Analu
A vida simples tem um barulho diferente. Não é o silêncio denso dos corredores da clínica, nem o burburinho controlado da mansão. É o ronco distante do trânsito, a torneira pingando quando a gente esquece de fechar direito, o Cayo respirando baixinho ao meu lado de madrugada. São barulhos de verdade. E eu tô aprendendo a ouvir cada um, a me acostumar. Mas alguns barulhos ainda me fazem parar o coração.
Como hoje.
Era meio da tarde. Cayo tinha ido pra oficina, depois de passar em casa pra almoçar depois do trampo temporário. Eu tava tentando arrumar uma gaveta que emperrava, com uma faca de manteiga, fazendo mais força do que devia, me sentindo útil.
Foi quando ouvi.
Não uma batida.
Eram berros. Agudos, roucos, vindos do corredor, direto na nossa porta.
— CAYO! SEU MERDA! SAI DAÍ, SEU LIXO! VOCÊ VAI ME OUVIR!
O sangue gelou nas minhas veias. A faca escapou da minha mão e caiu no chão com um tinido. Eu conhecia aquela voz. Era a Gabi. Mas não a Gabi raivosa porém controlada das