7 - Reset

Os anos passavam, mas as reuniões extraoficiais dos Martini e dos Alencar seguiam seu curso natural: começava com conversa leve na varanda, migrava inevitavelmente para a Colt, e terminava com alguém abrindo uma pasta que não deveria estar ali num domingo.

Na sala, Diego e Suzie ignoravam tudo isso com a competência de quem já havia aprendido que adultos em modo reunião eram essencialmente invisíveis.

O tabuleiro de xadrez estava entre os dois, e a situação não era boa para nenhum dos lados.

— Você está demorando demais — Diego disse, tamborilando os dedos na mesa.

— Estou pensando. — Suzie não levantou os olhos. — É uma coisa que você poderia tentar de vez em quando.

— Estou pensando que você vai perder em três jogadas.

— Estou pensando que você vai dormir esperando.

Diego recostou na cadeira com um sorriso que ela não viu.

Lá fora, a conversa dos adultos mudou de tom. A voz de Horácio Alencar subiu uma oitava, animada:

— ... e para a festa de premiação dos funcionários deste ano, eu estava pensando que Suzie e Diego poderiam fazer a introdução. Seria o momento perfeito para eles começarem a se familiarizar com o palco da Colt.

Suzie levantou a cabeça instantaneamente, os olhos brilhando. O xadrez foi esquecido.

— Nós? No palco? — Ela se levantou de um salto, as mãos espalmadas nas coxas. — Diego, a gente precisa estar impecável! Pai, eu posso escolher o meu próprio figurino, não posso?

Julio Martini riu, balançando a cabeça.

— Desde que não apareça de pijama, querida, a escolha é sua.

Suzie virou-se para Diego, que continuava sentado, olhando para o tabuleiro com tédio.

— Vem! Você vai me ajudar a escolher a roupa mais adequada agora mesmo.

— Suzie, é uma premiação de empresa, não o Oscar — Diego resmungou, sem se mexer. — Qual a dificuldade de escolher um vestido?

— Claro, para você é fácil! — ela desdenhou, puxando-o pelo braço com uma força surpreendente. — Você só tem que escolher a cor da gravata. Se tivesse dificuldades com isso, acho que seu pai teria que arrumar outro herdeiro.

Diego abriu a boca.

Fechou.

— Você diz isso, mas não consegue escolher uma roupa sozinha. — ele respondeu com um tom de ironia na voz — Não parece muito melhor do que eu.

— Não quero ouvir suas desculpas. Você vai me ajudar, sim! — Suzie agarrou a mão dele e saiu o arrastando escada acima em direção ao quarto, ignorando os risos contidos dos pais na varanda.

Ao entrarem no santuário de Suzie, Diego parou, cruzando os braços.

O quarto seria até neutro, com seus móveis brancos e colchas de linho, se não fosse pela dezena de pôsteres de artistas e modelos sem camisa espalhados pelas paredes.

— Que mau gosto, Suzie — Diego disparou, apontando para um ator de queixo quadrado. — Não tinha nada melhor para decorar seu quarto?

— Cala a boca, Diego, não pedi ajuda com a decoração — ela rebateu, puxando o braço dele até a frente do closet espelhado. — Agora, presta atenção. Eu pensei em usar esse aqui, o que acha?

Ela tirou um vestido de seda do cabide e o posicionou na frente do corpo, girando levemente. Diego arqueou uma sobrancelha, o desdém pronto na ponta da língua.

— Parece uma cortina de teatro. Próximo.

O segundo era branco, mais estruturado, com um detalhe no ombro.

Diego olhou por dois segundos.

— Parece roupa de casamento. Sem chances de eu ficar ao seu lado vestida assim.

— DIEGO!

— Estou ajudando.

— Não está não!

Ela tentou um terceiro, um quarto, um quinto.

Peças de grife começaram a se amontoar sobre a cama como uma pilha de frustração.

Por fim, Suzie soltou um rosnado de irritação e se jogou de bruços na cama, afundando o rosto no travesseiro.

— Você não está ajudando nada — ela resmungou, a voz abafada pelo tecido.

Diego ia retrucar com alguma piada sobre a indecisão feminina, mas as palavras morreram na garganta.

Seu olhar desceu, sem intenção, sem aviso, sem nenhum tipo de permissão do seu próprio cérebro.

O short que ela usava tinha subido um pouco quando se jogou na cama.

Só um pouco.

Mas foi o suficiente.

"Por que meu rosto está ardendo?" ele se perguntou, sentindo as orelhas queimarem enquanto sua mente, até então inocente, começava a processar informações que ele não estava pronto para lidar.

Suzie virou de barriga pra cima, jogando o cabelo pra trás, e encontrou a expressão dele.

Ele desviou o olhar, como se tivesse sido pego fazendo algo errado.

Ela franziu o cenho.

— Que cara é essa?

— Nada.

— Tá vermelho.

— Tá calor.

Ela ficou olhando por um segundo, avaliando.

Depois deu de ombros com a indiferença total de quem não encontrou nada de interessante para investigar.

— Quer saber de uma coisa? Pode ir embora. — Ela voltou a olhar para os vestidos espalhados ao redor dela. — Muito ajuda quem não atrapalha. Vou decidir sozinha.

Ele soltou um riso curto, tentando recuperar o tom de sempre.

— Com prazer.

Diego saiu do quarto com uma velocidade que ele mesmo classificou mentalmente como "passos normais de uma pessoa normal saindo de um lugar normal."

No corredor, parou.

Encostou na parede.

Ficou olhando para o teto por alguns segundos.

"Isso não significa nada", ele avisou a si mesmo.

Mas o rosto continuou ardendo por mais uns vinte minutos.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
capítulo anteriorpróximo capítulo
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App