— Senhora, isso não é uma questão de dinheiro. Nós temos medo de perder o emprego.
Por mais que eu batesse a cabeça no chão e implorasse, os médicos abriram meus dedos à força e foram embora.
Minha filha ficou sozinha sobre a mesa de cirurgia.
Faltava apenas meia hora para ela ganhar uma nova vida.
Agora, por causa do próprio pai biológico, Liora estava ali, com o peito aberto, à espera da morte.
Uma mensagem de Paula apareceu na tela.
Na foto, Tales tinha apenas algumas manchas vermelhas pelo corpo.
Mesmo assim, o quarto dele estava cercado por médicos por todos os lados.
Gustavo estava sentado junto à cama, dando a Tales o bolo de morango favorito da minha filha.
A mensagem de Paula chegou carregada de satisfação: [Júlia, você não estava fingindo ser generosa? Não dizia que queria dinheiro, não pessoas? Como é assistir à sua filha morrer diante dos seus olhos?]
[Se você não tivesse casado de novo com Gustavo, talvez eu ainda desse algum dinheiro a vocês, só para fazer uma boa ação pelo meu filho. Agora, culpe você mesma por ter se achado importante demais. Por causa de um casamento, por causa daquele título patético de esposa, você acabou tirando a vida da própria filha.]
Quase esmaguei o celular na mão.
O tempo passava, minuto a minuto, segundo a segundo.
Se a demora continuasse, quando o efeito da anestesia acabasse, minha filha morreria de dor.
Liguei para Gustavo uma vez após a outra.
Mas, em todas as tentativas, só ouvi a mesma mensagem automática dizendo que a chamada não podia ser completada.
Nenhuma ligação chegou a completar.
Ao ver a linha dos batimentos da minha filha ficar cada vez mais fraca, abri a câmera do celular, gravei um vídeo e bati a cabeça no chão diante da lente.
— Paula, eu entrego Gustavo para você. Por favor, deixa os médicos voltarem, está bem? Todo o dinheiro que ele transferiu para mim também vai para você!
— Assim que a cirurgia da minha filha terminar, eu prometo desaparecer para bem longe. Nunca mais vou incomodar a família de vocês três!
Assim que enviei o vídeo, o telefone de Gustavo voltou no segundo seguinte.
Mal atendi, e ele já começou a gritar do outro lado, furioso:
— Júlia! Eu só chamei dois médicos auxiliares. Que teatro é esse que você está fazendo aí? Para incriminar Paula, agora você nem liga mais para a vida da própria filha?
Paula chorava ao lado dele:
— Gustavo, a culpa é toda do Tales. Justo durante a cirurgia da Liora, ele teve alergia e impediu você de ficar ao lado da Júlia.
Gustavo pareceu entender tudo de repente.
— Júlia, você armou essa cena toda para quê? Para jogar na minha cara que eu ainda não paguei o meu aluguel? Acho melhor você nem ser mais minha esposa. Então casa com o dinheiro de uma vez!
Eu nem tive tempo de abrir a boca.
A ligação foi encerrada de forma abrupta.
Junto com a mensagem de transferência, começaram a surgir notícias por todos os lados.
[Júlia enlouquece por dinheiro: aluga o marido, negocia o túmulo e até põe preço na vida da própria filha!]
[Desumana! Mãe interrompe cirurgia de peito aberto da filha só para gravar vídeo, incriminar rival e extorquir dinheiro?]
Os comentários abaixo eram insuportáveis de ler:
[Como pode existir uma mãe tão cruel no mundo? Essa mulher não merece ser chamada de mãe!]
[Que monstro! Que azar essa menininha teve de nascer numa família dessas. Melhor nascer de novo logo. Que na próxima vida encontre uma mãe de verdade!]
No segundo seguinte, incontáveis ligações de assédio e mensagens de maldição invadiram meu celular.
Com as mãos trêmulas, recusei uma por uma, ansiosa a ponto de quase não conseguir segurar o aparelho.
Depois de muito esforço, consegui ligar para a emergência, tentando chamar médicos de outro hospital.
Mas a ambulância foi bloqueada pela multidão de repórteres que chegou para filmar.
Os flashes surgiam de todos os lados, um depois do outro, tão fortes que eu mal conseguia abrir os olhos.
Microfones vinham de todas as direções, quase enfiados no meu rosto.
— Sra. Júlia, é verdade que a senhora “alugou” o cirurgião responsável pela cirurgia da própria filha?
— Sua filha está entre a vida e a morte dentro da sala de cirurgia. Como a senhora consegue permanecer indiferente?
— Caso sua filha morra, o que a senhora pretende alugar em seguida?
Como eu não respondia, alguns repórteres carregaram câmeras e tentaram invadir a sala de cirurgia da minha filha para filmar.
— Saiam daqui! Saiam todos daqui!
Peguei um bisturi ao lado e comecei a balançar a lâmina como louca, apenas para abrir um caminho de sobrevivência para minha filha.
Ao ver cada vez mais gente avançando, respirei em golfadas, como um peixe fora d’água.
Eu queria esfaquear até a morte todos aqueles que bloqueavam a passagem.
Do outro lado, Gustavo começou a ficar estranhamente inquieto.
Ele abriu as notícias várias vezes, hesitante.
— Afinal, Liora ainda está em cirurgia. Será que eu fui longe demais?
Ao ver Tales cheio de energia na cama do hospital, Gustavo estava prestes a levantar e correr para a sala de cirurgia.
Mas Paula agarrou o braço dele de novo e fez Gustavo sentar.
— Se você for agora, não vai ser o mesmo que mostrar para Júlia que fazer escândalo funciona? Desta vez, ela vai sentir o gosto da vitória. Na próxima, vai usar o mesmo método para obrigar você a ceder. Quando chegar essa hora, todo mundo vai saber que você se casou com uma barraqueira.
— Além disso, tem tanta gente com Júlia. Nada vai acontecer com Liora. Pode ficar tranquilo.
Com aquelas palavras, a raiva de Gustavo subiu outra vez.
— Ela está cada vez mais absurda. Consegue fazer confusão até no momento crítico da cirurgia de Liora. Está mesmo na hora de aprender uma lição!
Depois disso, ele desligou o celular, decidido a não dar mais atenção a mim.
Gustavo não sabia que, quando finalmente lembrasse da filha e de mim e fosse verificar as câmeras de segurança, a cena dentro da sala de cirurgia faria ele cair de joelhos no chão...