POV Amara
A sala do investigador cheira a café velho e papel guardado tempo demais. Não é um lugar feito para revelações bonitas. É feito para verdades feias, daquelas que arrancam a pele da gente sem anestesia.
Elise está sentada ao meu lado. Coluna ereta, pernas cruzadas, expressão afiada. Ela parece calma, mas eu conheço minha prima. Quando ela fica silenciosa assim, é porque já está montando o tabuleiro inteiro na cabeça.
O investigador, Augusto Farias, cinquenta e poucos anos, olhos cansados de quem já viu famílias inteiras se destruírem, fecha a pasta grossa diante de nós.
— Antes de começarmos — ele diz — preciso que entendam uma coisa. O que vocês vão ouvir aqui muda tudo. Relações, alianças, nomes. Nada disso sai intacto.
Meu coração acelera.
— Nós já não temos mais nada intacto — respondo, sem pensar.
Ele me observa por um segundo e então assente. Elise toca de leve minha mão. Um gesto pequeno. Âncora.
— Vamos aos fatos.
Ele abre a pasta.
Fotos. Extratos. Relatórios. Gravaçõ