Mundo de ficçãoIniciar sessão"Dante"
Estou no meio da conversa com a Sophia, quando o Fred escancara a porta da copa e anuncia em alto e bom som que deu merda no Cybersky.
Ele nem menciona o sistema, mas pelo tom de voz e pelo olhar assombrado, é o suficiente para me colocar em alerta.
— Com licença, doutora Sophia. — Digo em voz baixa.
Me levanto rápido e sigo Fred, que ainda faz menção de dizer algo para a advogada, mas vendo minha agitação sai na minha frente em direção à própria sala.
— Vamos Fred. Me fala o tamanho da merda.
A sala do Frederico é inegavelmente bem mais organizada que a minha. Uma mesa, duas cadeiras e um laptop. Sinceramente, não entendo como um ser humano consegue ser tão desapegado assim.
Fred só abre o sistema. E... nada acontece. Ele tenta uma, tenta duas, tenta três vezes. A resposta é sempre a mesma. Um bip. Uma mensagem de erro.
— Aconteceu logo após a queda de energia. — Diz e fica quieto olhando para a tela que mostra o sistema bugado.
Eu tiro os óculos do rosto e aperto o espaço entre os olhos por alguns instantes. Se controla, Dante. Você tem visita na empresa. Foi um caso fortuito. Não é culpa de ninguém. Você é um resolvedor de problemas.
— Tá tudo bem, Dante? — Fred balbucia.
Ponho os óculos no lugar. Solto o ar pelo nariz fazendo barulho.
— Tudo certo, Fred. Vamos resolver isso agora.
Me levanto deixando Fred para trás e retorno para o andar dos desenvolvedores. Todos concentrados em seus computadores no desafio de colocar o Cybersky pra funcionar. Pego uma cadeira de rodinhas e a faço deslizar até a mesa do Renato, nosso analista mais novo.
— Essa queda de energia foi estranha, Dante.
Apuro meus ouvidos.
— Fala comigo.
Renato dá de ombros.
— Só acho. Não faz muito sentido. Segunda-feira de sol, manhã, e do nada vem uma queda de energia, justamente no meio dos testes?
E fica quieto. Não insisto para que continue. Ainda sentado, deslizo a cadeira pela sala até a mesa do Mark, o mais velho e experiente dos desenvolvedores. O homem de quase dois metros de altura e mentalidade de adolescente me olha de rabo de olho e continua seu trabalho.
— Encontrou alguma solução, Mark?
Ele rosna uma resposta.
— Estou tentando entender o problema primeiro, Dante.
Bem, pelo visto, preciso me recolher ao meu covil e debruçar sobre meu computador para resolver o problema do arquivo corrompido.
— Dante, vem cá.
A voz rouca e grave acompanhada de cheiro de cigarro me desconcentram.
— Fala Sílvia. O que foi? Esse café é pra mim?
A minha secretária está de pé ao meu lado segurando um copo plástico repleto de café fumegante.
— Vai sonhando. — Ela aponta o polegar com unha longa e vermelha para a copa.
— Muito mal educado de sua parte deixar a advogada lá plantada igual uma trouxa.
— Puta merda — Dou um tapa na testa. Faço menção de me levantar, mas Sílvia faz que não com o indicador duro em minha direção.
— Ela já foi. Fiz companhia para a pobre enquanto você cheira o cangote desses machos.
Abusada.
— Sílvia! — Mas ela sai de perto sem me dar atenção. Coço minha barba por fazer e volto para a minha sala. Por alguns instantes me sinto mal pela Sophia, por tê-la deixado sozinha tomando café. Mas ela é advogada, deve estar acostumada a correria e imprevistos. Estalo meu pescoço e mergulho no Cybersky.
A primeira coisa que eu faço é depurar o código fonte. Isso fará com que eu consiga visualizar os erros que porventura aconteceram no Cybersky.
Não é um trabalho rápido nem fácil. E agora, me vem o Júlio à mente. Ele seria o sujeito que descobriria fácil o que fazer. Não que ele tivesse uma genialidade como a minha, mas o cara é malandro, do tipo que consegue pescar no ar o que pode vir a ser uma ameaça.
E foi por causa da malandragem dele que eu fui traído. Sinceramente, às vezes eu sinto raiva de mim por ter confiado tanto, nele e na Vânia.
— Quer saber? Vou tomar um café.
Me levanto para ir à copa quando Sílvia abre a porta da minha sala com um sorriso malévolo. Ela traz uma bandeja com duas xícaras enormes de café.
— Senta que eu quero falar contigo, moleque.
Sílvia está comigo desde que abri a empresa e ela já viu muita coisa acontecer aqui dentro. Ela é prima da minha mãe, e sempre me tratou como um sobrinho.
— Parece que tem alguém adivinhando meu pensamento.
A secretária coloca a minha xícara sobre a mesa com cuidado e se senta na cadeira confortável diante de mim. Ela sorve um gole do café e fica séria.
— Você sabe que estão querendo te sacanear, não sabe?
Inclino meu corpo para a frente e seguro minha cabeça com a mão.
— Por que você está me dizendo isso, Sílvia? O que você sabe que eu não sei?
Sílvia coloca a xícara sobre o pires fazendo um tilintar seco.
— Olha, Dante, eu passo o dia inteiro neste escritório e sei que a maioria dos empregados adora você. Mas você sabe que tem uma pessoa aqui que eu tenho o pé atrás.
Cruzo meus braços.
— O Fred, né?
Ela olha para o lado e faz uma careta.
— Você adora fazer caridade, Dante. Ele fica o dia inteiro coçando o saco. Não enxerga isso não?
Solto um longo suspiro.
— Ele é meu amigo, Sílvia. Dos tempos da faculdade. É meio que um compromisso que eu tenho com ele.
Sílvia pega a xícara e toma o restante do café de um gole só.
— Você é muito bom, Dante. E muito bobo também. Se eu fosse você, ficaria de olho nele. Eu não confio. O Carlos Alberto virá aqui comigo no final de semana para verificar a instalação de energia. Eu arranco as minhas unhas se essa queda de energia não foi proposital.
Franzo as sobrancelhas ao imaginar a cena.
— Pelo jeito você está certa disso. Me deixe a par de tudo o que ele encontrar.
Silvia pega as xícaras e se prepara para sair quando interrompe seus passos e olha para mim de um jeito mais gentil.
— Eu gostei da doutora Sophia.
Coço minha sobrancelha.
— Eu acho que ela pode ser útil para a empresa. — Respondo seco.
Sílvia sacode a cabeça para os lados.
— Para de ser lerdo, Dante. A mulher é linda, chique e inteligente. Não acha que tá na hora de superar aquela mulherzinha vulgar, não?
Viro os olhos e volto para o computador.
— Sílvia, não se mete nisso. E obrigado pelo café.