CAPÍTULO SEIS

O ronco abafado do motor da SUV blindada era o único som constante enquanto deixávamos os limites de Piemonte para trás. A estrada escura se estendia diante de nós, engolida pela névoa fria do fim de tarde italiano. Eu observava os relatórios no tablet, mas a minha mente estratégica já estava calculando os próximos passos logísticos. Eu precisava de um QG temporário, um lugar neutro onde pudesse coordenar os meus homens da Bratva sem interferir diretamente na rotina da Cosa Nostra.

Desviei os olhos da tela e quebrei o silêncio, ajustando a postura no banco de couro.

— Vou ligar para o Sergei e pedir para prepararem uma suíte presidencial em um hotel de luxo no centro de Milão — comentei, a voz saindo no meu tom pragmático de sempre. — Fica mais fácil centralizar as comunicações com Moscou de lá.

— Nada disso — Massimo respondeu imediatamente, sem sequer hesitar ou tirar os olhos da rodovia à sua frente. — Você vai ficar hospedado na mansão.

Eu olhei de soslaio para ele, arqueando uma sobrancelha em um claro sinal de descontentamento com aquela intromissão na minha logística.

— Não quero atrapalhar a sua rotina, Massimo — argumentei, soltando um suspiro baixo. — Você levou aquela garota para morar lá, não foi? A Chiara. Não preciso de uma civil cruzando o meu caminho enquanto monitoro uma zona de guerra.

— Você não vai atrapalhar em nada, Matteo. Esqueça o hotel — Massimo sentenciou, virando o rosto por um breve segundo para me encarar com seriedade. — A mansão é a nossa base de proteção máxima na Itália. É fortificada, segura e tem quartos e alas suficientes para abrigar um exército inteiro se for necessário. Você é meu irmão de armas. Você e seus homens ficam lá e ponto final.

Dei um sorriso de canto, sabendo exatamente com quem estava lidando. A teimosia daquela família era lendária.

— Você não vai aceitar um "não" como resposta, vai?

— Você me conhece há anos, Matteo. Sabe muito bem que não — ele retrucou, relaxando minimamente os ombros.

— Tudo bem, então — cedi, guardando o tablet na pasta de couro. — Eu fico na mansão. Mas se a sua mulher começar a reclamar dos meus hábitos russos, o problema é seu.

— Ela não vai reclamar.

A viagem de volta para Milão levou pouco mais de duas horas, durante o caminho, Massimo me explicou que iríamos direto para a propriedade principal dos pais dele. Ele havia organizado um jantar para aquela noite; seria a apresentação oficial de Chiara para o restante da família.

Assim que o comboio de SUVs cruzou os imensos portões de ferro e estacionou diante da fachada imponente da mansão Capone, a porta do carro foi aberta. Giuseppe, o mordomo que servia àquela linhagem há décadas com uma lealdade canina, nos recebeu no topo das escadarias com a sobriedade e a elegância de costume.

— Senhor Massimo, Senhor Matteo. Bem-vindos — Giuseppe saldou, curvando a cabeça de forma respeitosa. — O Senhor Capone os aguarda ansiosamente no escritório principal.

— Olá, Giuseppe. Obrigado. É muito bom vê-lo novamente em plena forma — respondi, dedicando ao velho funcionário um aceno genuíno enquanto caminhávamos para o interior aquecido da propriedade.

Deixamos os nossos sobretudos na entrada e fomos direto pelos corredores de mármore até a ala executiva. Massimo bateu duas vezes na porta de madeira pesada e entramos. Vittorio Capone estava sentado atrás da sua enorme mesa de carvalho maciço. O terno perfeitamente alinhado e a expressão facial totalmente impenetrável mostravam que, mesmo tendo passado o comando para o filho, ele ainda guardava a aura de um verdadeiro Capo.

Vittorio se levantou, nos cumprimentou com um aperto de mão firme e um aceno curto, e caminhou até o aparador de cristal. Ele serviu três doses generosas de um uísque escocês envelhecido e nos entregou os copos.

— Ao acordo do Norte — Vittorio disse, erguendo o seu copo na nossa direção. — Soube que vocês esmagaram a audácia daqueles cães de Piemonte.

— E ao Adrian — completei, erguendo o meu copo logo em seguida, trazendo a memória do nosso terceiro pilar para o centro daquela sala.

Brindamos em absoluto silêncio. A bebida desceu queimando forte pela garganta, trazendo um calor necessário, mas o peso da ausência de Keller ainda era uma corda amarrada no pescoço de todos ali. Sentamos nas poltronas de couro para discutir os relatórios que Sergei e Damon estavam cruzando sobre os radares do Mediterrâneo. No entanto, apesar da extrema gravidade da conversa e dos próximos passos estratégicos da investigação, percebi que a mente de Massimo não estava totalmente focada no debate. Ele batia os dedos na poltrona e checava a tela do celular a cada dois minutos.

Arqueei uma sobrancelha, observando a clara inquietação do dele.

— Está tudo bem, irmão? — perguntei, interrompendo a análise de uma rota de satélite.

Massimo piscou, guardando o aparelho no bolso do paletó e se levantando de prontidão.

— Está sim. Com licença, senhores — ele disse, a voz subitamente mais apressada. — Ela acabou de chegar à propriedade. Vou buscá-la.

Assim que a porta se fechou atrás de Massimo, deixando-me sozinho com o patriarca, o ambiente no escritório mudou instantaneamente. O silêncio ficou tenso. Vittorio soltou uma lufada de ar pesada, colocou o copo de uísque com força sobre a mesa e balançou a cabeça negativamente.

— Eu não estou nada satisfeito com essa situação, Matteo — Vittorio disparou, sem rodeios, revelando a linha de pensamento que vinha guardando. — Essa garota que o Massimo trouxe... Ela não pertence ao nosso meio. Não conhece as nossas regras, não foi criada sob as nossas tradições e não tem a menor estrutura psicológica para suportar o peso do sobrenome Capone. É uma civil ingênua.

Permaneci em silêncio, apenas escutando o desabafo do velho leão.

— Você sabe muito bem como as coisas funcionam na máfia, Matteo — Vittorio continuou, caminhando até a janela e olhando para o pátio. — Nós temos mulheres dentro da nossa própria dinastia, como a jovem filha de um dos nossos aliados, que foi criada, moldada e educada desde o berço para servir a homens importantes e poderosos dentro da organização. Mulheres que sabem aceitar o sangue, o perigo e o segredo. O Massimo está jogando fora uma oportunidade de ouro de consolidar um casamento dinástico forte por causa de um capricho estúpido.

Dei um longo gole no meu uísque, processando as palavras duras de Vittorio. Eu entendia o ponto de vista dele; na Rússia, a lógica era exatamente a mesma. Mas eu também conhecia Massimo. Sabia que tentar arrancar Chiara dele à força só resultaria em uma guerra interna que a Tríade não podia se dar ao luxo de ter agora.

— Dê uma chance a ela, Vittorio — falei, a minha voz saindo calma e ponderada, tentando agir como a voz da razão ali dentro. — Conheça a garota primeiro antes de condenar a escolha do seu filho. Eu conheço o Massimo. Se ele bateu o pé e a trouxe para dentro desta mansão blindada, é porque ela tem algo diferente. Ele não é um homem que se curva por fraqueza. Vamos observar como ela se comporta no jantar de hoje.

Vittorio me olhou por cima do ombro, a expressão ainda severa, mas acabou assentindo levemente com a cabeça, reconhecendo que o meu conselho estratégico fazia sentido prático.

— Você sempre foi o cérebro dessa parceria, Matteo — ele resmungou, caminhando de volta para a mesa. — Espero que esteja certo. Porque se aquela garota for um ponto fraco, os inimigos vão farejar.

Conversamos por mais alguns minutos sobre os esquemas de segurança periférica da propriedade e sobre a movimentação dos soldados russos que Sergei havia alocado nas proximidades da mansão. Quando o relógio marcou o horário do início do jantar, Vittorio guardou os papéis trancados no cofre, ajeitou a lapela do paletó e fez um sinal com a mão.

— Vamos para a sala principal — ele determinou. — Está na hora de ver o tamanho do problema que o meu filho arrumou para nós.

Saímos do escritório lado a lado, caminhando em direção à grande sala de estar, onde as luzes de cristal já estavam acesas e os primeiros passos do restante da família começavam a ecoar pelo casarão.

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