Capítulo 45

Miguel

Continuamos correndo apressados, desviando de pessoas, até estarmos a uma distância segura do salão. Finalmente, Clara diminuiu o ritmo e, para minha surpresa, começou a rir.

— Que loucura! Acho que já podemos parar — disse ela, ainda tentando recuperar o fôlego.

— Certo, você tem razão — concordei, respirando fundo enquanto olhava ao redor para garantir que ninguém nos seguiu. — Para onde você quer ir?

Ela ergueu o rosto na minha direção, com aquele sorriso que parecia iluminar tudo ao redor.

— Eu não sei... Me leva para onde você quiser.

Por um momento, hesitei. Era uma grande responsabilidade confiar em mim assim, mas uma ideia surgiu.

— Okay, espera um segundo.

Me afastei um pouco e peguei o telefone. Era uma loucura, mas eu tinha quase certeza de que ela adoraria o lugar que eu estava pensando. Com os dedos rápidos, disquei o número. Quando o contato do outro lado confirmou que poderíamos ir, voltei para ela, sentindo um leve sorriso se formar no meu rosto.

— Vamos — disse simplesmente, segurando a mão dela para guiá-la.

O trajeto foi tranquilo, mas minha mente estava cheia de pensamentos. Eu sabia que ela precisava de algo especial, algo que a tirasse completamente daquele clima tenso e desconfortável. Assim que chegamos ao portão, soltei um suspiro de alívio.

— Onde estamos? — perguntou Clara, a curiosidade evidente na sua voz.

Empurrei o portão e a conduzi pelo caminho de pedras, cercado por arbustos bem cuidados.

— É um jardim. Pertence à minha antiga chefe. Ela cultiva flores raras aqui.

O silêncio dela dizia tudo. Clara parecia absorver cada detalhe pelos sentidos que tinha. O leve perfume das flores misturava-se à brisa suave, e eu sabia que ela sentia aquilo tão profundamente quanto eu via.

— É incrível — ela murmurou, como se estivesse falando consigo mesma.

Eu a guiei até uma área com um banco de madeira, cercado por flores vibrantes de todas as cores.

— Sente-se aqui. Vou descrever para você — sugeri, vendo-a se acomodar delicadamente.

Ela virou o rosto na direção da minha voz, e o sorriso que surgiu foi algo que eu nunca esqueceria.

Clara

O ar estava cheio de um perfume fresco e natural, algo que me envolveu assim que Miguel me conduziu pelo espaço. Eu podia ouvir o som suave de folhas se mexendo ao vento e o murmúrio de água corrente, talvez de uma fonte próxima. Eu sorri, sentindo-me envolvida por aquela atmosfera mágica. Era quase como se pudesse enxergar.

Depois de um momento de silêncio confortável, ouvi Miguel se aproximar mais.

— Agora me explica uma coisa, Clara — ele começou, com aquele tom que era quase uma ordem, mas carregava também uma ponta de preocupação. — Por que você foi para aquele lugar?

Suspirei, percebendo que essa conversa era inevitável.

— Foi ideia da Isabela — confessei, soltando uma risada breve, mais de incredulidade do que de diversão. — Depois que terminei meu relacionamento com o Mark, ela achou que seria bom... sei lá, que eu tentasse conhecer outras pessoas.

— E você achou que aquele era o lugar ideal pra isso? — Miguel perguntou, sem disfarçar o tom crítico.

— Claro que não! — retruquei, rindo um pouco mais alto. — Mas a Isabela é... bem, a Isabela. Ela achou que seria ótimo me levar a um evento onde meu pai não pudesse intervir, entende?

Ele ficou em silêncio por alguns instantes, como se estivesse processando o que eu tinha dito.

— Bom, pelo menos você não vai precisar voltar lá de novo — ele murmurou.

Eu não sabia se deveria rir ou me sentir constrangida com a implicação nas palavras dele, mas, de alguma forma, isso só tornava o momento mais real, mais... nosso.

— Ok, certo, vamos esquecer esse momento vergonhoso da minha vida — declarei, com um sorriso, tentando aliviar a tensão. — Prometo a você que nunca mais vou voltar àquele lugar.

— Ainda bem — Miguel respondeu, com um tom firme, mas que carregava uma leveza incomum.

Decidi mudar de assunto. O ambiente ao nosso redor parecia tão calmo que não fazia sentido trazer o desconforto daquela noite até ali.

— E agora... você pode me mostrar como são as flores? — perguntei, tocando as pétalas da planta mais próxima, curiosa.

Ele hesitou por um momento, mas logo senti seus dedos envolverem os meus com firmeza.

— Tudo bem, vem comigo.

— Sabe, eu enxergava até os doze anos, então conheço rosas, margaridas, lírios... Mas imagino que essas aqui sejam diferentes — respondi, gesticulando em direção ao espaço ao nosso redor.

— São muito diferentes. Me dá sua mão — ele pediu, e eu deixei que ele a guiasse até uma planta próxima.

— Essa aqui é uma dália preta. As pétalas têm um toque encorpado, e a cor é tão escura que parece quase um veludo preto.

— Dália preta? — perguntei, intrigada. — Nunca ouvi falar.

— São raras. A dona do jardim coleciona espécies exóticas. Tem outra aqui... — Ele me guiou alguns passos à frente. — Essa é uma rosa do deserto. É diferente das rosas comuns; as pétalas são mais grossas e ela floresce em galhos retorcidos.

Toquei o caule da planta com cuidado, tentando criar a imagem na minha mente.

— Parece impressionante — murmurei.

— É, mas espera. Vou te levar até uma que realmente vai te surpreender.

Caminhamos mais um pouco, e ele parou diante de algo que parecia especial até pelo tom em sua voz.

— Essa aqui é uma flor-cadáver.

— Como é? — perguntei, rindo.

— É enorme e tem um cheiro bem... peculiar. Felizmente, essa não está florescendo agora, senão você provavelmente sairia correndo daqui.

Eu ri, imaginando a cena.

— Nunca pensei que você fosse bom em descrever flores, Miguel.

— Nem eu. Mas você faz perguntas curiosas.

Ficamos passeando pelo jardim, e ele continuava me guiando, descrevendo com precisão as formas, texturas e cores das flores mais raras. Às vezes, eu também contribuía, lembrando-me de detalhes das flores que conheci na infância.

— Essa parece uma margarida, mas é maior — observei ao tocar uma flor de pétalas largas.

— É uma gérbera. Parece com margaridas, mas é mais elegante — ele explicou.

O tempo passou sem que eu percebesse. A noite era fria, mas o calor da presença de Miguel, sua paciência e o cuidado em cada descrição tornavam tudo perfeito.

— Obrigada por isso — falei baixinho.

— Por isso o quê? — ele perguntou.

— Por me trazer aqui. Por me mostrar esse lugar de uma maneira que nem eu sabia que era possível.

— É só um jardim, Clara.

— Não, é muito mais que isso.

Ficamos ali, como se o mundo ao nosso redor tivesse desaparecido. Naquele momento, eu percebi que, de alguma forma, Miguel tinha me levado a um lugar onde nada mais importava além de nós dois.

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