6 - Negócios de família

Enquanto os gritos animados de Diego e Suzie ecoavam da casa da árvore, a atmosfera na varanda gourmet da mansão Alencar mudou quase imperceptivelmente.

Até poucos minutos antes, o espaço estava tomado por conversas leves, risadas e o cheiro promissor do churrasco que começava a ser preparado.

Agora, o tilintar relaxado dos copos de cristal foi substituído por um som mais seco e sério: o de uma pasta de couro sendo aberta sobre a mesa de carvalho.

Horácio Alencar apoiou os antebraços na mesa e deslizou alguns papéis para o centro.

— O Zaret comprou mais dois por cento esta semana — disse ele, em um tom baixo, controlado. — Usou outra subsidiária. Ele está sendo cuidadoso, mas está se movendo rápido demais, Julio.

Julio Martini ajustou os óculos no rosto e inclinou-se para olhar os documentos.

Depois de alguns segundos, suspirou e tirou os óculos, massageando a ponte do nariz.

— Vitor Zaret tem trinta e dois anos e a ambição de um tubarão branco — murmurou. — Ele não quer apenas uma cadeira no conselho, Horácio. Ele quer a presidência. Quer a Colt Enterprises inteira.

Barbara Alencar pegou sua taça de vinho e girou o líquido lentamente, pensativa.

— Ele pode ser apenas um jovem ainda — disse ela — mas pensem no futuro. Quando nossos filhos estiverem prontos para assumir, Zaret estará no auge da carreira. Terá décadas de contatos, experiência e conhecerá cada detalhe dos nossos contratos.

Ela lançou um olhar rápido para o jardim, onde Diego e Suzie ainda corriam entre as árvores.

— Diego e Suzie serão devorados vivos antes mesmo de assinarem a primeira diretriz da empresa.

Felicia Martini, que até então observava a filha brincar ao longe, franziu levemente o cenho.

— Vocês estão falando de negócios — disse com calma — mas estão esquecendo que também estamos falando de crianças.

Ela cruzou os braços.

— O que exatamente vocês estão sugerindo? Que decidamos o futuro sentimental deles em uma mesa de churrasco? Isso parece… um pouco arcaico, Julio.

Julio estendeu a mão e segurou a dela com delicadeza.

— Felicia, meu amor… nós não estamos escolhendo quem eles vão amar. Estamos tentando garantir que eles tenham algo para proteger quando crescerem.

Ele apontou discretamente para os papéis.

— Se a Colt cair nas mãos do Zaret, o legado de três gerações desaparece. Ele não terá nenhuma hesitação em nos tirar do caminho. E nossos filhos… ficarão com as sobras.

Horácio inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa.

— Existe apenas uma blindagem jurídica realmente sólida para isso — disse ele. — Uma fusão completa entre nossas holdings.

Barbara arqueou a sobrancelha.

— Você está falando sério?

— Muito.

Ele continuou:

— Se as participações da família Alencar e da família Martini se tornarem uma só estrutura permanente, Zaret nunca conseguirá alcançar a maioria acionária. Mesmo que ele siga comprando ações, continuará sendo apenas um sócio minoritário.

Felicia já imaginava para onde aquela conversa estava indo.

— E como exatamente vocês pretendem tornar essa fusão permanente?

Julio respondeu antes que Horácio pudesse falar.

— Com um vínculo civil.

Felicia piscou.

— Um vínculo… civil?

Horácio assentiu.

— Um casamento.

O silêncio que se seguiu foi breve, mas pesado.

— Se Diego e Suzie se casarem quando forem adultos — explicou Horácio — as ações das duas famílias estarão juridicamente unificadas. Isso cria uma barreira que ele não vai conseguir atravessar.

Barbara cruzou os braços, pensativa.

— Seria uma blindagem permanente.

Felicia voltou a olhar para o jardim. As risadas das crianças ainda ecoavam da casa da árvore.

— E se eles crescerem e se apaixonarem por outras pessoas? — perguntou ela, suavemente.

Julio soltou um pequeno sorriso.

— Felicia… olhe para eles.

No gramado, Diego corria atrás de Suzie com um pedaço de graveto que ele parecia usar como espada imaginária.

Ela gritava algo sobre exploradores e territórios secretos.

— Eles se adoram — continuou Julio. — Sempre foram inseparáveis.

Ele se levantou levemente da cadeira e chamou:

— Suzie! Diego! Venham aqui um segundo.

Os dois apareceram na varanda poucos segundos depois, bochechas coradas e cabelos bagunçados, com aquela energia específica de quem foi interrompido no meio de algo muito importante.

— O que foi? — Diego perguntou, claramente impaciente para voltar.

— Estávamos conversando sobre uma coisa — disse Julio, com um sorriso tranquilo. — Vocês gostam de brincar juntos, não gostam?

— É a melhor coisa do mundo — Suzie respondeu, sem precisar pensar.

Diego concordou com a cabeça, já de olho no jardim.

— E se nunca precisassem se despedir? — continuou Julio. — Se pudessem passar o resto da vida juntos assim… vocês gostariam?

Suzie olhou para Diego.

Diego olhou para Suzie.

— A gente ia poder brincar todo dia? — ela perguntou.

— Todo dia — confirmou Julio.

Ela virou para o pai com uma seriedade que ficava cômica em seu rosto de criança.

— Então eu quero!

Diego levantou o punho no ar como se tivesse acabado de ganhar uma competição.

— Eu também!

E antes que qualquer adulto pudesse dizer mais alguma coisa, os dois já estavam correndo de volta para o jardim.

Na varanda, Horácio e Julio trocaram um olhar silencioso.

Barbara parecia pensativa.

Felicia, por outro lado, observava a filha correr pelo gramado com um sentimento difícil de explicar.

Não era exatamente medo.

Mas também não era tranquilidade.

Felicia observava a filha correr pelo gramado com um sentimento que ela não saberia nomear nem se tentasse.

Não era medo.

Mas também não era tranquilidade.

Ali no jardim, duas crianças riam e corriam sob o sol de domingo.

E sem saber… tinham acabado de aceitar um acordo que ainda levaria muitos anos para cobrar seu preço.

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