O jogo nos estábulos

​Caminhei em direção aos estábulos sentindo o peso de cada passo. O balde de água que eu havia deixado na lavanderia parecia uma desculpa boba para o que eu estava prestes a fazer. Eu repetia para mim mesma, como um mantra, que aquilo era apenas um negócio. Eu não estava ali por causa de Julian Lancaster, dos seus olhos cinzentos ou do seu falso charme aristocrático. Eu estava ali pela faculdade de Veterinária, pela segurança da minha mãe e para pisar no orgulho do Silas.

​Eu não sentia absolutamente nada por ele além de uma leve irritação pela sua prepotência. O choque elétrico que senti quando ele tocou meu cabelo mais cedo? Pura adrenalina pelo medo de sermos pegos. Nada mais.

​O cheiro de feno, couro e alfafa me recebeu assim que cruzei o imenso arco de madeira do estábulo principal. Era um lugar limpo, muito diferente dos estábulos simples que eu já tinha visto em fotos. Ali, os cavalos tinham linhagem e custavam mais do que o apartamento onde vivi com meu pai.

​Ao fundo do corredor de baias, vi a silhueta de Julian. Ele havia tirado o casaco de montaria e estava apenas com as mangas da camisa escura dobradas até os cotovelos, revelando os braços fortes enquanto escovava a pelagem do mesmo cavalo negro de mais cedo.

​— Você demorou — ele disse, sem se virar. O som da escova contra o pelo do animal era ritmado.

​— Eu tenho um trabalho real para fazer, Julian. Minha mãe estranhou quando mudei de rota — respondi, parando a uma distância segura, cruzando os braços para manter a guarda alta. — Qual é o plano agora? O Silas não está aqui dentro para ver o seu show.

​Julian parou o movimento, pendurou a escova no suporte da baia e finalmente se virou para mim. Ele limpou as mãos em um pano e se aproximou.

​— Silas não está aqui dentro, mas o capataz dele está — Julian sussurrou, indicando com um leve aceno de cabeça a entrada do estábulo, por onde o funcionário de confiança do meu inimigo acabara de passar com um carrinho de ração. — Tudo o que acontece aqui dentro chega aos ouvidos do meu primo em trinta minutos. Portanto, guarde as garras, Sofia.

​Antes que eu pudesse retrucar, ele segurou minha mão direita. O toque foi firme. Eu quis puxar meus dedos de volta, lembrando da nossa regra de não haver contato físico sem consentimento, mas o olhar dele me congelou. Julian me puxou suavemente em direção à última baia do corredor.

​Ali, deitada no feno fresco, estava uma égua alazã e, ao lado dela, um potro de pernas longas e trêmulas, tentando se equilibrar.

​Esqueci o Julian. Esqueci o Silas. Esqueci o contrato.

​Um sorriso genuíno se abriu no meu rosto e eu me aproximei da grade, meus olhos brilhando. O pequeno animal tinha uma mancha branca na testa, em formato de estrela. Instintivamente, estendi a mão para que a mãe me cheirasse, demonstrando o respeito que meu pai sempre me ensinou a ter com os animais.

​— Ele é lindo... — sussurrei, a voz amolecida. — Tem apenas uma semana?

​— Seis dias, para ser exato — Julian disse. Ele estava parado logo atrás de mim, tão perto que eu podia sentir o calor do seu corpo bloquear o vento frio que entrava pelas frestas. — O veterinário da fazenda disse que ele nasceu com uma leve fraqueza nos tendões da pata traseira esquerda. Silas queria sacrificá-lo. Disse que um cavalo que não pode correr não serve para os Lancaster.

​O encanto que eu sentia quebrou-se instantaneamente, substituído por uma fúria cega. Virei-me para Julian de uma vez, ficando a milímetros do seu peito.

​— Ele é um monstro! — minha voz saiu inflamada. — É só um filhote! Uma massagem diária com pomada canforada e uma bandagem de suporte por duas semanas resolveriam isso. O tendão ainda está flexível, ele só precisa de tempo!

​Julian me encarou de cima. Não havia deboche em seu rosto, apenas uma observação silenciosa e profunda.

​— Eu sei — ele respondeu, a voz surpreendentemente mansa. — Por isso eu proibi o capataz de tocar nele. Disse que o potro era meu. E agora, é seu. Cuidar dele vai ser a sua desculpa para passar horas aqui na ala leste comigo.

​Fiquei sem fala. Olhei para o potro e depois para o herdeiro arrogante à minha frente. Eu queria odiá-lo por me usar como peça de xadrez, mas a atitude dele em salvar o animal entrava em total contradição com o homem frio que ele fingia ser. Ele não ligava para o cavalo, claro. Era tudo pelo contrato. Mas, ainda assim... ele o salvou.

​— Obrigada — murmurei, os olhos fixos nos dele.

​Julian deu um passo à frente, estreitando ainda mais o espaço entre nós. Ele ergueu a mão e tocou o meu queixo, forçando-me a inclinar a cabeça para cima. O gesto parecia totalmente calculado para o capataz que nos espiava de longe, mas os dedos dele estavam quentes, e a forma como o polegar dele roçou a minha pele fez minha respiração falhar. Não era fingimento na intensidade do olhar dele; havia algo ali que parecia escuro, denso e perigoso.

​— Não me agradeça, Sofia. Só cumpra a sua parte — ele sussurrou, a voz rouca, os olhos descendo por um segundo para os meus lábios antes de voltarem para os meus olhos.

{Pensamento do Julian: ​Ela fica tão irritante quando tenta bancar a profissional durona, mas quando olhou para aquele maldito potro, os olhos dela ganharam uma vida que eu nunca vi em nenhuma mulher de Nova Alvorada. A boca dela se abriu naquele sorriso e... por um segundo, eu esqueci o Silas. Esqueci o testamento. Eu só queria continuar olhando para ela. Que inferno. Eu preciso focar no dinheiro e no contrato. Ela é só a filha da governanta e isso é um negócio. Nada mais.}

​Eu recuei, quebrando o toque dele antes que meu coração, que já batia descompassado, me traísse.

​— Eu vou cuidar dele todos os dias após o meu turno na cozinha — falei, tentando recuperar a firmeza na voz, limpando a garganta. — E vou garantir que ele corra mais rápido do que qualquer cavalo que o Silas tenha orgulho de possuir.

​Julian deu um meio sorriso, aquele esguelha que já estava se tornando familiar. Ele pegou o casaco de montaria e o vestiu, voltando a ser o mestre da Fazenda Alvorada.

​— Ótimo. O capataz já viu o suficiente. Amanhã, o Silas vai questionar por que a filha da Elena está passando tanto tempo cuidando de um animal condenado no meu estábulo particular. E eu vou dizer a ele que você faz o que quer nesta ala.

​Ele caminhou em direção à saída sem olhar para trás, deixando-me ali, com o feno, o potro e a incômoda certeza de que, embora nenhum de nós dois admitisse, estávamos cruzando linhas que não estavam escritas no papel

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