Mundo de ficçãoIniciar sessãoChegamos a Piemonte sob um céu cinzento e pesado, que parecia espelhar perfeitamente o clima tenso que carregávamos dentro de nós. A propriedade escolhida para o encontro era uma vinícola antiga, ficava entre colinas de terra escura e videiras secas pelo inverno. Vista de fora, com suas paredes de pedra rústica e portões de ferro batido, parecia apenas mais um negócio tradicional e pacato da Itália. No entanto, era usada como fachada para encobrir e lavar o dinheiro de negócios infinitamente mais lucrativos e perigosos.
Assim que as SUVs blindadas do nosso comboio pararam no pátio de cascalho, a recepção foi imediata. Homens armados, pertencentes aos clãs do Norte da Itália, já estavam estrategicamente posicionados ao redor da entrada principal. Quando os soldados da família Capone e os meus executores russos desceram dos veículos, o ar se tornou instantaneamente denso. Os dois lados se mediram com os olhos, as mãos repousando discretamente perto das armas sob os paletós. Era um teste silencioso de dominância. Mas o respeito — ou melhor, o medo visceral que a nossa presença conjunta emanava — foi muito mais forte. Ninguém ousou dar um passo em falso. Massimo e eu passamos por eles sem sequer desviar o olhar. Entramos na sala de conferências principal da vinícola com a postura rígida e a autoridade absoluta de quem não estava ali para pedir permissão, e sim de quem não aceitaria um "não" como resposta sob hipótese alguma. A sala era ampla, com teto alto sustentado por vigas de madeira escura e uma mesa maciça que ocupava o centro do espaço. Sentados ali, os três principais representantes das famílias do Norte tentaram manter uma postura de superioridade, mas o suor frio nas têmporas deles denunciava o nervosismo. Eles achavam que, com o desaparecimento de Adrian, a Tríade Negra estaria cambaleante. Porém, eles estavam profundamente enganados. — Senhores, vamos começar — Massimo comandou, puxando a cadeira na cabeceira da mesa com uma calma que parecia a calmaria antes de um bombardeio. Eu me acomodei logo ao seu lado, cruzando os braços e fixando o meu olhar gélido sobre o homem que liderava o comitê do Norte, um mafioso idoso chamado Alberto. — Don Capone, senhor Volkov... — Alberto começou, pigarreando e tentando ajustar o tom de voz para parecer firme. — Ficamos sabendo do trágico incidente com o senhor Keller. Uma perda lamentável para a Tríade. Diante dessa nova realidade e da óbvia instabilidade nas rotas americanas, acreditamos que as cláusulas de distribuição e a porcentagem de lucro que havíamos discutido anteriormente precisam ser reavaliadas. O risco para o Norte agora é maior. Um silêncio mortal caiu sobre a sala. Deixei que o silêncio se estendesse por longos e agonizantes segundos, observando Alberto desviar o olhar do meu, incomodado com a falta de resposta. — Você entendeu mal a situação, Alberto — falei, a minha voz saindo baixa, pausada e cortante como o vento de Moscou. Apoiei os cotovelos na mesa, inclinando o corpo para a frente. — O risco para o Norte só será maior se vocês decidirem cometer a estupidez de não assinar esse documento nas próximas duas horas. A queda de um avião não muda uma única linha do que a Tríade projeta para este continente. — Mas o senhor Keller era quem garantia a segurança do fluxo financeiro externo — outro representante, mais jovem e afoito, interveio. — Sem ele aqui para assinar... Massimo bateu com a palma da mão na mesa de madeira, um som estrondoso que fez o homem saltar na cadeira. — O Adrian não está aqui hoje, mas nós dois estamos — Massimo sibilou, os olhos faiscando em uma fúria controlada que fez os soldados do Norte na porta darem um passo para trás. — E nós somos a assinatura dele. Os termos que ele estipulou são os termos que eu e o Matteo vamos fazer cumprir. Se vocês acham que a Tríade está sangrando porque um de nós sofreu um ataque, fiquem à vontade para testar as nossas presas. Mas eu garanto que, antes do anoitecer, não sobrará uma única videira de pé nesta propriedade para contar a história. A reunião se transformou em um verdadeiro campo de batalha psicológico. Foi longa, tensa e absurdamente desgastante. Levou horas de uma pressão psicológica severa, onde jogamos na mesa relatórios de inteligência que mostravam que sabíamos exatamente quais eram as fraquezas financeiras de cada um daqueles clãs locais. Demonstramos a nossa força sem precisar disparar um único tiro: bastava a certeza implacável nas nossas vozes e o peso combinado da *Bratva* e da *Cosa Nostra* esmagando qualquer tentativa de rebeldia deles. Cada vez que eles tentavam recuar ou barganhar uma porcentagem a mais, eu usava a minha lógica estratégica para desmontar os argumentos deles, mostrando que, sem a nossa infraestrutura, o Norte seria engolido pela concorrência em menos de seis meses. Massimo, por sua vez, representava a ameaça física constante, o lembrete vivo de que a violência da máfia italiana estava a apenas uma ordem de distância. Mais tarde, quando o sol já começava a baixar no horizonte nublado além das janelas, a resistência deles finalmente quebrou. O medo de nos enfrentar superou a ganância de tentar lucrar em cima da nossa crise. Os termos originais de Adrian foram integralmente ratificados, sem que uma única vírgula fosse alterada. Os advogados de ambas as partes entraram na sala, com os rostos pálidos pelo cansaço, e terminaram de revisar as cláusulas finais dos contratos. Massimo puxou a caneta de ouro e assinou o seu nome com traços firmes e agressivos. Em seguida, passou o documento para mim. Deslizei a caneta pelo papel, deixando a minha assinatura ao lado da dele. Alberto e os outros dois líderes do Norte assinaram logo em seguida, com as mãos visivelmente trêmulas. O acordo estava oficialmente fechado. Com a assinatura daqueles papéis, a Tríade Negra agora tinha o caminho completamente livre e legalizado para se infiltrar, controlar e dominar todos os negócios locais e rotas comerciais do Norte da Itália. Era uma vitória estratégica gigantesca, o tipo de jogada mestre que consolidaria o nosso império por décadas e expandiria a nossa influência para além das fronteiras habituais. Mas, enquanto observava os homens do Norte recolherem as suas pastas e deixarem a sala em silêncio, não consegui sentir a satisfação completa do triunfo. Olhei para a cadeira vazia na outra extremidade da mesa de conferências. O peso esmagador da ausência de Adrian ainda pairava sobre nós dois como uma sombra incômoda. Aquela negociação era o projeto dele, a visão dele. Garantimos o contrato, mas a guerra real para descobrir quem havia tentado destruir a nossa estrutura estava apenas começando.






