Capitulo 4

Narrado por ele

Acordo com a estranha sensação de vazio. A cama está quente ao meu lado, mas não há ninguém ali. Estico o braço por instinto, encontrando apenas o lençol amarrotado e o rastro de um perfume suave — doce, mas com um toque cítrico. Diferente de qualquer um que já senti antes.

Abro os olhos devagar, piscando contra a luz suave que entra pelas cortinas entreabertas. A dor de cabeça é suportável, o corpo está relaxado… mas tem algo errado. Ou melhor, alguém que não está aqui.

Me sento na cama, o lençol escorrega pela minha cintura, e só então noto o bilhete deixado sobre o colchão. Meus olhos correm pelas palavras rabiscadas com pressa, mas é o nome no final que me prende.

H.R.

Não é suficiente. Não para mim.

Jogo as pernas para fora da cama, esfregando a nuca enquanto tento reorganizar as lembranças da noite passada. O bar, o jeito como ela entrou como se estivesse fugindo de alguma coisa — ou de alguém. O olhar dela, quando nossos olhos se encontraram. Um olhar que carregava dor, raiva e… solidão. Uma solidão que gritou tão alto quanto a minha.

Ela não disse muito. Não precisou. O silêncio entre nós foi mais honesto do que qualquer conversa que já tive. E quando ela me deixou tocá-la… parecia que ela queria apagar tudo. Ser outra pessoa por uma noite. Ou ninguém.

Só que ela foi alguém. Foi tudo. Foi alguém que apagou minha dor, apenas por uma noite.

E agora foi embora.

Olho para o bilhete de novo. Há algo nele — uma pontinha de culpa, de vergonha. Mas também uma força disfarçada. Uma mulher acostumada a manter o controle… e que, por uma noite, perdeu.

Me levanto e começo a me vestir, cada movimento mais lento que o anterior. Não sou do tipo que se apega a encontros de uma noite. Nunca fui. Mas tem algo nela… algo que não consigo largar.

Quem é você? E por que sinto que isso ainda não acabou?

Coloco a camisa e caminho até a janela, puxando a cortina com força. A luz invade o quarto, me obrigando a semicerrar os olhos. Lá embaixo, o vai e vem de pessoas, carros, vidas seguindo normalmente… enquanto a minha parece ter sido sacudida por um furacão de olhos tristes e vestido azul.

“H.R.” É tudo o que tenho dela. Duas letras. Uma memória. E a certeza de que aquela noite não foi comum. Não foi apenas sexo. Não foi só desejo. Foi fuga. Foi necessidade. E foi verdadeiro, mesmo sem palavras.

Meu olhar para no bloco de anotações do hotel. O mesmo que ela usou. Caminho até ele, folheando as páginas por impulso, como se pudesse encontrar mais pistas. Nada. Só o bilhete.

Pego meu celular do chão, desbloqueio e abro nas últimas notícias. Com alguns toques, descubro o nome dela. E o motivo dela está fugindo. Sua foto está em todos os sites.

Hanna Ross…

Meu coração b**e mais forte. Agora tenho um nome inteiro. Repito em voz baixa, saboreando as sílabas. Hanna. A mulher que caiu nos meus braços tentando escapar de uma dor tão familiar que quase doeu em mim também.

Faço uma busca rápida em outras páginas e encontro mais informações. Jornalista. Especialista em relações-públicas. Noiva traída por um executivo de uma grande empresa — a notícia está em todos os sites de fofoca. Fotos do noivado, do vestido azul que tirei tão delicadamente. Meus punhos se fecham.

A festa do noivado. Foi ali que tudo começou. Foi dali que ela fugiu direto para mim.

Agora entendo a sombra no olhar. O tremor nas mãos. A urgência em cada beijo.

Ela não foi fraca. Ela foi forte o suficiente para ir embora. Para se permitir quebrar — e procurar alguém para ajudá-la a não despencar de vez.

Não sei o que pretendo fazer. Só sei que não consigo fingir que foi só uma noite. Porque aquela mulher me marcou de um jeito que ninguém nunca conseguiu. E se ela acha que pode simplesmente desaparecer…

Ela está enganada. E quanto ao noivo tenho que agradecer assim que o encontrá-lo.

Sorrio, mas não é um sorriso de diversão. É o tipo de sorriso que nasce quando algo dentro de você muda — como se uma peça, até então fora do lugar, finalmente se encaixasse.

O noivo dela, o tal executivo engravatado com sorriso de plástico e alma podre… ele fez a melhor coisa da vida dele ao traí-la. Porque foi esse erro que a jogou no meu caminho.

E agora que ela passou por aqui, agora que ela me atravessou feito tempestade, não tem como simplesmente ignorar.

Visto o paletó e enfio o bilhete no bolso interno, como se fosse um lembrete — ou uma promessa. Hanna Ross. O nome ecoa na minha mente de novo. Forte. Intenso. Cheio de significados que eu ainda não conheço, mas que estou disposto a descobrir.

Desço do quarto com passos decididos. O hall do hotel parece pequeno, abafado, como se o ar ali dentro não fosse suficiente. Tudo está normal demais, e eu estou… diferente demais.

A mulher que dormiu comigo ontem à noite não é apenas uma manchete escandalosa. Ela é a história por trás da manchete. É o que os olhos não contam nas fotos do vestido azul rasgado.

Saio do hotel e respiro fundo. O ar frio da manhã corta meu rosto, trazendo a lucidez que eu nem sabia que queria.

Meu celular vibra no bolso. Uma mensagem do meu assistente. “Reunião com o cliente da França reagendada para as 10h. Tudo certo com a apresentação.”

Ignoro. Que se dane a França. Que se dane o cliente.

Tem algo mais importante agora.

Pego o celular novamente e digito seu nome completo no buscador. Não é difícil encontrar o perfil profissional dela. LinkedIn. Artigos publicados. Campanhas que ela coordenou. Tudo meticulosamente construído, imagem impecável… da única filha do Senador Diógenes Ross, até a queda.

Mas nem isso apagou quem ela é.

Vejo uma foto antiga — um evento de caridade. Ela está rindo, segurando um microfone, cercada de crianças. É como se fosse outra pessoa. Ou talvez… fosse quem ela era antes de tudo isso.

E pela primeira vez em muito tempo, me pego querendo conhecer alguém de verdade. Não o corpo, não os segredos escondidos atrás de sorrisos sedutores. Quero saber o que fez Hanna Ross ser quem é.

E, mais do que isso, quero mostrar pra ela que nem toda fuga precisa ser solitária.

Pego um táxi. Não sei exatamente onde estou indo, mas uma coisa é certa: não vou deixar que ela seja só uma lembrança.

Ela entrou na minha vida como um raio.

E raios não passam despercebidos.

Eles deixam marcas.

E eu pretendo deixar a minha também.

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