O jantar em casa era silencioso, mas não desconfortável. O tipo de silêncio que vinha da convivência antiga, onde ninguém precisava preencher cada espaço com palavras.
Eda servia o arroz com a calma de sempre, organizando os pratos como se aquilo fosse um ritual de ordem num mundo previsível. João comentava algo sobre o noticiário, a voz baixa, pausada, falando de economia, de instabilidade, de gente que perdia tudo por escolhas erradas.
Aurora assentia de vez em quando, mas não ouvia de verdade.
Empurrava a comida no prato sem perceber. O garfo batia de leve na porcelana, um som pequeno demais para justificar o incômodo que sentia por dentro.
Jonas.
A balada.
Henrique.
Tudo se misturava como se fossem partes de uma mesma lembrança, embora não fossem.
— Você não vai comer? — a mãe perguntou, com doçura.
Aurora forçou um sorriso.
— Já estou satisfeita.
Era mentira. Não estava cheia. Estava confusa.
Mais tarde, já no quarto, Malu estava largada na cama, mexendo n