Mundo ficciónIniciar sesiónHanna Ross
O chuveiro está quente demais, mas ainda assim não o desligo. Deixo a água escorrer pela minha pele como se pudesse levar junto a vergonha, a dor, o gosto dele. Mas nada sai. Nada realmente vai embora. A toalha que enrolo ao sair parece pesar uma tonelada. Cada passo até o quarto é arrastado, como se o simples ato de me mover exigisse mais força do que eu tenho. Me olho no espelho. Os olhos inchados, a boca marcada, o pescoço com um leve roxo que não sei se é culpa dele ou minha. Não importa. Deito na cama e puxo o celular. Catorze chamadas perdidas da minha mãe. Vinte chamadas das meninas Dani e Sarah. Uma enxurrada de notificações com notícias e fofocas. “Filha de senador é traída em festa de noivado”, “A jornalista Hanna Ross abandona evento após flagrar traição escandalosa”, “Empresário flagrado com secretária em uma sala adjacente de hotel de luxo onde estava acontecendo sua festa de noivado com a filha do Senador Diógenes Ross. Fecho tudo. Não consigo respirar. Meu ex-noivo virou manchete. E eu virei a coadjuvante na minha própria tragédia. Mas o pior de tudo não é isso. É o fato de que, mesmo agora, mesmo depois de toda a dor, da vergonha, da exposição… meu corpo ainda se lembra dele. Do desconhecido. Da forma como ele me tocou como se soubesse exatamente o que eu precisava. Sem pedir nada. Sem esperar nada. Não sei seu nome. Não sei nada sobre ele. Mas nunca vou esquecer os olhos escuros que pareciam olhar além da minha máscara. Um arrepio me percorre, e não sei se é medo, arrependimento ou saudade. Respiro fundo, fecho os olhos e tento repetir o que tenho dito desde que deixei aquele quarto: — Acabou, Hanna. Foi só uma noite. Mas, no fundo, sei que estou mentindo. Porque algo dentro de mim mudou. Algo que não sei como controlar. E o mais assustador? A ideia de que talvez ele tenha sentido o mesmo. Estou sentada no sofá da sala, enrolada em uma manta mesmo com o sol invadindo o apartamento. Não lembro a última vez que comi alguma coisa decente — talvez um pedaço de pão ontem à noite, ou um café frio antes de sair do hotel. O silêncio é ensurdecedor, mas ao menos aqui ninguém me pergunta nada. Ninguém me olha com pena. Ninguém me lembra do que perdi… ou do que fiz. Até a campainha tocar. Reviro os olhos. Eu sei quem é. Elas já haviam avisado que viriam, mesmo quando eu disse que não precisava. Dani e Sarah. As duas forças da natureza que me conhecem bem demais para levar um “não” a sério. Respiro fundo antes de abrir a porta. — Você tá péssima — Dani diz sem cerimônia, entrando com uma sacola de compras e uma garrafa de vinho. — vejo que tentou esconder muita coisa com maquiagem. Só então lembro o real motivo de ter me maquiado… — E linda mesmo assim, droga — Sarah completa, me puxando para um abraço apertado que quase me desmonta. E me afasta dos meus pensamentos. Elas se jogam no sofá, tiram sapatos, espalham suas presenças pela sala como se fossem extensão da minha própria alma. E, por um momento, me sinto… segura. Quase inteira. — Trouxemos chocolate, vinho e vamos assistir três temporadas daquela série idiota que você ama — Sarah diz, já ligando a TV. — E um pote gigante de sorvete — Dani complementa. — Porque, se a gente vai afogar as mágoas, que seja com estilo. Dou uma risada fraca. É o melhor som que sai de mim em dias. — Vocês são malucas — murmuro. — E leais — Dani rebate, me olhando séria. — E estamos aqui, Hanna. Quando você estiver pronta para falar… sobre qualquer coisa. A gente escuta. Minha garganta fecha. O olhar das duas pesa. Elas sabem que estou destruída. Sabem que tem mais coisa além da traição. Mas não sabem o que. E eu não consigo dizer. Não consigo contar que saí daquele salão destruída e fui parar nos braços de um homem desconhecido. Que me entreguei a ele como se fosse a última coisa que me restava. Que… gostei. Que ainda penso nisso. Nele. Então minto. De novo. — Ainda não consigo — sussurro. — Mas obrigada por estarem aqui. Minha mãe já me ligou diversas vezes e ainda não consegui falar com ela. Vim me refugiar aqui no apartamento que seria minha casa depois que me casasse, mas não sei se foi uma boa ideia. Sarah aperta minha mão. Dani apenas assente, respeitando o silêncio. E, por mais que minha cabeça esteja um caos, meu coração encontra um pequeno ponto de paz. Mesmo que eu não possa contar tudo… sei que não estou sozinha. Mas também sei que, mais cedo ou mais tarde, vou ter que encarar o que aconteceu naquela noite. Porque o que ficou em mim não foi só o toque, nem o calor. Foi a marca de alguém que entrou na minha vida como um estranho… e saiu como uma cicatriz. Estamos afundadas no sofá, cada uma com uma taça de vinho na mão, a série passando em segundo plano, enquanto fingimos que o mundo lá fora não existe. É um jogo silencioso que jogamos sempre que uma de nós está despedaçada: distração, conforto e um pouquinho de drama televisivo para aliviar a dor. — Ah! — Sarah solta de repente, se virando para mim com aquele brilho animado nos olhos que sempre significa confusão prestes a acontecer. — Preciso te contar uma coisa! — Lá vem… — murmura Dani, rolando os olhos. — Meus pais ligaram ontem — Sarah ignora o comentário da outra. — Adivinha quem vai passar uma temporada aqui no Brasil? — Se for o Regé Jean-Page, eu talvez me recupere mais rápido — tento brincar, mas minha voz ainda soa arranhada. — Melhor — ela sorri de orelha a orelha. — Nicolas Lancaster. Dani arregala os olhos e solta um assobio. — Aquele primo gato que mora na Inglaterra? O advogado? Que parece o Henry Cavill em versão mais realista e menos inalcançável? Sarah ri. — Esse mesmo. Ele vai ficar lá em casa por uns meses. Está de licença, tirando um tempo para si. Aconteceu uma decepção na vida dele, segundo meus tios. — E então, do nada, ela vira-se diretamente para mim. — E, Hanna, sério… vocês seriam um casal perfeito. Quase engasgo com o vinho. — O quê? — Sério! Ele é inteligente, charmoso, tem aquele sotaque que faria qualquer mulher esquecer o próprio nome. E ele precisa de uma distração, assim como você. — Não sou distração de ninguém — digo mais seca do que pretendia, e um silêncio desconfortável se instala por um segundo. Sarah baixa os olhos, sem graça, e Dani lança um olhar de alerta para ela. — Desculpa. Eu só… achei que poderia ser bom para você, sabe? Dar uma chance para conhecer alguém novo. Alguém bom. Alguém bom. Como se o desconhecido da noite passada não fosse. Mas ele foi. Por uma noite, ele foi tudo. Só que elas não sabem disso. — Eu entendo — digo, mais branda. — Mas agora não é hora para isso, Sarah. Não consigo pensar em conhecer ninguém. Nem mesmo um britânico bonito com nome de novela. Elas riem, e o clima se suaviza novamente. Mas por dentro, meu estômago revirou. Porque, mesmo que eu não queira admitir… uma parte de mim ainda está lá, presa naquela noite, naquele quarto, naquele desconhecido. E naquele sotaque que ainda me faz sentir seus lábios em lugares que jamais imaginaria que alguém pudesse me beijar. E se tiver espaço para alguém novo na minha vida… vai ser difícil competir com o fantasma de alguém que me fez sentir tanto em tão pouco tempo.






