Mundo ficciónIniciar sesiónA rotina na Fazenda Alvorada era uma engrenagem pesada, e eu estava aprendendo a me encaixar nela a duras penas. Nos dias seguintes ao nosso encontro nos estábulos, o convívio com os outros funcionários começou a mudar. No início, as cozinheiras e os guardas me olhavam com desconfiança, como se eu fosse uma intrusa da cidade grande tentando me aproveitar da situação da minha mãe para conseguir privilégios.
Mas o trabalho duro cura qualquer preconceito. Na lavanderia e na cozinha, eu não recusava serviço. Ajudava a carregar os cestos pesados e passava horas limpando as pratas ao lado de Marta, a cozinheira-chefe, uma mulher de braços fortes e poucas palavras. — Você tem a espinha firme para quem foi criada no cimento, menina — Marta comentou naquela tarde, me estendendo um pano limpo enquanto esfregávamos os talheres de luxo. — Mas abre o olho. O pessoal está comentando sobre suas idas e vindas da ala leste. O jovem mestre Julian é terra perigosa. Não se deixe queimar. — É só pelo potro, Marta. Eu só cuido do animal — menti, sentindo o peso da culpa e da mentira na minha garganta. — Que seja — Marta resmungou, limpando o suor da testa. — Conheço o Julian desde menino. Ele está quebrado, e homem quebrado costuma arrastar os outros para o fundo junto com ele. E o Silas anda perguntando sobre você pelos cantos. Fique esperta. Deixei a cozinha com aquelas palavras ecoando na mente. Eu achava que o jogo estava sob controle, que cada peça se movia exatamente como Julian e eu havíamos planejado nas nossas dez regras. Mas eu não contava com os passos em falso dele. Para aliviar a tensão e a carência que o esmagavam entre aquelas paredes frias por causa do luto e da pressão do primo, ele tomou uma decisão estúpida: marcou um encontro às escondidas, nos limites da propriedade, com uma das garotas da alta sociedade de Nova Alvorada que costumava frequentar as festas da fazenda. Ele achou que ninguém veria. Mas ele esqueceu que minha mãe conhecia cada palmo daquela terra. Quando entrei no quarto da casa de apoio à noite, encontrei minha mãe sentada na beira da cama. Ela não estava cantarolando como de costume. Seus olhos estavam caídos, cheios de uma decepção profunda que me fez congelar na porta. — Mãe? O que aconteceu? — perguntei, deixando o espanador de lado e me ajoelhando perto dela. — Sofia, minha filha... — Ela segurou minhas mãos, a voz embargada. — Eu vi o Julian agora há pouco. Perto do pomar velho. Ele estava com a filha do Dr. Arnaldo. Eles estavam... juntos, às escondidas. Meu estômago deu uma volta completa. Não por ciúmes — eu repetia a mim mesma que não sentia absolutamente nada por ele —, mas pelo contrato. Pelo risco. — O Julian sempre foi um rapaz que buscou afeto desde a morte dos pais, Sofia. Mas ver o jeito que ele agiu... e depois lembrar do jeito que ele olhou para você no pátio ontem... — Minha mãe limpou uma lágrima com o canto do avental. — Eu achei que ele estava mudando. Achei que o interesse dele por você era real, e eu estava com tanto medo de você se machucar, mas no fundo eu tinha uma pontinha de esperança de que ele fosse te fazer feliz. Mas ele é igual aos outros ricos. Usa as pessoas para preencher o vazio. Não se aproxime mais dele, minha filha. Por favor. A dor na voz de minha mãe se transformou em uma fúria cega dentro de mim. Julian estava quebrando a segunda regra: Fidelidade absoluta perante o público. Se a minha mãe o vira, Silas também poderia ter visto. Ele estava colocando todo o nosso futuro em risco por causa de um momento de fraqueza. No dia seguinte, esperei que a ala leste ficasse completamente deserta. Entrei na biblioteca como um furacão, batendo a porta atrás de mim com força. Julian estava sentado na escrivaninha, com um copo de uísque pela metade e papéis contábeis espalhados. Ele ergueu os olhos cinzentos, surpreso com a minha entrada. — Você é um idiota completo! — joguei as palavras na cara dele, aproximando-me da mesa. Julian franziu o cenho, a rigidez aristocrática voltando ao seu rosto. — Meça suas palavras, Sofia. Do que você está falando? — Da garota no pomar! — exclamei, baixando o tom de voz para um sussurro enfurecido para que ninguém nos corredores ouvisse. — Minha mãe viu você com a filha do médico ontem à noite. Você quebrou a regra, Julian! Fidelidade absoluta perante o público. Se a minha mãe te viu, qualquer um do serviço poderia ter visto. O Silas poderia ter visto! Julian travou o maxilar. Ele se levantou lentamente, a imponência física dele tentando me funcionar como uma barreira, mas eu não recuei um milímetro. — Foi um erro — ele disse, a voz rouca, sem dar desculpas falsas. — Eu precisava... sair da minha própria cabeça por uma hora. Silas está me sufocando. Eu não achei que haveria ninguém no pomar àquela hora. — Mas havia! A minha mãe estava lá! E agora ela está no quarto chorando, achando que você é um canalha que está me usando para depois me descartar. Ela está decepcionada com você, Julian. Com o menino que ela ajudou a criar! A menção à minha mãe fez algo mudar nos olhos dele. A armadura de gelo rachou por um instante, revelando uma culpa genuína que eu ainda não tinha visto naquele rosto prepotente. { POV Julian: Ouvir que a Elena está chorando por minha causa dói mais do que qualquer golpe do Silas. Ela não é apenas a governanta; ela foi a mulher que segurou minha mão quando minha mãe biológica viajava pela Europa. Elena me dava os doces escondidos, limpava meus joelhos ralados e me olhava com um amor puro que eu nunca mais encontrei em lugar nenhum. Eu a respeito mais do que a qualquer um nesta fazenda. Eu quebrei a regra do contrato com a Sofia, sim, mas quebrar o coração da Elena... isso me torna o monstro que eu jurei combater. Que inferno de impulsividade.} Julian desviou o olhar por um segundo, engolindo em seco antes de voltar a me encarar. O tom de voz dele mudou, perdendo toda a arrogância de herdeiro. — Eu não queria magoar a sua mãe, Sofia. Eu... eu tenho um respeito imenso por ela. Você não faz ideia do quanto ela significa para mim. — Então aja como o homem que ela acha que você é — retruquei, a raiva ainda vibrando no meu peito, embora a surpresa por ver o amolecimento dele tivesse me desarmado um pouco. — Nós temos um pacto. Se você não consegue controlar sua carência por dois anos, então nós vamos cair juntos. E a primeira coisa que o Silas vai fazer quando assumir tudo vai ser colocar a minha mãe na rua. É isso que você quer? — Não — Julian respondeu, a voz firme, os olhos cinzentos fixos nos meus com uma seriedade mortal. — Isso não vai acontecer de novo. Eu vou conversar com ela. Vou inventar uma desculpa, dizer que a garota me procurou para tratar de assuntos do pai dela e que eu estava apenas cortando relações. Vou fazê-la acreditar em mim de novo. — É bom que faça — falei, cruzando os braços e dando um passo para trás. — Lembre-se, Julian: para mim, você é apenas um contrato. Mas para ela, você ainda é o menino que ela protegeu. Não destrua a única coisa real que sobrou nessa casa. Virei as costas e saí da biblioteca, deixando-o sozinho com o peso de seus erros. O jogo estava ficando perigoso, e as linhas que dividiam o contrato, o respeito e o que começávamos a mascarar estavam se apagando rapidamente na escuridão da Fazenda Alvorada.






