— Já chega, pare de fazer drama.
Vicente franziu a testa, um pouco impaciente.
— Seja compreensiva. Quando o projeto acabar no final do ano, vou arranjar um tempo para te levar a Hokkaido para ver a neve, tá bom?
Como eu não reagi por um bom tempo.
Vicente repuxou o canto da boca, com seu habitual tom displicente, e bateu levemente com a ponta do dedo na minha testa.
— Dessa vez não estou te enganando, é verdade.
Tive vontade de rir.
Dessa vez não está me enganando.
Então ele também sabia que havia me enganado muitas vezes antes.
A viagem a Hokkaido para ver a neve, que ele já havia prometido há muito tempo, foi adiada ano após ano.
Quando combinávamos de ir ao cinema, era sempre eu quem ficava sozinha na porta, esperando em silêncio até o filme começar.
Ele disse que viria me buscar, mas mesmo depois de eu ficar encharcada por uma tempestade, não o vi.
As coisas que ele me prometia, Vicente sempre falhava em cumprir.
Então, ao dizer isso agora, ele surpreendentemente achava que era uma bênção para mim, uma recompensa.
— Não precisa. — Respirei fundo e repeti com firmeza: — Vicente, eu quero o divórcio.
Dessa vez, o olhar do homem esfriou, e ele perdeu completamente a paciência.
— Karina, você é simplesmente irracional.
— Não vamos mais a Hokkaido, eu já te dei uma chance.
— Depois não venha chorar para mim, dizendo que não cumpri o que te prometi.
Depois de dizer isso, ele pegou o casaco no sofá, virou-se e saiu.
Saiu sem sequer tocar no jantar que eu havia preparado cuidadosamente ao gosto dele.
Eu também fiquei em silêncio.
Pela primeira vez, eu não o impedi de ir como no passado, nem sequer implorei para que ficasse mais um minuto.
Vicente chegou à porta, parou por um instante e olhou para trás, para mim.
Eu já havia me sentado por conta própria e começado a comer em silêncio.
Ele bateu a porta.
Como se estivesse descontando alguma raiva.
Meu coração já não doía mais, restava apenas uma imensa desolação.
Antes, eu sempre achava que um homem tão inalcançável como Vicente nunca teria contato com a vida de pessoas comuns.
Mas, no fim das contas, ele também sabia cozinhar para a garota que amava.
Apenas para receber um elogio dela.
Os cortes e as bolhas de queimadura em suas mãos pareciam ter se tornado as medalhas do seu amor.
Ele também já havia dito palavras de amor tão infantis:
[Cozinhar para a pessoa que você gosta realmente traz uma sensação de muita felicidade.]
[Vou cozinhar para Samara a vida inteira e engordá-la, assim ninguém vai roubá-la de mim.]
Ler aquele histórico de mensagens me fez perceber claramente, pela primeira vez, o quanto eu parecia uma piada.
No dia seguinte, marquei de encontrar minha melhor amiga e advogada, Patrícia, em uma cafeteria, para pedir que ela redigisse um acordo de divórcio para mim.
— O que aconteceu com vocês dois? Dessa vez a briga foi tão grave assim?
Patrícia tinha o rosto cheio de surpresa.
Ela sabia melhor do que ninguém o quanto eu amava Vicente.
No passado, toda vez que tínhamos um conflito, no máximo ficávamos um tempo sem nos falar.
— Eu estou realmente cansada.
Olhei para o trânsito intenso lá fora: — Sabe de uma coisa, ela voltou para o país.
Apenas com o pronome "ela", Patrícia já entendeu.
Era Samara.
O inesquecível primeiro amor de Vicente.
Esse nome era como uma agulha fina, espetada no meu coração.
Não tirava sangue, mas de vez em quando me causava uma pontada de dor.
Eu nunca a tinha visto pessoalmente, mas a existência dela me afetou por exatos cinco anos.
Vicente dizia que o espaço pessoal era muito importante, mas ele e Samara já haviam compartilhado uma conta de música.
Vicente não gostava de expor sua vida, mas suas antigas redes sociais estavam cheias de rastros daquela garota.
A exposição de arte que ele me levou para ver era do pintor favorito de Samara.
Ele achava perda de tempo me acompanhar nas compras, mas já havia acompanhado ela por todos os mercados de antiguidades da cidade.
Mesmo depois de dois anos de namoro comigo e três de casamento, Vicente nunca a tirou de verdade do fundo do coração.
E eu era mais como uma companhia para a sua fase de solteiro, um hábito.
E também uma segunda opção.
— Certo, deixe o acordo de divórcio comigo, não vou deixar você sair perdendo de jeito nenhum!
Patrícia disse preocupada: — Mas, Karina, você realmente tomou essa decisão?
— Eu já tinha dito, esse homem não serve para você, ele ainda tem outra mulher no coração. Ficar com ele é se sujeitar a muito sofrimento.
— Mas você, num momento de impulso, se afundou nisso e não quis ouvir nenhum conselho.
Baixei os olhos e mexi o café na minha xícara.
— Tem certas lições que a gente só aprende depois de sofrer na própria pele.