O céu estava cinzento e pesado, e uma chuva começou a cair de repente.
O marido da Patrícia se ofereceu para vir buscá-la.
— Eu não disse para você não vir?
— Eu tinha que vir, não aguento a ideia de te deixar tomar chuva. Karina, vamos juntos, eu te deixo em casa primeiro.
Eu sorri e balancei a cabeça: — Vão na frente, vou ficar sentada mais um pouco.
Antigamente, eu sempre invejava o cuidado e a consideração genuínos entre os dois.
Por que Vicente e eu, sendo igualmente casados, sempre tínhamos uma parede invisível entre nós?
Por quê?
A resposta era muito simples: ele apenas não me amava o suficiente.
Mas eu me enganei por tanto tempo, achando que era da natureza dele não saber amar alguém.
Quando a chuva diminuiu um pouco, levantei-me e saí.
E foi então que vi um Audi familiar encostando lentamente na beira da rua.
A mulher no banco do passageiro usava um vestido longo bege, com o cabelo levemente ondulado e um ar gentil.
Vicente desceu do outro lado e caminhou nesta direção, parecendo que estava de passagem e queria comprar um café.
Ao me ver, sua expressão não mudou, apenas ergueu levemente a sobrancelha.
Ele provavelmente achou que eu tomaria a iniciativa de cumprimentá-lo, mas eu apenas abaixei a cabeça, olhando no celular as informações do carro de aplicativo que havia chamado.
Talvez por estar distraída, acabei pisando em falso no degrau e torci o pé.
Vicente lançou-me outro olhar indiferente, franziu a testa e não disse nada.
Ele entrou na cafeteria e não me deu atenção.
Suportei a dor no tornozelo e continuei esperando o carro na beira da rua.
Pouco depois, Vicente saiu carregando dois copos de café para viagem.
— Vamos. Não era isso que você queria, que eu te levasse?
Seu tom de voz continha uma impaciência fria.
— ...Eu não queria.
Vicente, sem paciência para discutir, simplesmente me puxou para dentro do carro.
E então me entregou um dos copos.
Eu não peguei, e ele o deixou de lado casualmente.
Todo o trajeto foi em silêncio.
A atmosfera dentro do carro estava pesada.
Samara de repente colocou a mão na testa e disse:
— Vicente, acho que minha pressão caiu um pouco, você tem algum doce aí?
Vicente pegou naturalmente um chocolate no porta-luvas e o entregou a ela.
— Quantas vezes eu já te avisei antes, e você nunca aprende.
Samara pegou, dando um leve sorriso:
— Quando fico ocupada, acabo esquecendo. Ainda bem que você está aqui.
Eles aproveitaram para conversar sobre várias coisas do passado, desde pessoas que conheciam em comum até coisas que viveram juntos.
Nas palavras deles, havia uma sintonia que dispensava explicações.
E eu estava sentada no banco de trás, como uma ouvinte deslocada.
A paisagem do lado de fora da janela do carro passava voando para trás.
Ao passarmos pelo parque central, a enorme roda-gigante girava lentamente.
O meu primeiro encontro com Vicente tinha sido ali.
Diz a lenda que os casais que se beijam ao chegarem ao ponto mais alto serão felizes pelo resto da vida.
Naquela época, eu o beijei de surpresa.
Ele ficou me olhando perplexo por um bom tempo.
Eu achava que essa era uma das nossas poucas e raras lembranças doces em comum.
Mais tarde, descobri que o maior arrependimento de Vicente foi não ter conseguido levar Samara para andar naquela roda-gigante.
Muitos fragmentos do passado passaram pela minha mente atordoada.
A maioria era feita das minhas expectativas unilaterais e da indiferença dele.
Fechei os olhos e adormeci.
Quando abri os olhos novamente, o carro já estava estacionado na frente do nosso prédio.
Samara havia descido em algum momento.
Vicente soltou o cinto de segurança, virou-se para olhar o meu tornozelo inchado, com a testa franzida.
— Karina. — Sua voz soou grave: — Tem que ser assim?
Levantei os olhos, sem entender.
— Se você queria que eu te buscasse, poderia ter dito diretamente. Precisava usar esse método estúpido para chamar a minha atenção?
Seu tom era calmo, mas revelava uma irritação imperceptível.
Eu não sabia do que ele estava irritado.
Talvez estivesse me culpando por ter atrapalhado o seu momento a sós com Samara.
— Vicente, você está imaginando coisas. Eu não pedi para você me dar carona.
Ele provavelmente achou que eu estava me fazendo de difícil e deu uma risada de escárnio:
— Ah, é? E nesse estado, você planejava voltar rastejando?
— Eu poderia ter pegado um táxi. — Eu olhei para ele. — Vicente, eu não sou incapaz de viver sem você. Antes eu ficava no seu pé e grudada em você porque eu te amava, mas isso não significa que eu seria uma inútil se te deixasse.
— Deixar? Karina, tenha a coragem de me deixar e vamos ver se eu vou voltar para te implorar.
O olhar do homem escureceu novamente.
Eu também não tinha a menor vontade de gastar mais saliva com ele.
De qualquer forma, quando o acordo de divórcio chegasse às mãos dele.
Ele saberia que, dessa vez, eu não estava fazendo drama, e sim falando sério.