Abri a porta do carro e tentei descer sozinha.
Mas ele desceu primeiro e me pegou no colo sem dizer nada. Seus movimentos não foram gentis, mas também não me deixaram cair.
Depois de entrar em casa, ele pegou a caixa de primeiros socorros e borrifou o remédio em mim com uma técnica desajeitada, mantendo a expressão fria.
— Não faça mais isso da próxima vez.
Fiquei em silêncio, observando-o fazer tudo aquilo.
Vicente sempre agia assim: vivia nesse morde e assopra que me desgastava emocionalmente.
Será que ele tinha um pingo de sinceridade por mim?
Ficar quebrando a cabeça para saber se a outra pessoa te ama ou não é muito idiota, mas eu fui idiota assim por cinco anos.
Já era hora de acordar.
Com preguiça de tentar adivinhar o que ele estava pensando, apenas disse um "obrigada" casual.
Vicente continuou parado na frente do sofá, sem se mover.
— Tem mais alguma coisa?
Vicente apertou os lábios: — Você não tem nada para me perguntar?
Eu balancei a cabeça calmamente.
Na verdade, eu tinha visto a rede social de Samara.
Ontem ela postou no Instagram uma foto do pouso do avião.
A legenda era [Esperando por você.]
Eu vasculhei a seção de comentários e não vi nenhum rastro de curtida ou mensagem de Vicente.
Mas eu sabia que ele com certeza iria.
E foi exatamente o que aconteceu.
— Estou muito cansada, quero dormir. — Levantei-me: — Vou dormir no quarto de hóspedes esta noite.
Vicente segurou meu pulso.
— Karina!
De forma inédita, ele tomou a iniciativa de se explicar: — Eu e Samara não somos o que você está pensando. Dessa vez eu fui buscá-la porque ela acabou de voltar para o país e não conhece bem a região, só fui dar uma ajuda.
Fiz um som de concordância: — É o certo.
Vicente examinou meu rosto, como se quisesse encontrar algum vestígio de que eu estivesse dizendo algo da boca para fora.
— Karina, ela e eu terminamos faz tempo. Agora somos apenas amigos comuns.
Assenti sem interesse: — Entendi.
Vicente me puxou para os seus braços, em uma rara iniciativa de querer me beijar.
A temperatura corporal ardente passou pelo tecido da roupa, era o calor que eu mais desejava no passado.
Ele sabia que eu gostava de contato íntimo e achava que um beijo seria o suficiente para me acalmar.
Mas eu virei o rosto e desviei.
Vicente claramente ficou surpreso.
Totalmente sem esperar que eu recusasse.
Seu rosto ficou com uma expressão um pouco desagradável.
— Karina, a minha paciência também tem limites. É melhor você não passar do ponto.
Naquela noite dormimos em quartos separados. Vicente deixou o quarto principal para mim e foi para o quarto de hóspedes.
Ao acordar no dia seguinte, a casa estava silenciosa, ele havia saído primeiro.
Com uma expressão natural, fui para a empresa e entreguei minha carta de demissão.
Já que eu ia embora, eu iria de uma vez por todas.
Eu só estava naquela empresa por causa de Vicente, para poder trabalhar com ele e ter mais tempo juntos.
Mas, na empresa, ele escondia o nosso casamento, dizendo que não pegava bem.
E não só isso, ele também mantinha distância de mim de propósito.
Quando precisava de um subordinado para acompanhá-lo em viagens de negócios, ele nunca me escolhia.
Durante as reuniões, ele me tratava como se eu fosse invisível.
Mesmo que eu concluísse um grande projeto sozinha, nunca recebia um elogio dele.
Com essa atitude fria, todos os colegas achavam que Vicente tinha algum preconceito contra mim.
Ou que eu o tinha ofendido em particular.
O RH era um dos poucos na empresa que sabia da minha relação com Vicente.
— Você vai embora? O Sr. Vicente não disse que ia apenas te rebaixar de cargo? Ele não falou nada sobre você se demitir...
Fiquei perplexa.
— Rebaixar de cargo?
O RH assentiu, com um olhar cheio de pena para mim.
— O seu cargo foi ocupado por uma pessoa que acabou de voltar do exterior. Foi uma ordem específica do Sr. Vicente.
Senti um frio vindo do fundo do meu coração.
Ouvi a minha própria voz trêmula:
— O nome dela é Samara?
— Isso, é esse nome.
Eu mal conseguia me manter em pé e me apoiei na mesa.
Mesmo já estando de saída, ouvir aquela notícia ainda me deu uma sensação de derrota capaz de abalar o mundo.
Na empresa, Vicente nunca havia me dado nenhum privilégio.
Eu tinha chegado ao cargo de diretora passo a passo, confiando na minha própria capacidade.
Ele simplesmente o deu a ela, assim, sem mais nem menos.