Mundo de ficçãoIniciar sessãoO CEO da Brainnet está em apuros. E justo às vésperas de uma licitação para a qual vem se dedicando há meses. Os olhos dele estão rasos d’água. E eu não queria mesmo ser a portadora das más notícias, mas, sabe como é… A culpa é sempre do advogado.
― Dante, sejamos práticos. Quem são os detentores do código fonte?
O empresário se recompõe de seu visível desespero e responde rápido.
― Apenas eu.
Ele continua me encarando como se eu fosse Nossa Senhora prestes a realizar um milagre.
― Perfeito, Dante. Agora, quantos são os analistas que trabalham para você neste projeto?
Dante se levanta e abre a porta de sua sala. Ele passa alguns minutos estudando os funcionários que trabalham para ele espalhados pelas baias e mesas de escritório.
― São quatro analistas mais o Frederico, meu sócio.
Dante retorna e se senta novamente ao meu lado.
― Quais outras informações a respeito da minha equipe você quer?
O CEO parece que acaba de engolir vidro.
― Dante, eu sei que esta situação é chata e desagradável, mas precisamos descobrir quem pode estar querendo sabotar você.
Ele passa a mão pelo cabelo e retira os óculos do rosto. A pessoa que eu vejo não parece o CEO tradicional estilo tubarão. É um profissional que quer dar certo, mas que está fragilizado no momento.
― Você quer conversar com eles, Sophia? Para ver se teu “feeling” te diz alguma coisa?
Mordo o lábio e penso por alguns instantes.
― Quero sim, mas se fizermos uma reunião com esse objetivo específico, eles podem ficar nervosos e não é isso o que eu quero. ― Vejo as horas em meu relógio de pulso. Ainda é cedo. ― Que tal se você me oferecesse um café e me apresentasse o escritório… e às pessoas que formam a sua equipe.
Ele me olha um pouco mais animado. Percebo que a tensão no corpo dele baixa um pouco. Eu também não posso pegar pesado com ele assim, tão de repente.
Dante abre a porta de sua sala para mim e começa a me apresentar a empresa. A Brainnet ocupa um prédio de cinco andares em uma avenida movimentada e de frente para a praia da Barra da Tijuca.
Há muita gente trabalhando espalhada pelos amplos salões da empresa, que em nada se parece com os escritórios tradicionais.
― Interessante a disposição do seu escritório. Eu diria que é um tanto… inusitada.
Dante olha de lado para mim com um novo ar, seus olhos brilham quando começa a falar da empresa.
― A minha inspiração veio dos escritórios e dos ambientes de trabalho da G****e. Você pode ver que os funcionários trabalham vestidos do jeito que lhes apetece. Tem gente que vem de jeans ou de moletom. Eu venho de terno, principalmente quando tenho reuniões ou recebo pessoas ilustres como você.
Ele pisca para mim e sinto um rubor subindo por meu rosto. Dante continua empolgado.
― Temos salas temáticas, horários diferenciados, pois há quem prefira trabalhar pela manhã, há quem prefira a madrugada. Enfim, ― Ele de repente fica sério e me encara como se fechasse uma palestra. ― É difícil acreditar que alguém hoje, aqui dentro, queira o meu mal, ou da empresa.
A minha pergunta sai antes que eu possa controlar a minha boca.
― Hoje, tudo bem. E no passado? Existe alguém, um ex-funcionário, que queira te prejudicar?
Uma sombra passa rapidamente sobre o rosto de Dante, deixando seus olhos castanhos, bem mais escuros.
― Sophia, todos temos passado, mas as pessoas que poderiam me ferir, ficaram em definitivo, no passado.
Dante dá como caso encerrado e fica nitidamente contrariado. Ele abre a boca para dizer algo, quando acaba a energia do prédio. Dante segura a minha mão e sinto o calor de sua pele na minha. E isso de alguma forma, é bom.
― Pessoal! Temos gerador no prédio! Calma que já vai ligar!
Ele fala alto por cima do burburinho que se formou com a queda da energia. E de fato, em instantes tudo se normaliza.
― Vamos tomar aquele café? ― Ele solta a minha mão e me convida a segui-lo.
Olho por alguns instantes para a mão que ele segurou e sigo o CEO da empresa até a copa.
― Uau! Essa é a copa? É linda! Parece uma lanchonete.
Dante abre um belo sorriso. A copa da Brainnet é espaçosa, com mesas e cadeiras espalhadas lembrando uma lanchonete da década de 80. Colorida, tem duas geladeiras, duas máquinas de café, microondas, sanduicheira e até um cooktop.
― Eu sei que trabalho é trabalho, mas quero que os funcionários sintam-se bem por aqui.
Ele pega duas cápsulas de café e passa duas xícaras para nós dois. Dante leva as xícaras até uma mesa e senta de frente para mim.
― O que achou da empresa, doutora Sophia?
Tomo um gole do café forte e aspiro o perfume da bebida. Encaro Dante e me dou por vencida.
― Tem razão. O ambiente aqui é bom demais, é difícil mesmo crer que algum de seus analistas tenha sacaneado você.
Ele faz um gesto engraçado encolhendo os ombros.
― Não disse? Eu conheço o meu eleitorado.
Termino o café e aponto o indicador para ele.
― Mas não pense que eu não vou ficar com o pé atrás, Dante. É meu dever, como sua advogada, ficar de olho em qualquer pessoa que possa prejudicar você, ou a sua empresa.
O sorriso de Dante se alarga um pouco mais.
― Então quer dizer que você vai assinar o contrato com a minha empresa? Posso ficar tranquilo a esse respeito, doutora?
Eu passo os dedos por meus cachos e coloco uma mecha para trás da minha orelha direita.
― Sim, com certeza. Gostei bastante da sua empresa. É o tipo de local em que eu gostaria de trabalhar.
Dante está se preparando para me responder quando somos interrompidos. A porta da copa se abre de sopetão e um homem, tão alto quanto Dante e jovem como ele, surge pálido e trêmulo.
― Dante, você precisa ver isso.