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Capítulo 07 — O Quase Beijo 🔥 Sofia Bellandi

Sofia Bellandi

Eu estava curtindo minha noite e bebi sei lá quantos drinks.

Perdi a conta depois do quinto, mas tenho certeza de que estava ganhando da Giulia.

Falando nela, minha amiga estava em um sofá aos beijos com um moreno musculoso. Sorte a dela não fazer parte da máfia.

Continuei dançando, rebolando exatamente como Alina me ensinou uma vez, no ritmo das brasileiras. Eu nunca admitiria para ela, mas aquelas aulas improvisadas tinham dado resultado.

Foi quando senti alguém se aproximar por trás. Não me afastei.

Pela primeira vez em muito tempo, gostei da sensação de ser apenas uma mulher comum. Senti o desconhecido ficar mais animadinho, o corpo pressionando o meu enquanto continuávamos acompanhando a música. 

Eu não pretendia passar daquilo.

Precisava me manter intocada e virgem. Mas uma casquinha não fazia mal para ninguém.

Quando senti outra mão envolver meu braço, o mesmo choque estranho percorreu meu corpo. Virei imediatamente.

Augusto Montserrat.

Bonito pra caramba. Gostoso. E velho, Sofia. Arrogante também.

Esquece a aparência. Repeti isso mentalmente como se fosse um mantra.

Só que meu cérebro parecia colaborar muito  pouco quando o assunto era aquele brasileiro.

Ele apareceu com aquele jeito mandão de sempre, querendo decidir por mim. Antes que eu pudesse reclamar, o idiota que estava dançando comigo resolveu abrir a boca.

— Ei, tio...

Nem pensei. Meu punho encontrou o rosto dele antes que continuasse falando.

A satisfação durou exatamente dois segundos e logo veio a dor.

Depois do show do bastardo, Augusto segurou minha mão e praticamente me arrastou para longe da pista antes que eu arrumasse outra confusão. 

Caminhei atrás dele resmungando o caminho inteiro.

— Minha mão dói...

Ele nem diminuiu o passo.

— É óbvio que dói.

Fiz uma careta.

— Você podia demonstrar um pouco mais de empatia.

Augusto finalmente parou e virou na minha direção. Pegou minha mão com cuidado para examiná-la.

— Não parece quebrada.

— "Não parece quebrada." – Imitei sua voz, indignada. — Que avaliação maravilhosa.

Ele ignorou completamente meu sarcasmo.

— Você socou um homem.

— Porque ele te chamou de tio.

As palavras escaparam antes que eu pudesse pensar. Augusto ergueu uma sobrancelha.

— Então foi por isso?

Bufei.

— Claro. Ele nem te conhece.

Um sorriso discreto ameaçou aparecer no rosto dele. Vai chover pedras hoje com certeza.

— Achei que tivesse sido porque ele colocou a mão onde não devia.

— Também.

Ele soltou uma risada baixa. Dio mio. Era muito injusto.

Já era bonito demais, e, quando ria, conseguia ficar ainda mais irresistível. Que inferno.

Suspirei, desviando o assunto antes que minha própria cabeça começasse a me sabotar. Cheguei a conclusão que não sou igual à minha cunhada. Alina conseguia enfrentar sequestradores, mafiosos e ainda derrubar metade dos homens que cruzavam seu caminho.

Infelizmente... Eu era a fraude das mulheres. Sabia lavar dinheiro.

Sabia encontrar brechas na legislação. Sabia negociar com empresários, políticos e até enfrentar reuniões cheias de homens que duvidavam da minha capacidade.

Mas não sabia cozinhar. Não sabia cuidar de uma casa. E, pelo visto, também não sabia dar um soco sem quase quebrar a própria mão no processo. 

Augusto balançou a cabeça, claramente contendo o riso.

— Você realmente conseguiu me surpreender hoje, Sofia.

— Isso foi um elogio?

Ele sorriu de canto.

— Ainda estou tentando decidir.

Virei rapidamente e caminhei até o bar.

— Mais um drink.

Pisquei para o barman, que sorriu de volta enquanto começava a preparar o pedido.

Augusto apareceu ao meu lado.

— Você já bebeu demais, bambina.

Revirei os olhos.

— Bebi nada.

Dei um tapinha de leve no peito dele.

A mão demorou um segundo além do necessário para voltar. Minha nossa...

O homem era todo duro Será que tinha aquele tanquinho mesmo?

Se preserva, Sofia. Para com isso, mulher.

Percebi Augusto baixar os olhos discretamente para a minha mão ainda apoiada sobre o sobretudo. Para disfarçar, dei mais uma cutucada de brincadeira.

— Idosos não deviam estar dormindo essa hora?

— Idoso? Você acabou de socar um sujeito porque ele me chamou de tio.

Abri um sorriso convencido.

— Eu posso. Já temos intimidade.

Pisquei para ele. Naquele instante, o barman colocou meu copo sobre o balcão.

O drink era servido em uma taça elegante, com gelo transparente, uma fatia fina de pêssego presa à borda e um ramo de alecrim perfumando a bebida. O líquido dourado refletia as luzes da boate enquanto pequenas bolhas subiam lentamente até a superfície. 

Levei a taça aos lábios. O primeiro gole misturava o frescor cítrico, a doçura delicada do pêssego e um leve ardor do espumante que fazia cócegas na língua.

— Humm...

Deixei escapar um pequeno gemido de satisfação. Era muito bom.

Quando abaixei a taça, encontrei Augusto completamente imóvel. Os olhos dele estavam presos na minha boca. 

Por um instante, nenhum de nós disse absolutamente nada. Um arrepio percorreu minha pele de cima a baixo. Droga. Aquele homem precisava parar de me olhar daquele jeito. Ou eu precisava parar de reparar.

Terminei o drink devagar, ainda sentindo o sabor adocicado do pêssego na boca.

Deixei a taça sobre o balcão e virei para Augusto.

— Já que o senhor resolveu bancar meu segurança particular... Vou aproveitar minhas últimas músicas.

Ele fez uma expressão confusa.

Levantei dois dedos diante do rosto dele.

— Mais duas músicas. Depois pode fazer seu discurso de velho responsável.

 Augusto soltou uma risada e balançou a cabeça.

— Ok. Você tem direito a exatamente mais duas músicas. – A voz saiu firme, mas carregava um tom divertido. — Depois disso, eu mesmo vou deixar você em casa.

Inclinei a cabeça.

— Está me dando ordem?

— Estou oferecendo uma opção.

Sorri de lado.

— Isso teve muita cara de ordem.

Ele deu de ombros.

— Chame do que quiser.

Apoiei um cotovelo no balcão.

— Combinado então.  – Apontei dois dedos para ele confirmando. — Duas músicas. Sem me interromper.

— Desde que você fique longe de qualquer idiota que ache uma boa ideia colocar as mãos em você.

Revirei os olhos, dando alguns passos de costas em direção à pista.

— Já volto, vovô.

Augusto passou a mão pelo rosto.

— Continua insistindo nessa história de velho...

— Porque funciona.

Joguei um beijo no ar antes de desaparecer entre as luzes e a multidão.

Enquanto caminhava até a pista, tive a estranha sensação de que, mesmo permanecendo no bar, os olhos castanhos de Augusto continuavam me acompanhando o tempo inteiro.

Voltei para a pista completamente solta. A música alta fazia qualquer preocupação desaparecer por alguns minutos e eu aproveitava cada segundo daquelas que seriam minhas últimas duas músicas.

Foi então que alguém entrou na minha frente, obrigando-me a parar de dançar.

Levei um susto e só depois reconheci o rosto.

— Rocco?

Abri um sorriso enorme. Fazia anos que não o via. Rocco Bellucci também fazia parte da organização e, durante a infância, passamos boa parte do tempo juntos enquanto nossos pais participavam das intermináveis reuniões da máfia.

Meu pai chegou até a sugerir, mais de uma vez, que nós dois nos casássemos. Nem pensar. Rocco era apenas meu amigo. Nada além disso. Nos abraçamos com força.

— Voltou para Palermo e nem me avisou? Ingrato.

— Voltei ontem. Terminei a faculdade em Nova York e agora vou me dedicar a seguir os passos do meu pai.

Assenti, orgulhosa.

— Parabéns. Sabia que você conseguiria.

Rocco ergueu a mão e tocou de leve no meu queixo.

— Você está ainda mais linda.

Os olhos dele brilharam enquanto me encarava. Abri um sorriso simpático, tentando aliviar o clima.

— Você também não está nada mal.

Passei o olhar pelos ombros largos e pelos braços muito maiores do que eu lembrava.

— Olha só esses músculos… – Dei um tapinha no bíceps dele. — Tomou bomba, é?

Rocco caiu na gargalhada.

— Injustiça. Isso aí é academia e disciplina.

— Sei… – Semicerrei os olhos, claramente desconfiada. — Todo fortão fala isso.

— Está duvidando de mim, Bellandi?

— Claro que sim.

Ele balançou a cabeça, divertido.

— Continua impossível.

— E você continua péssimo para mentir.

Os dois rimos ao mesmo tempo, retomando a conversa como se os anos de distância nunca tivessem existido.

— Me concede essa dança?

— Claro.

Rocco segurou minha mão e me conduziu alguns passos para o centro da pista. Começamos a acompanhar o ritmo da música, rindo quando um ou outro errava o compasso. Era tão fácil conversar com ele quanto anos atrás.

— O Don sabe que você está aqui?

Mordi a parte interna da bochecha.

— Não... Você vai contar? – Soltei uma risada sem graça. Sentindo aquela necessidade ridícula de se explicar.  — Eu só queria me distrair um pouco. Sei lá... viver antes de casar, sabe?

Rocco assentiu lentamente.

Shhh... Eu entendo. – Aproximou um pouco o rosto do meu. — Seu segredo está bem guardado.

Inclinei a cabeça, divertida.

— Mesmo se eu beijar alguém?

Ele abriu um sorriso torto.

— Se for eu.

Dei um tapa de leve no braço dele.

— Idiota.

— Estou falando sério, Sofia. – A expressão dele perdeu um pouco da brincadeira. — Um beijo pelo seu segredo... e para tirar a dúvida se existe química entre nós.

Piscou. Meu coração acelerou. Talvez fosse culpa do álcool. Talvez a curiosidade. Ou talvez o fato de que meu pai e o dele insistiam naquela ideia havia anos. Sempre enxerguei Rocco como um amigo. Nunca como um homem com quem dividiria a vida. Mas...

E se um beijo mudasse isso?

Va bene.

O sorriso do homem aumentou imediatamente. Achei que fosse direto à minha boca.

Não foi. Rocco primeiro depositou um beijo delicado na minha testa, depois em cada lado da minha bochecha e roçou os lábios na ponta do meu nariz, arrancando uma risada baixa.

Em seguida, aproximou-se do meu pescoço. O gesto era lento, cuidadoso, quase como se me desse tempo para desistir.

Sem perceber, senti meu corpo relaxar. Quando ele levou as mãos aos meus cabelos e diminuiu a distância entre nossos rostos, fechei os olhos.  Foi nesse exato instante que alguém me puxou para trás com firmeza. Meu equilíbrio desapareceu e assustada, abri os olhos imediatamente.

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