Mundo de ficçãoIniciar sessãoEnquanto os gritos animados de Diego e Suzie ecoavam da casa da árvore, a atmosfera na varanda gourmet da mansão Alencar mudou quase imperceptivelmente.
Até poucos minutos antes, o espaço estava tomado por conversas leves, risadas e o cheiro promissor do churrasco que começava a ser preparado.
Agora, o tilintar relaxado dos copos de cristal foi substituído por um som mais seco e sério: o de uma pasta de couro sendo aberta sobre a mesa de carvalho.
Horácio Alencar apoiou os antebraços na mesa e deslizou alguns papéis para o centro.
— O Zaret comprou mais dois por cento esta semana — disse ele, em um tom baixo, controlado. — Usou outra subsidiária. Ele está sendo cuidadoso, mas está se movendo rápido demais, Julio.
Julio Martini ajustou os óculos no rosto e inclinou-se para olhar os documentos.
Depois de alguns segundos, suspirou e tirou os óculos, massageando a ponte do nariz.
— Vitor Zaret tem trinta e dois anos e a ambição de um tubarão branco — murmurou. — Ele não quer apenas uma cadeira no conselho, Horácio. Ele quer a presidência. Quer a Colt Enterprises inteira.
Barbara Alencar pegou sua taça de vinho e girou o líquido lentamente, pensativa.
— Ele pode ser apenas um jovem ainda — disse ela — mas pensem no futuro. Quando nossos filhos estiverem prontos para assumir, Zaret estará no auge da carreira. Terá décadas de contatos, experiência e conhecerá cada detalhe dos nossos contratos.
Ela lançou um olhar rápido para o jardim, onde Diego e Suzie ainda corriam entre as árvores.
— Diego e Suzie serão devorados vivos antes mesmo de assinarem a primeira diretriz da empresa.
Felicia Martini, que até então observava a filha brincar ao longe, franziu levemente o cenho.
— Vocês estão falando de negócios — disse com calma — mas estão esquecendo que também estamos falando de crianças.
Ela cruzou os braços.
— O que exatamente vocês estão sugerindo? Que decidamos o futuro sentimental deles em uma mesa de churrasco? Isso parece… um pouco arcaico, Julio.
Julio estendeu a mão e segurou a dela com delicadeza.
— Felicia, meu amor… nós não estamos escolhendo quem eles vão amar. Estamos tentando garantir que eles tenham algo para proteger quando crescerem.
Ele apontou discretamente para os papéis.
— Se a Colt cair nas mãos do Zaret, o legado de três gerações desaparece. Ele não terá nenhuma hesitação em nos tirar do caminho. E nossos filhos… ficarão com as sobras.
Horácio inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Existe apenas uma blindagem jurídica realmente sólida para isso — disse ele. — Uma fusão completa entre nossas holdings.
Barbara arqueou a sobrancelha.
— Você está falando sério?
— Muito.
Ele continuou:
— Se as participações da família Alencar e da família Martini se tornarem uma só estrutura permanente, Zaret nunca conseguirá alcançar a maioria acionária. Mesmo que ele siga comprando ações, continuará sendo apenas um sócio minoritário.
Felicia já imaginava para onde aquela conversa estava indo.
— E como exatamente vocês pretendem tornar essa fusão permanente?
Julio respondeu antes que Horácio pudesse falar.
— Com um vínculo civil.
Felicia piscou.
— Um vínculo… civil?
Horácio assentiu.
— Um casamento.
O silêncio que se seguiu foi breve, mas pesado.
— Se Diego e Suzie se casarem quando forem adultos — explicou Horácio — as ações das duas famílias estarão juridicamente unificadas. Isso cria uma barreira que ele não vai conseguir atravessar.
Barbara cruzou os braços, pensativa.
— Seria uma blindagem permanente.
Felicia voltou a olhar para o jardim. As risadas das crianças ainda ecoavam da casa da árvore.
— E se eles crescerem e se apaixonarem por outras pessoas? — perguntou ela, suavemente.
Julio soltou um pequeno sorriso.
— Felicia… olhe para eles.
No gramado, Diego corria atrás de Suzie com um pedaço de graveto que ele parecia usar como espada imaginária.
Ela gritava algo sobre exploradores e territórios secretos.
— Eles se adoram — continuou Julio. — Sempre foram inseparáveis.
Ele se levantou levemente da cadeira e chamou:
— Suzie! Diego! Venham aqui um segundo.
Os dois apareceram na varanda poucos segundos depois, bochechas coradas e cabelos bagunçados, com aquela energia específica de quem foi interrompido no meio de algo muito importante.
— O que foi? — Diego perguntou, claramente impaciente para voltar.
— Estávamos conversando sobre uma coisa — disse Julio, com um sorriso tranquilo. — Vocês gostam de brincar juntos, não gostam?
— É a melhor coisa do mundo — Suzie respondeu, sem precisar pensar.
Diego concordou com a cabeça, já de olho no jardim.
— E se nunca precisassem se despedir? — continuou Julio. — Se pudessem passar o resto da vida juntos assim… vocês gostariam?
Suzie olhou para Diego.
Diego olhou para Suzie.
— A gente ia poder brincar todo dia? — ela perguntou.
— Todo dia — confirmou Julio.
Ela virou para o pai com uma seriedade que ficava cômica em seu rosto de criança.
— Então eu quero!
Diego levantou o punho no ar como se tivesse acabado de ganhar uma competição.
— Eu também!
E antes que qualquer adulto pudesse dizer mais alguma coisa, os dois já estavam correndo de volta para o jardim.
Na varanda, Horácio e Julio trocaram um olhar silencioso.
Barbara parecia pensativa.
Felicia, por outro lado, observava a filha correr pelo gramado com um sentimento difícil de explicar.
Não era exatamente medo.
Mas também não era tranquilidade.
Felicia observava a filha correr pelo gramado com um sentimento que ela não saberia nomear nem se tentasse.
Não era medo.
Mas também não era tranquilidade.
Ali no jardim, duas crianças riam e corriam sob o sol de domingo.
E sem saber… tinham acabado de aceitar um acordo que ainda levaria muitos anos para cobrar seu preço.







