5. MARIZA

No dia seguinte, acordo tarde. O choro da Isa ecoa pelo apartamento e me faz abrir os olhos. Olho para o relógio e vejo que já passa das onze da manhã.

— Meu Deus! — resmungo, passando a mão pelo rosto.

A ressaca ainda pesa na minha cabeça.

Levanto da cama e desço de pijama. Isa continua chorando e, pelo barulho vindo da cozinha, Mila deve estar arrumando o apartamento.

Cada dia que passa me convenço mais de que minha cama é o melhor lugar do mundo.

Assim que entro na cozinha, Mariza me encara com curiosidade.

— Bom dia! Como foi a festa?

Sento-me à mesa e pego uma xícara de café.

— Ainda consegui dar pelo menos um beijo.

— Sério? — Ela arregala os olhos.

— E adivinha em quem?

— Em quem?

— No loiro lá, o filho da mulher do acidente.

Mariza imediatamente se anima.

— Conta tudo!

— Que homem! — suspiro. — E aquele beijo... nem me fale. Sabe aqueles homens que não servem para casar? Então... ele é exatamente esse tipo. Bonito demais para o próprio bem.

Mariza começa a rir.

— E o resto? O que aconteceu depois?

Reviro os olhos.

— Não teve resto.

— Como assim?

— O amigo dele atrapalhou tudo. E, quando eu estava indo embora, vi o sujeito beijando outra garota.

Cruzo os braços.

— Homem não vale nada.

Passo quase uma hora contando cada detalhe da festa. Afinal, nunca tinha frequentado uma boate tão luxuosa na vida.

Mais tarde, convido Mariza para almoçarmos fora.

No caminho, enquanto dirijo, meus pais ligam. Coloco os fones de ouvido e seguimos conversando. Perguntam sobre o trabalho, sobre Isa e sobre a minha rotina.

Também conto sobre meu novo emprego.

Quando estaciono o carro e entramos no restaurante, percebo uma figura conhecida.

Misael Miller.

Ele está sentado sozinho e olha para o relógio a todo instante, como se estivesse esperando alguém.

Desvio o olhar imediatamente.

Pedimos a comida e, depois do almoço, seguimos para o teatro.

Haveria uma peça infantil, e decidimos levar Isa para que ela começasse a ter contato com arte e cultura desde cedo.

Na volta para casa, me jogo no sofá.

Uma sensação de monotonia toma conta de mim.

No dia seguinte, repito toda a minha rotina.

Vou para o laboratório e mergulho no trabalho.

Estou concentrada nos relatórios quando meu celular vibra.

É Ingrid.

Ela me convida para um luxuoso luau na casa de praia da família.

Solto uma risada sozinha.

— Vou nada.

Volto minha atenção para os exames.

Amo meu trabalho.

Sou apaixonada pelo que faço.

Dou o meu sangue naquele laboratório.

Fico tão concentrada que até deixo de almoçar para entregar os resultados dentro do prazo.

A semana passa voando.

Também preciso concluir meu curso de Administração.

Pego os livros e sorrio sozinha.

— Pelo menos estudar eu consigo. Porque amar está difícil.

No fim do expediente, vou ao supermercado.

Faço compras para a semana e guardo tudo no porta-malas.

No meio do caminho, o corretor me liga para falar sobre os apartamentos disponíveis.

Apesar da animação de finalmente ter meu próprio espaço, fico triste por saber que terei de ficar longe da Mila e da Isa.

Como se isso não bastasse, meu carro resolve quebrar.

— Era só o que faltava!

Passo o restante da semana me virando entre ônibus e metrô.

Mesmo assim, consigo cumprir todos os compromissos.

Visito vários apartamentos e escolho um novinho em folha.

Serei a primeira moradora.

A ideia me deixa feliz.

Enquanto isso, Ingrid continua insistindo para que eu vá ao luau.

Explico que o carro quebrou.

Mas ela não aceita desculpas.

Diz que mandará um amigo me buscar.

Contra minha vontade, acabo passando meu novo endereço.

Chego em casa exausta.

Jogo-me no sofá e fecho os olhos.

Mila me observa.

— Vou avisando: preciso urgentemente de uma massagem.

Ela sorri.

— Por você eu faço isso e muito mais.

Sento-me devagar.

— Ah, é?

— Claro. Somos amigas. Você me ajudou num dos momentos mais difíceis da minha vida.

Os olhos dela ficam marejados.

— Você ama a Isa como se fosse sua filha. E o Pedro praticamente é o pai dela. Nunca deixou faltar nada para nós.

Sinto um nó na garganta.

— Quer me fazer chorar?

Ela ri.

— Não.

— Porque eu já estou sensível. Meu carro virou sucata e parece que tudo na minha vida precisa ser difícil.

Baixo a cabeça.

— Às vezes acho que o problema sou eu.

Mila se aproxima imediatamente e me abraça.

— Não fala isso.

Permaneço alguns segundos aninhada em seus braços.

Depois almoçamos a lasanha que ela preparou especialmente para mim.

De sobremesa, brigadeiro.

Conto sobre o convite para ir a Santos.

— Você tem mais é que ir — ela incentiva. — Conhecer pessoas novas, se divertir um pouco.

— Talvez.

— Talvez nada.

Dou risada.

— Vou preparada. Se não gostar do lugar, volto embora na mesma hora.

Mais tarde, arrumo uma mochila com roupas de banho e deixo tudo pronto.

Caso eu decida ir.

À noite, deito na cama.

Pouco depois, Mila entra carregando uma xícara de chá de erva-doce.

— Para que esse chá?

— Ajuda a relaxar.

Ela entrega a xícara para mim.

— Tome tudo.

— Estou começando a desconfiar de você.

— Drama.

Ela ri.

— Agora coloca uma música tranquila enquanto vou buscar os óleos para sua massagem.

Minutos depois, a massagem começa.

E funciona melhor do que eu esperava.

Relaxo tanto que acabo dormindo.

Quando acordo, já são cinco da tarde.

Levanto assustada.

— Mila me drogou.

Dou risada sozinha.

Troco de roupa e vou para a academia do prédio.

Treino pesado.

Fazia dias que eu não me exercitava.

Quando termino, o porteiro me chama.

— Tem uma encomenda para você.

Assino o recebimento.

É um pacote enviado por Ingrid.

Dentro estão as pulseiras para entrar no evento em Santos.

Balanço a cabeça.

Os pais dela são extremamente ricos.

Mas Ingrid nunca deixou o dinheiro subir à cabeça.

Talvez seja isso que eu mais admire nela.

No dia seguinte, após o trabalho, finalmente me mudo para o novo apartamento.

Mila passa a tarde me ajudando a organizar tudo.

Roupas.

Livros.

Objetos.

Quando terminamos, observo meu novo lar.

Um sorriso surge no meu rosto.

Agora aquele lugar é meu.

Levei alguns dias para me adaptar.

Principalmente para dormir.

Mas estava feliz.

Hoje é sábado.

E ainda não decidi se vou para Santos.

Segundo Ingrid, um rapaz chamado Jonas virá me buscar às duas da tarde.

Ela descreve o carro e também o motorista.

Pela descrição, parece bonito.

Confesso que isso desperta um pouco minha curiosidade.

Pontualmente às duas da tarde, o interfone toca.

Sou avisada de que o carro chegou.

Pego minha mochila e desço.

Quando saio pelo portão, o vidro do carro baixa lentamente.

Meu coração para.

Não.

Não pode ser.

Quando ele tira os óculos escuros, reconheço aqueles olhos imediatamente.

Miller.

Ele desce do carro com toda a confiança do mundo.

O sorriso arrogante surge em seus lábios.

Seu olhar percorre meu corpo de cima a baixo.

Por alguns segundos, sinto como se o mundo inteiro tivesse desaparecido.

Como se existíssemos apenas nós dois.

— Então é aqui que a Mia mora? — ele provoca. — Ou devo chamar de Mariza? Ou vocês são gêmeas?

Cruzo os braços.

— Não acredito.

Ele sorri ainda mais.

— Eu também senti sua falta.

— Você de novo? Não vou mais a lugar nenhum.

— Está com medo?

— De você? Nunca.

— Então entra.

Ele apoia o braço na porta.

— Não vou te fazer mal.

Seus olhos brilham com diversão.

— Além disso, normalmente são as mulheres que pedem para ficar comigo.

Reviro os olhos.

— Convencido.

— Apenas sincero.

Dou uma bufada.

— Nunca forçaria nenhuma mulher a nada.

Ele fica sério por um instante.

— Agora entra logo. Estamos atrasados.

Ele entra no carro e me espera.

Permaneço parada com as mãos na cintura.

— Qual é, Mariza? Vai ou não vai?

— Só vou se abrir a porta para mim.

Ele começa a rir.

— Além de brava, é folgada.

— Vai abrir ou não?

— Tem sorte de eu estar num ótimo dia.

Ele desce do carro e abre a porta teatralmente.

— Senhorita.

— Assim está melhor.

Seguimos viagem.

O ar-condicionado está ligado e uma música agradável toca ao fundo.

Para minha surpresa, o gosto musical dele combina bastante com o meu.

Tudo corre bem até ele resolver provocar.

— Sabia que seu carro não ia muito longe?

Fecho os olhos.

— Lá vem.

— Está caindo aos pedaços.

— Se está tão preocupado, compra um novo para mim.

Ele ri.

— Coragem a sua.

— E não se preocupe. Na volta eu pego um ônibus.

— Sua língua é enorme.

— Falou o homem que não perde uma oportunidade de falar do meu carro.

Aponto o dedo para ele.

— Ele quebrou. Está feliz agora?

— Um pouco.

— Chato.

— Nervosinha.

— Insuportável.

Ele começa a rir.

Isso me irrita ainda mais.

— Para o carro.

— O quê?

— Para o carro agora.

Ele estaciona no acostamento.

Abro a porta e começo a caminhar pela estrada.

— Ei!

Continuo andando.

— Para onde você pensa que vai?

Ignoro.

— Volta aqui, sua maluca!

Tiro uma sandália do pé e arremesso na direção dele.

Por pouco não acerto seu rosto.

— Você enlouqueceu?

— Vai embora!

— Ótimo! Vou mesmo!

Ele entra no carro e arranca.

Cruzo os braços.

— Idiota.

Mas alguns segundos depois ele retorna.

Desce do veículo, me pega no colo antes que eu consiga reagir e me coloca dentro do carro novamente.

— Me solta!

— Nem pensar.

Ele fecha a porta.

— E, por favor, não teste mais minha paciência.

Aponta o dedo para mim.

— Estou fazendo um favor para a Ingrid.

Depois completa:

— Porque, se dependesse de mim, deixaria você discutindo com as raposas na estrada.

— Tem certeza de que gosta de mulher?

Ele arregala os olhos.

— Agora minha masculinidade entrou na conversa?

— Estou apenas perguntando.

Ele passa a mão pelo rosto.

— Era só o que faltava.

Não consigo evitar uma risada.

Depois de alguns minutos, suspiro.

— Desculpa por quase acertar você.

Ele me encara rapidamente.

— Quase?

— Tá bom. Desculpa.

— Aceito.

Cruzo os braços.

— Mas você continua sendo extremamente chato.

Ele apenas sorri.

Seguimos viagem.

Encosto a cabeça no banco.

O balanço do carro e a música suave acabam vencendo meu cansaço.

Fecho os olhos.

E durmo antes mesmo de chegarmos ao destino.

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