6. JONAS

Depois que voltei da festa na casa do Olavo, fui direto para casa. No dia seguinte, passei novamente na casa da Ingrid, determinado a descobrir o verdadeiro nome da mulher que havia beijado naquela noite.

Mas foi uma perda de tempo.

Ingrid não me contou nada.

A única dica que me deu foi procurar as imagens das câmeras da boate.

— Vai atrás das gravações — sugeriu ela.

Revirei os olhos.

— Você enlouqueceu? Não vou investigar uma mulher como se fosse um detetive.

Ingrid caiu na gargalhada.

— Então continue sofrendo.

Acabei deixando o assunto de lado.

Durante a semana, cumpri alguns trabalhos e campanhas publicitárias. Uma delas, inclusive, para o laboratório do meu pai.

Os dias passaram rápido.

Foi então que recebi o convite para um luxuoso luau organizado pela Ingrid.

Claro que eu iria.

Eu amava praia.

E um luau então...

Nem se fala.

O único problema foi quando ela me ligou pedindo um favor.

— Preciso que você leve uma amiga minha.

— Não.

— Miller...

— Não.

— Por favor.

— Ingrid...

— Ela está sem carro.

Passei a mão no rosto.

— Eu gosto de viajar sozinho.

— Eu sei.

— Muito sozinho.

— Eu também sei.

— Então por que está me pedindo isso?

— Porque você é meu amigo.

Bufei.

Ela insistiu tanto que acabou me convencendo.

A tal amiga se chamava Mariza.

Pelo menos era o nome que Ingrid me passou.

Depois de cumprir todos os meus compromissos naquele sábado, tomei banho, me arrumei e coloquei uma roupa confortável.

Também organizei tudo para minha mãe.

Contratei uma terapeuta para passar o fim de semana com ela.

Meu pai continuava ignorando boa parte dos cuidados que ela precisava, então alguém precisava assumir essa responsabilidade.

Despedi-me da minha mãe com um beijo na testa e saí.

Entrei no carro e digitei o endereço enviado por Ingrid.

Quando cheguei ao prédio, percebi que não era um bairro qualquer.

O lugar era muito melhor do que eu imaginava.

Parei na portaria.

— Pode chamar a senhora Mariza, por favor?

O porteiro assentiu.

Voltei para dentro do carro e fiquei esperando.

Alguns minutos depois, a porta do prédio se abriu.

E então eu a vi.

Não.

Não podia ser.

Soltei uma risada incrédula.

Era ela.

Mia.

Ou Mariza.

Ou seja lá qual fosse seu verdadeiro nome.

Quem diria que tínhamos amigos em comum?

Ela vinha caminhando em minha direção carregando uma mochila.

Quando me reconheceu, parou por um instante.

Seu olhar arregalou.

O meu provavelmente também.

A mulher era linda.

Mais bonita ainda durante o dia.

Ela ficou claramente desconcertada.

E eu adorei perceber isso.

Mas continuávamos sem nos suportar.

Ela era teimosa.

Mandona.

Briguenta.

E incrivelmente atraente.

Tão atraente que começava a me preocupar.

Fez até eu abrir a porta do carro para ela.

Uma coisa que nunca tinha feito por mulher nenhuma.

Romantismo nunca foi exatamente o meu forte.

A viagem começou tranquila.

Mas não demorou muito para virar uma guerra.

Bastou eu provocar.

E ela respondeu.

Depois eu provoquei de novo.

E ela respondeu pior.

Quando percebi, estávamos discutindo como duas crianças.

Eu realmente consegui tirar aquela mulher do sério.

Mas ela também acabou com a minha paciência.

A situação ficou tão absurda que ela desceu do carro no meio da estrada.

No meio da estrada!

E ainda tentou acertar uma sandália na minha cabeça.

Por muito pouco não conseguiu.

Mesmo irritado, não tive coragem de deixá-la ali.

Acabei voltando, colocando aquela maluca dentro do carro e seguindo viagem.

Depois disso, ela permaneceu em silêncio.

Acomodou-se no banco e fechou os olhos.

Poucos minutos depois estava dormindo.

E dormiu a viagem inteira.

Pense numa mulher teimosa.

Mas que beijava bem.

Quando chegamos a Santos, estacionei o carro e olhei para ela.

Continuava dormindo profundamente.

Franzi a testa.

Nunca vi alguém dormir tanto.

Inclinei-me um pouco em sua direção.

— Mariza...

Nada.

— Ei, acorda.

Nenhuma reação.

— Chegamos.

Ela abriu os olhos lentamente.

Parecia confusa.

Olhou para os lados como se não soubesse onde estava.

Resolvi provocá-la.

— Meu carro é tão confortável assim para você dormir desse jeito?

Ela não respondeu.

Estranhei.

— E não adianta esperar que eu abra a porta para você descer.

Silêncio.

Foi então que percebi algo errado.

Muito errado.

O rosto dela estava pálido.

Os lábios sem cor.

Ela tentou falar alguma coisa.

Mas não conseguiu.

No segundo seguinte, seus olhos se fecharam.

Seu corpo tombou para o lado.

— Mariza!

Meu coração disparou.

Segurei seus ombros imediatamente.

— Ei! Olha para mim!

Nada.

Ela estava gelada.

Gelada.

O desespero tomou conta de mim.

Voltei rapidamente para o banco do motorista e liguei o carro.

Conhecia Santos como a palma da minha mão.

Pisei fundo no acelerador.

Durante todo o caminho até o hospital, meu coração não parava de bater acelerado.

Mil pensamentos passaram pela minha cabeça.

E se fosse algo grave?

E se ela estivesse doente?

E se acontecesse alguma coisa?

Eu mataria a Ingrid.

Literalmente.

Cheguei ao pronto-socorro e os enfermeiros vieram imediatamente.

Levaram Mariza para dentro.

Fiquei sozinho na recepção.

Andando de um lado para o outro.

Pela primeira vez em muito tempo, eu estava realmente preocupado.

Alguns minutos depois, uma enfermeira apareceu.

— O senhor está acompanhando a paciente?

— Sim. Como ela está?

— Ela está melhor.

Finalmente consegui respirar.

— O que aconteceu?

— Foi uma queda de pressão.

Passei a mão pelos cabelos.

— Só isso?

— O nome correto é hipotensão.

Ela consultou a prancheta.

— Pelo que conversamos com a paciente, ela está tomando alguns medicamentos sem acompanhamento médico adequado.

Franzi a testa.

— Medicamentos?

— Antidepressivos e remédios para dormir.

Fiquei surpreso.

— Remédios para dormir?

A enfermeira assentiu.

— O uso incorreto e prolongado pode causar episódios como este.

Olhei para o chão por alguns segundos.

Quem era aquela mulher de verdade?

Porque, por trás de toda aquela personalidade forte, parecia existir alguém carregando um peso muito maior do que eu imaginava.

— Ela já vai receber alta — informou a enfermeira. — Se desejar, pode vê-la.

Agradeci e fui até o quarto.

Quando entrei, encontrei Mariza deitada na cama.

Ela parecia frágil.

Muito diferente da mulher que vivia discutindo comigo.

Sentei-me na poltrona ao lado.

— Está se sentindo melhor?

Ela virou o rosto na minha direção.

— Sim.

Sua voz saiu baixa.

— Só um pouco tonta.

Ficamos alguns segundos em silêncio.

— Se quiser ir embora, pode ir — disse ela. — Apenas me passa o endereço da casa de praia. Eu pego um Uber.

Olhei para ela.

Mesmo daquele jeito, ainda estava preocupada em não atrapalhar ninguém.

— Em alguns minutos você terá alta.

Ela apenas assentiu.

Nenhuma provocação.

Nenhum apelido.

Nenhuma discussão.

Aquilo me incomodou mais do que deveria.

Quando a alta foi liberada, acompanhei-a até o carro.

Dessa vez, sem reclamar, abri a porta para que ela entrasse.

Ela me lançou um olhar surpreso.

Mas não comentou nada.

Fechei a porta e dei a volta pelo veículo.

Pouco depois, seguimos para o meu apartamento em Santos.

Um lugar de frente para o mar.

E, pela primeira vez desde que a conheci, eu estava mais preocupado com ela do que comigo mesmo.

— Para onde está me levando? — Mariza perguntou, desconfiada, cruzando os braços.

Mantive os olhos na estrada.

— Para o meu apartamento.

Ela virou o rosto imediatamente para mim.

— O quê?

— Acha mesmo que vou te levar nesse estado para uma casa cheia de gente? Você se olhou no espelho?

Mariza pegou o espelho do quebra-sol e observou o próprio reflexo.

Seu rosto ainda estava pálido.

Mesmo assim, não perdeu a oportunidade de implicar.

— Eu não te conheço. O que pretende fazer comigo?

Soltei uma gargalhada.

— Estou tentando fazer um favor para a sua saúde. Relaxa, você não faz o meu tipo.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Ah, não faço?

— Não.

— Que pena.

— E, para completar, o apartamento tem dois quartos. Você vai ficar sozinha em um deles.

Ela bufou.

— E quem disse que você faz o meu tipo também? Você é sem graça.

Voltei o olhar para ela.

— Sem graça?

— E seu beijo nem foi tudo isso.

Quase bati no freio.

— Mentira.

— Foi sim.

— Você está mentindo.

— E o pior é que a Ingrid vai achar que eu caí na sua lábia.

Balancei a cabeça.

Aquela mulher era impossível.

— Se você não estivesse passando mal, eu te deixaria no meio da rua.

Ela revirou os olhos.

— Drama.

— Sua sorte é que não sou covarde.

— Eu não estou doente. Foi só uma queda de pressão.

Olhei rapidamente para ela.

— Você realmente gosta de mentir.

— Eu não estou mentindo.

— A enfermeira falou que você está tomando remédios sem acompanhamento médico.

Seu semblante mudou imediatamente.

— Miller...

— Antidepressivos. Remédios para dormir.

A voz dela saiu mais baixa.

— Fica quieto.

— Para mim isso é sério.

— Você não sabe nada da minha vida.

Havia algo diferente em seu olhar.

Uma tristeza que ela tentava esconder.

— Então para de agir como se soubesse.

Pela primeira vez desde que a conheci, resolvi não responder.

O restante do trajeto aconteceu em silêncio.

Quando chegamos ao estacionamento do meu prédio, desci primeiro.

Dei a volta no carro e abri a porta para ela.

Mariza saiu e imediatamente sorriu de canto.

— Ainda bem que não precisei mandar você abrir a porta.

Fechei os olhos por um segundo.

— Não começa.

— O quê?

— Você já me atormentou demais hoje.

Ela começou a rir.

— Eu?

— Sim, você.

— Exagerado.

— Você é uma bomba-relógio.

Ela apontou para si mesma.

— Meu nome é Mariza.

— Tanto faz.

Entramos no elevador.

Assim que chegamos ao apartamento, ela caminhou diretamente para a varanda.

Fiquei observando.

Vai que resolve pular.

O juízo daquela mulher parecia opcional.

Ela parou diante da vista para o mar.

O vento bagunçou seus cabelos.

Por alguns segundos, ficou em silêncio.

— Gostou? — perguntei.

Ela observou o horizonte.

— Tem bom gosto.

Sorri discretamente.

— Eu sei.

Ela revirou os olhos.

— Você é privilegiado por morar de frente para o mar.

— Seu quarto é aquele ali.

Apontei para o corredor.

— Acho melhor descansar um pouco.

Ela assentiu.

— A viagem foi cansativa.

Mariza seguiu para o quarto.

Eu fui para o meu.

Depois de um banho gelado, deitei por alguns segundos na cama.

Que tipo de furacão tinha entrado na minha vida?

Não bastava a situação da minha mãe.

Eu tinha vindo para me divertir.

Mas acabei virando enfermeiro particular de uma mulher teimosa.

Levantei e fiz um pedido de frutas, legumes, hortaliças e camarão.

Decidi preparar um risoto.

Enquanto cozinhava, meu celular tocou.

Kelly.

Franzi a testa.

Como ela conseguiu meu número?

Atendi.

— Alô?

— Cadê você, Miller?

— Tive um imprevisto.

— Pensei que já estivesse aqui.

— Mais tarde estarei aí.

— Promete?

— Prometo.

Desliguei.

Continuei mexendo o risoto.

Pouco depois, ouvi passos.

Mariza havia saído do quarto.

Ela caminhava pelo apartamento observando tudo.

Passava a mão nos móveis.

Olhava os quadros.

Depois se acomodou no sofá.

Parecia mais descansada.

Mas ainda não estava cem por cento.

Quando terminei a comida, fui até ela.

— Vem comer alguma coisa.

Ela se levantou devagar.

Sentou-se à mesa.

Observei enquanto experimentava a primeira garfada.

A segunda.

A terceira.

Seu semblante foi mudando aos poucos.

— Está ruim? — perguntei.

Ela ergueu os olhos.

— Está ótimo.

Sorri.

— Sério?

— Parabéns.

— Até que enfim um elogio.

Ela deu de ombros.

— Não se acostume.

Soltei uma risada.

Pelo menos a implicância tinha voltado.

Era sinal de melhora.

Depois do almoço tardio, o final da tarde chegou.

Peguei minha prancha.

Vestia apenas uma bermuda quando ouvi sua voz.

— Vai surfar?

— Vou.

— Posso ir junto?

Olhei para ela.

— Achei que queria fugir de mim.

— Continuo querendo.

— Então por que quer vir?

— Porque não vou ficar sozinha aqui.

Balancei a cabeça.

— Vamos.

Caminhei até a praia.

Ela veio atrás.

Chegando lá, coloquei a prancha na areia.

Mariza foi até um quiosque, comprou uma água de coco e sentou-se observando o mar.

Entrei na água.

Enquanto surfava, várias vezes meus olhos procuraram por ela.

E todas as vezes ela continuava sentada ali.

Me observando.

Quando saí do mar, ela caminhava pela beira da praia.

As ondas molhavam seus pés.

Os braços estavam abertos.

O vento brincava com seus cabelos.

Ela parecia livre.

Bonita.

Bonita demais.

Quando percebeu minha aproximação, sorriu.

— Quero ficar mais um pouco.

— Não.

Ela franziu a testa.

— Como assim não?

— Não vou deixar você sozinha.

— Eu não sou criança.

— Você pode passar mal de novo.

— Não estou doente.

— Foi exatamente isso que você falou antes de desmaiar.

Ela fechou a cara.

— Você é insuportável.

— E você é teimosa.

— Não manda em mim.

— Então fica aí.

Dei as costas.

Comecei a caminhar.

Poucos segundos depois ouvi seus passos atrás de mim.

Sorri sozinho.

Sabia que ela viria.

Voltamos para o apartamento.

Assim que chegamos, ela entrou no quarto.

Mas alguma coisa me dizia que aquela mulher estava planejando alguma besteira.

Por garantia, tranquei a varanda.

Não confiava nela.

Nem um pouco.

Tomei banho e, quando saí do quarto, encontrei Mariza parada na sala.

Com a mochila nas costas.

Pronta para partir.

Passei a mão no rosto.

— Para onde pensa que vai?

— Embora.

— O quê?

— Vou para a rodoviária.

— Está maluca?

— Talvez.

Cruzei os braços.

— O luau começa daqui a pouco.

— Não importa.

— Você é impossível.

Ela sorriu.

— Eu sei.

Respirei fundo.

— Não sei quem é você.

Ela piscou.

— Nem eu.

— Mas você consegue enlouquecer qualquer pessoa em questão de minutos.

— Obrigada.

— Isso não foi um elogio.

— Eu sei.

Apontei para a porta.

— Tudo bem. Vai embora.

Ela caminhou até o elevador.

Mas, antes que as portas se fechassem, voltei atrás.

Bufei derrotado.

— Mariza!

Ela se virou.

— O quê?

— Vai embora amanhã.

Ela piscou algumas vezes.

— Como é?

— Fica no apartamento esta noite.

— E o luau?

— Se não quiser ir, não vá.

Aproximei-me dela.

— Aqui não vai faltar nada.

Segurei seu braço com cuidado.

— Eu vou passar a noite toda fora mesmo.

Ela ficou me encarando.

— Você está sendo legal comigo?

— Não se acostume.

Pela primeira vez, ela sorriu de verdade.

— Vou me arrumar.

— Dez minutos.

Ela apontou o dedo para mim.

— Não me pressione.

Vinte minutos depois, ela apareceu.

E eu entendi por que demorou.

Meu coração simplesmente falhou uma batida.

Ela estava linda.

Não.

Linda era pouco.

A lembrança do nosso beijo voltou imediatamente à minha mente.

Mariza percebeu meu olhar.

— O que foi?

Pisquei algumas vezes.

— Nada.

— Estou tão feia assim?

— Não.

— Quer que eu troque de roupa?

Continuei olhando para ela por alguns segundos.

Demorei até encontrar minha voz.

— Está tudo perfeito.

Ela sorriu.

E, pela primeira vez naquela tarde, fui eu quem ficou completamente desconcertado.

— Vamos? — perguntei.

— Vamos.

Mariza confirmou.

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