CAPÍTULO 3 - O COVIL

“Dante”

Vejo as horas na tela do computador. Oito em ponto. Estico as costas para trás e as estalo. Tenho que voltar para a academia, mas neste período de lançamento de software, de licitação e ainda mais agora, com uma ameaça velada, preciso mais do que nunca me dedicar ao trabalho e à minha empresa.

Toc, Toc.

― Entra!

A porta se abre e a secretária, Sílvia, entra falando alto.

― Dante, a advogada está aqui. Vai conversar com ela aqui mesmo, nesse covil?

Olho para trás e resmungo indignado com a secretária.

― Sílvia, desde quando o meu escritório é um covil?

A mulher aponta para todo o ambiente.

― Isso aqui é escuro e está repleto de computadores, mofo, copos de café, fios e telas. Um ambiente inóspito para uma mulher elegante como a doutora Sophia. Pelo amor de Deus, Dante. Vão para a sala de reuniões.

Giro na cadeira e fico de frente para a Sílvia.

― Não. Manda ela entrar.

A secretária vira os olhos e bufa.

― Pode entrar, doutora. Mas é melhor tomar um antialérgico quando sair daqui, vou logo avisando.

A advogada entra na minha sala e parece desorientada.

― Essa escuridão é realmente necessária?

Me levanto rápido e acendo a luz. Ela se assusta com a minha movimentação e fica parada olhando para mim. Eu por minha vez, estou com o rosto queimando e passo a mão pela nuca. Estou um pouco zonzo do movimento rápido. Pisco algumas vezes para acostumar os olhos à claridade.

― Desculpa. Eu passei a noite aqui e não quis te assustar. Acabei me acostumando com a escuridão. Prejudica menos os olhos.

A advogada balança a cabeça para cima e para baixo devagar, ainda tentando se localizar em meio ao caos de computadores e cabos espalhados por todo lado. Ela levanta as mãos para o alto em rendição.

― Beleza. Acredito que seja realmente necessário estarmos aqui, não é?

Aperto os lábios. Me dou conta de que a advogada está de pé no meio da sala, então puxo uma cadeira e aponto para ela. Antes, porém, estendo a mão e me apresento.

― Eu sou o Dante Vergara. O CEO desta empresa. E sim, é necessário que fiquemos aqui na minha sala pelo motivo que vou mostrar a você.

Ela aperta forte a minha mão. A mão quente e o aperto firme me passam uma sensação de confiança.

― Prazer. Sophia Mascarenhas.

Dou um passo para o lado e ela se senta na cadeira que eu ofereci. Puxo a cadeira para mais perto dela e aponto para a tela do computador.

― Acabei de receber este e-mail. “Você está sendo observado” é o que diz. E o remetente… bem, você pode ver que é algo da deep web, o submundo da internet.

Sophia continua olhando para a tela do laptop por mais alguns segundos. O perfil dela parece esculpido em mármore. O nariz arrebitado, os cachos perfeitos dos cabelos encaracolados. Posso sentir o perfume certamente caro com notas de baunilha e créme brûllé que ela exala. O tipo padrão de advogada, mulher cara e sofisticada. Fria e inatingível, se bem que o perfume diz o contrário.

― Sem dúvida é uma ameaça. Ou um aviso. E é daqui de dentro, pode acreditar. ― Sophia fala de repente sem tirar os olhos da tela.

― Como é que é? Alguém da minha empresa? Impossível. ― Franzo as sobrancelhas com força e cruzo os braços, esticando as costas para trás.

A advogada muda a postura devagar. Como ela pode afirmar para um empresário que a sua equipe o está sabotando, ameaçando?

Sophia cruza as pernas e apoia as mãos sobre os joelhos, assumindo uma postura um pouco mais descontraída.

― Dante, posso chamar você assim? ― Eu assinto. ― Ótimo. Ninguém vai te observar na rua, ou no bar em que você bebe o seu whisky. O alvo deles está aqui. E o seu inimigo, ou espião, também. Isso é coisa de quem está trabalhando com você.

Sinto um leve e rápido tremor na pálpebra esquerda. Ajeito os óculos sobre o rosto com o dedo indicador, empurrando-os de volta para o lugar correto. Esta  mulher está fazendo afirmações extremamente graves e comprometedoras.

― Doutora, você percebe a dimensão do que está dizendo? ― Falo em um tom baixo, demonstrando todo o meu desagrado em poucas palavras.

Percebendo o vespeiro que está cutucando, Sophia se aproxima um pouco mais de mim, olho no olho, e fala comigo de um jeito pedante e didático.

― Quem não está percebendo é você. De uma vez por todas, empresa não é família. As pessoas vêm para cá todos os dias atrás do sustento delas. Se o seu software garantir o dinheiro na conta de forma honesta, excelente. Mas se alguém oferecer uma quantidade de dinheiro que pague o tanto que aquela alma deseja, já era. Ela vai trair você.

Ao ouvir a palavra traição, meu estômago revira. Sim, eu sei o que é ser traído pela mulher e pelo melhor amigo. E se tudo porque passei não foi o suficiente para aprender, vem a vida novamente me ensinar uma lição.

Deixo meus ombros caírem e meus braços penderem para baixo, ao longo de meu corpo. Sei que não há para onde correr. Eu olho para o rosto bonito da advogada e murmuro em um tom quase inaudível.

― Tudo bem. O que eu preciso fazer?

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