Mundo ficciónIniciar sesiónNARRAÇÃO DE BELA...
Confesso que me senti desnorteada. Não sei quem ele é. Talvez coreano, isso... Ele tem muita pegada para ser um coreano; é estiloso, tipo bad boy. Usa um casaco de couro legítimo, e seus dedos carregam no mínimo três anéis em cada mão. Vários cordões de prata adornam o pescoço, e a botina preta também chama atenção. Fiquei observando enquanto ele se sentava em seu lugar. A imensa sala era barulhenta, todos falando ao mesmo tempo, mas meus olhos permaneciam fixos nele, principalmente porque estava distraído conversando com seus dois amigos: um moreno forte, de casaco de jogador, que insinuava jogar beisebol com um taco invisível, fazendo o rapaz oriental rir, junto com um terceiro — loiro — sentado bem ao lado. Eu estava parada demais, hipnotizada demais... A beleza dele, o sorriso perfeito, dentes alinhados e brancos, o rosto angelical, os olhos puxados e ainda assim encantadores... Então esbarraram em mim, e mais uma vez me empurraram, até que percebi estar bloqueando a porta da sala. De longe, notei Lucas acenar, chamando-me com as mãos enquanto subia os degraus para o fundão. Um grupo de garotas entrou rindo e também esbarrou em mim. — Sai do caminho... — uma delas resmungou. Apressei os passos, segurando a mochila com mais firmeza. Tentei fingir indiferença ao passar pelo coreano gatinho, mas meu coração parecia querer saltar do peito. Bastou escutar sua voz pela primeira vez — grave, muito grave — um contraste perfeito com o rosto angelical. Ouvi-o dizer ao amigo: "Precisamos dar o melhor no basquete. Estou sendo cobrado demais em casa por ser o capitão do time." Foi a única coisa que consegui escutar antes de me sentar ao lado do meu primo. Automaticamente ele puxou sua carteira, afastando-me. — Emma está na sala... — murmurou baixo. Franzi as sobrancelhas, confusa, inclinando-me discretamente. — Quem é Emma...? Ele apontou com os olhos o grupo de meninas — as mesmas que haviam esbarrado em mim. — A herdeira da Croácia. Agora fique calada e olhe para frente. Assenti. Mas meus olhos me traíram ao ver o oriental rindo com os amigos. — É coreano? — perguntei num fio de voz. Só de formular a pergunta, meu estômago se encheu de borboletas. Lucas finalmente percebeu para quem eu olhava. — É veneno. Encarei meu primo, espantada. — Veneno...? — Não pode falar com ele, tampouco olhar. É ordem do tio Brady. Arqueei as sobrancelhas, entendendo. Meu semblante caiu ao perceber que se tratava do herdeiro da Yakusa, chamado Kaito — inimigo dos Dawsons. — Eu... achei ele esquisito. — Menti, percebendo o olhar atento de Lucas, como se esperasse encontrar qualquer falha minha. Ele riu, balançou a cabeça — mais uma vez, eu falhei. Durante a aula, meus olhos retornavam para ele. Mesmo de costas, eu o observava prestar atenção na explicação. Admirava a nuca, os cabelos lisos e pretos; os cordões de prata cintilavam com o sol refletindo pela janela. Seus dedos eram inquietos, tamborilavam a caneta de ouro, a perna balançava levemente. Ele bocejava, mas colocava a mão na boca. Ou seja: ansioso, e ainda assim educado. Saí do torpor quando o sinal tocou. Lucas pegou a mochila e me olhou, ansioso. — Eu vou conversar com a Emma no pátio. Tenta... — ele juntou as sobrancelhas, pensativo. — Fazer alguma coisa. Tem a sala de teatro, se quiser se inscrever. Aula de música. Depois do intervalo terá o jogo de basquete. Não demore, o professor de educação física odeia alunos atrasados para assistir à partida. Lembre-se: ele gosta da arquibancada lotada antes do jogo. Assenti, guardando minhas coisas. Ali, o mundo parecia pertencer a mim. Estava claro que Lucas não ficaria no meu pé, como meu pai havia ordenado — e eu estava amando isso. Notei Kaito pegar a mochila. E um desejo forte se acendeu dentro de mim... Desejo de observar mais, de seguir, de saber como era sua rotina. Eu sempre tive fama de curiosa — e essa curiosidade cresceu ao querer observar o filho do inimigo do meu pai. Então eu fiz. Esperei ele sair da sala, mantendo distância suficiente para que não percebesse que estava sendo seguido. No corredor, apertou a mão dos amigos e se despediu. Algumas garotas o cercaram, bloqueando sua passagem. Ele parou, forçou um sorriso enquanto elas puxavam conversa, mas seu olhar deixava claro o tédio. Chegou a soltar um suspiro longo, coçando o cenho enquanto esperava que se afastassem. Como podem ser tão tolas? Não percebem os sinais que o corpo dele dá? Quando finalmente conseguiu se desvencilhar, acelerou os passos — e eu precisei acelerar também. Ele abriu uma porta de madeira e entrou. Hesitei por um instante, respirei fundo, e criei coragem para segui-lo. Era uma enorme biblioteca, com inúmeros corredores. O ambiente quase silencioso deixava escapar apenas o virar de páginas. Caminhei procurando por ele. Pelo visto, poucos alunos gostavam de leitura... dava para contar nos dedos os que estavam ali, reunidos ao redor da mesa. Percorri os corredores até encontrá-lo. Kaito estava distraído, lendo um livro ainda em pé. O título: A culpa é das estrelas. Juntei as sobrancelhas, confusa. Ele não viu o filme? É tão conhecido... Entrei em outro corredor, fingindo procurar um livro. Puxei um volume qualquer apenas para observar seu rosto mais de perto. Sem desviar os olhos da leitura, ele suspirou e perguntou: — Por que me segue, novata? Franzi os lábios, entendendo que ele era atento — muito atento. — Eu... estava procurando este livro. — Menti, segurando o exemplar com serenidade. Finalmente seus olhos subiram. Apesar de lindos, carregavam certo sarcasmo. Ele fechou o livro, entortou os lábios e tocou no cordão de prata. — Cinquenta tons de cinza...? Arregalei os olhos ao ouvir a pergunta. Olhei o livro nas minhas mãos — meu rosto ferveu. Livro de sexo... Disfarcei, colocando-o de volta. — Eu me confundi... — forcei um sorriso. — Sei. — Ele murmurou e saiu. Quanto mais discreto ele é, mais eu quero conhecer. Eu gosto disso...






