crescera — e onde vivi todas as minhas memórias — agora me feria com cada detalhe.Estava ali, mas era como se nunca tivesse existido.A campainha tocou.Eu reconheci o cheiro antes mesmo de vê-lo: Ivan.Me
Último capítulo