Mundo de ficçãoIniciar sessãoA mansão Martini sempre teve essa dualidade perturbadora: era imponente o suficiente para intimidar qualquer auditor da Receita Federal, mas mantinha um ar de aconchego que fazia você querer tirar os sapatos na entrada.
Diego Alencar, no entanto, não queria tirar os sapatos; ele queria dar meia volta e ir embora.
Julio os recebeu na porta de carvalho com abraços e tapinhas nas costas que tinham mais cara de ritual do que de recepção calorosa.
Diego correspondeu com o sorriso de diretor executivo: calibrado, impecável, completamente falso. O embrulho no estômago, esse sim, era genuíno.— Entrem, entrem. Felicia está terminando de alinhar os últimos detalhes — Julio disse, conduzindo-os para o hall.
E foi ali, no pé da escadaria de mármore, que o mundo de Diego Alencar sofreu um pequeno e doloroso colapso.
Suzie Martini surgiu.
Mas algo estava diferente.
Ela vestia um macacão pantalona azul que parecia ter sido esculpido no corpo dela. O top torcido no busto e a cintura alta transmitiam uma segurança que gritava profissionalismo, mas com uma pitada de "eu sei que sou irresistível".
"Desde quando essa desgraçada ficou gostosa assim?" Diego pensou, sentindo um nó travar sua garganta.
Mas antes que alguém percebesse o lapso, ele engoliu em seco e ajustou a expressão de volta para a indiferença total.
Diego não fazia ideia, mas, do alto da escadaria, Suzie havia o avistado uma fração de segundo antes, e estava descendo os degraus com elegância apenas porque estava se concentrando nisso ativamente. Ver Diego de perto, depois de quatro anos de silêncio, era como levar um choque de alta voltagem. Ele estava diferente. O rosto havia ganhado contornos mais quadrados, a barba estava impecavelmente aparada e o cabelo... aquele maldito cabelo parecia ter sido penteado apenas com os dedos, exalando um charme bagunçado que deixava suas pernas parecendo gelatina. "Se controla, Suzie. Só mais alguns degraus." repetia mentalmente.Ela chegou ao hall com um sorriso que Diego não via há quatro anos. Um sorriso que, para sua total indignação, foi direcionado exclusivamente para os pais dele.
— Horácio, Barbara! Que saudade! — ela exclamou, envolvendo os Alencar em um abraço caloroso que ignorava a existência de Diego como se ele fosse um móvel invisível.
Barbara retribuiu o abraço com aquele brilho genuíno no olhar.
— Você fez muita falta, querida. Os churrascos de domingo definitivamente não são os mesmos sem você.
Foi quando Suzie virou o rosto e os olhos dela encontraram os de Diego pela primeira vez em quatro anos.
O sorriso não desapareceu. Ele simplesmente... esfriou.
Grau a grau, em tempo real, até atingir uma temperatura que poderia resolver o problema do aquecimento global.— Com certeza seriam piores se eu estivesse presente — ela disse, e voltou imediatamente para Barbara como se Diego fosse um elemento decorativo de gosto duvidoso.
Felicia Martini apareceu no hall nesse exato momento, pronta para o controle de danos.
— Venham, venham! Temos muito o que comemorar e mais ainda para conversar. O jantar vai ser servido em minutos, vamos nos sentar.
Sentados em volta da enorme mesa de jacarandá, as duas famílias engajaram em uma conversa animada sobre viagens e o clima, enquanto Suzie e Diego operavam em um regime de silêncio rigoroso.
Eles mal abriram a boca, exceto para comer e lançar olhares que, se tivessem forma física, teriam violado pelo menos três artigos do Código Penal.
— E então, Suzie — Horácio disse, limpando os lábios com o guardanapo de linho e sorrindo sinceramente. — Após quatro anos de estudo pesado em Londres, acho que já está na hora de pegar um pouco de prática na empresa, não é mesmo? A Colt precisa de sangue novo.
— Sim, Horácio. Estou mais do que pronta para isso — Suzie respondeu, a voz firme e aveludada.
Foi quando Diego percebeu que o silêncio estava durando tempo demais. Ele precisava cutucar a onça.
— Quero só ver se a estagiária aí aguenta o ritmo do campo de batalha real. — ele disse, com aquele tom de quem está sendo razoável — A teoria de Londres é linda, mas o mercado brasileiro devora amadores no café da manhã.
Suzie pousou o garfo e a faca com uma delicadeza assustadora. Ela olhou para Diego com um cinismo que faria um advogado de porta de cadeia se orgulhar.
— Se preocupe com você, Alencar. Estudar faz bem. Pelo que andam comentando, você ainda está aprendendo na base da tentativa e erro. Vitor Zaret tem se divertido bastante com as suas tentativas, não?
Diego sentiu a raiva subir até os cabelos. Zaret era o ponto fraco dele.
— Eu poderia ter estudado muito mais, Suzie, se alguém não tivesse assumido sozinha a autoria de uma pesquisa que eu também fiz.
— Que pena, né? — Ela sorriu, um sorriso gélido e sem qualquer traço de arrependimento. — Você se distraiu e confundiu a minha apresentação de abelhinha. Eu me distraí e confundi os nomes na nossa pesquisa... acontece, né?
Diego sentiu o impulso de pular por cima da mesa e chacoalhá-la até que ela pedisse perdão. Mas antes que ele pudesse retrucar, seu pai lançou um olhar tão pesado que ele quase afundou na cadeira.
Ele apenas sorriu forçadamente, balançando a cabeça em negativa.
— Você fez de propósito... — ele sussurrou para si mesmo, mas alto o suficiente para ela ouvir.
Suzie apenas piscou, vitoriosa, e voltou a comer seu risoto como se tivesse acabado de ganhar um debate.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo tilintar discreto dos talheres contra a porcelana e por comentários pontuais entre Barbara e Felicia. As duas se esforçavam visivelmente para sustentar a ficção de que tudo estava bem.
O jantar chegou ao fim sem grandes cerimônias, mas a atmosfera na sala havia mudado.
Julio dobrou o guardanapo de linho sem pressa. Horácio fez o mesmo. Os dois se levantaram quase em sincronia, e Diego sentiu o estômago afundar porque conhecia esse ritmo.
Não era um bom sinal.
— Bom… — começou Julio, a voz agora firme e despida de qualquer resquício do tom cordial de minutos atrás. — Agora que as gentilezas foram devidamente trocadas…
Ele fez uma breve pausa, deixando o peso das palavras assentar enquanto olhava de Suzie para Diego.
— Precisamos falar seriamente sobre o futuro da Colt Enterprises. — O silêncio se instalou novamente, mas agora era denso, quase sólido. — E sobre o futuro de vocês dois.
Suzie ergueu o olhar, subitamente atenta, a postura de quem está pronta para o xeque-mate.
Diego, por outro lado, permaneceu imóvel, os olhos semicerrados em desconfiança.
— Nos acompanhem até o escritório.
Suzie endireitou a postura com o sorriso sutil de quem está prestes a receber as chaves do reino.
"Finalmente, hora da posse", ela pensou.
Diego semicerrou os olhos.
"Que bomba eles vão soltar agora?"
Os quatro seguiram para o escritório, atravessando o corredor em uma procissão silenciosa, sem que fizessem ideia de que estavam caminhando juntos em direção ao mesmo precipício.







