Mundo de ficçãoIniciar sessão“Sophia”
Dante sai esbaforido da copa e me deixa sozinha. Que droga, logo o sistema em que ele está trabalhando e quer colocar na licitação. Muito chato isso. Bem, não vou ficar aqui para atrapalhá-lo, vou agir a vida.
Me levanto e levo as xícaras para a pia e as lavo. A minha mania de limpeza e organização não permite que eu deixe xícaras sujas sobre a mesa. A porta se abre e olho para trás para ver se é o Dante.
— Doutora, deixa isso aí que depois eu lavo. — É a secretária dele, a senhora que me recebeu mais cedo.
— Relaxa. Estou acostumada a lavar louça. Odeio louça suja e lavo logo. Pia limpa é outra coisa.
A mulher encosta na bancada da pia e me observa em silêncio a lavar as xícaras e os pires. Ela pega do bolso da saia um maço de cigarros e um isqueiro.
— Se incomoda? — Ela pergunta com a voz rouca.
— Imagina. Meu pai fumava quando eu era criança. Estou acostumada. Existem coisas piores que cigarro.
Ela acende o cigarro e abre a janela da copa para a fumaça sair. Dá um longo trago e sopra a fumaça cinza para fora, balançando a mão para que ela se desfaça.
Coloco a louça que acabo de lavar sobre a bancada e enxugo minhas mãos em um papel toalha que arranco de um rolo próximo. A secretária ainda está parada perto de mim fumando, quando entre um trago e outro, faz uma observação indiscreta.
— Você não é casada.
Solto um riso pelo nariz.
— Não. Solteiríssima.
Ela se vira para mim, interessada.
— Qual a razão? Você é lésbica?
Sorrio para ela e dou uma resposta educada.
— Não. Eu só não encontrei alguém que valha o esforço. Gosto demais de mim para me envolver com alguém que não me valorize.
Ela concorda com a cabeça.
— Interessante essa forma de pensar. Sou casada há mais de trinta anos. Nem sei mais como é ser solteira.
Pego a minha bolsa sobre a mesa e corto o assunto pessoal demais para o meu gosto.
— Pelo visto o Dante está bem ocupado com o problema no sistema. Vou embora para resolver outros problemas. Avise a ele, por favor?
A secretária curiosa apaga o cigarro dentro da pia.
— Pode deixar, doutora. Bom trabalho para você.
Aceno com a cabeça rapidamente e saio da copa. Um pouco invasiva a secretária do Dante, mas estou acostumada a pessoas assim, começando pela minha mãe. Passo rápido pelo canto do escritório e vejo Dante do outro lado conversando com um dos funcionários. O rosto dele mostra o quanto está preocupado. Dou uma meia parada, mas decido ir embora de vez. Me despedir só o distrairia e não quero fazer isso.
Aperto o botão do elevador e aguardo. Quando ele chega e as portas se abrem, entro e aperto o botão para o térreo. As portas estão se fechando quando alguém coloca a mão para impedir o fechamento. É o homem que chamou o Dante na copa.
— Bom dia, doutora. Eu sou o Frederico. Nos falamos ao telefone há alguns dias.
— Oi, Frederico. Tudo bem? Conseguiram resolver o problema do software?
Ele se encosta na parede do elevador perto de mim e faz um gesto tranquilizador.
— O Dante está resolvendo com os analistas. O meu departamento é mais ligado ao marketing da empresa.
Frederico é forte e o total oposto do Dante. Os dois são altos e fortes, mas Dante faz o estilo gênio descolado, enquanto Frederico está mais para filhinho da mamãe mimado.
Sinto vontade de rir com esse pensamento e mordo as bochechas para ficar quieta. Ao chegar ao térreo, Frederico anda alguns passos ao meu lado e abre a porta do prédio para mim.
Ele me deixa passar e faz o convite.
— Doutora Sophia, estou saindo para almoçar. Me dá a honra?
Olho meu relógio de pulso. Onze e meia.
— Tudo bem. Costumo almoçar mais tarde, mas, vamos lá.
Caminhamos por dois quarteirões e paramos diante de um restaurante italiano.
— Gosta de comida italiana, doutora? — Frederico pergunta sorridente.
O sol está forte e o vento quente sobre meu corpo me deixa desconfortável.
— Mesmo que eu não gostasse, Frederico, eu entraria no restaurante, só para fugir do sol.
Somos recebidos por uma recepcionista que nos oferece uma mesa perto do ar-condicionado, a pedido do meu acompanhante.
— Pelo visto, você não gosta do verão, não é, doutora?
Apoio minha bolsa na cadeira ao lado.
— Pode me chamar de Sophia, Frederico. E só gosto do verão na praia, trabalhando, não. Prefiro um ambiente frio.
Meu olho coça e o esfrego por um segundo. Frederico pede o cardápio para a garçonete. O restaurante tem poucas mesas ocupadas, devido à hora. Está cedo, ainda. Música baixa, meia luz. Um ambiente nem um pouco apropriado para um almoço entre desconhecidos.
Frederico me oferece o cardápio.
— Eu quero a melanzane alla parmigiana. E uma limonada.
Frederico inclina os lábios para baixo.
— Pedido interessante.
Ele chama a garçonete e pede a minha berinjela e uma lasanha para ele.
— Fico feliz que você tenha aceitado trabalhar conosco, Sophia. Sua experiência nos será muito útil em Brasília.
Frederico põe um braço sobre a cadeira ao seu lado e assume uma postura relaxada, como se tivéssemos intimidade.
— Sim, já participei de algumas licitações. Vai dar tudo certo. Vocês como clientes que são, receberão o melhor do meu trabalho.
Os pratos chegam e estão perfumados e saborosos.
— Caramba, não imaginei que estivesse com tanta fome. Essa berinjela está divina.
Frederico toma um gole de seu suco de laranja e limpa os lábios com o guardanapo.
— Pelo visto, fiz uma boa escolha em vir para cá.
Ele pisca o olho para mim. Eu não sei, mas parece que ele está me azarando.
— Escolheu bem, sim. Obrigada.
Olho discretamente meu relógio, não quero parecer mal-educada.
— Eu agradeço mais uma vez pelo convite, mas tenho que ir. Preciso passar no fórum da Barra para ver o andamento de alguns processos.
— Não dá para fazer isso online?
Me pegou.
— É que vou despachar. Sabe como é, se o advogado não ficar em cima, os processos não andam.
Frederico sorri e pede a conta.
— Eu te deixo no fórum.
Ele paga a conta e nos levantamos.
— Não é necessário. Eu deixei meu carro aqui perto. — Respondo.
— Então eu te acompanho até o carro. A gente sabe como está perigoso para mulheres sozinhas. Sempre tem um esperto por aí.
Eu assinto com a cabeça e caminhamos até a rua atrás do prédio da Brainnet. Ao chegarmos ao meu carro, o flanelinha vem e eu pago o estacionamento.
— Carro bacana, doutora. — Frederico comenta e eu sinto um suave sarcasmo em sua voz.
— Obrigada.
Volto-me para ele e estendo a mão que ele aperta firme. A vibração do Frederico é meio obscura. Ele diz algo, mas parece que quer dizer outra coisa. Pode ser coisa da minha cabeça.
— Até mais, doutora.
Aceno com a mão e entro no carro. Ele fica parado na calçada vendo meu carro sair. É um sujeito em quem eu definitivamente preciso ficar de olho.