Acordo de Honra 2
Acordo de Honra 2
Por: QiShuang
01

(Siegfried)

Eu sabia que estava fodido antes mesmo de tirar o gelo da barba batendo a mão com as luvas no rosto. Maldita seja, Dallas! Cruzei a estrada como um louco tentando alcançá-la, porém, quando visualizei o 4x4, o veículo já estava estacionado do outro lado da rua de asfalto molhado diante da casa de paredes vermelhas, onde no porão eu havia escondido aquela putinha.

Sentado na moto puxo o capacete e encaro Dallas subindo as escadas laterais da casa. Ela está segurando no corpo magro e pequeno de Jordan como se ela fosse seu maldito troféu e com a mochila velha dela em uma das mãos. A garota se cobre com a jaqueta felpuda com animal print de leopardo e os cabelos ruivos balançam atingidos pelo vento.

— Dallas… — Desço da moto soltando o capacete.

— Cale a boca, não quero ouvir o som da sua voz. — Cospe sua raiva toda para cima de mim, passando reto. — Vamos de carro, deixe a moto para pensarem que tem gente com ela. — Exige.

Resfolego, incapaz de dizer qualquer coisa naquele momento, meu coração bate acelerado, com dor, uma dor que eu nunca senti. Eu acho que esse é o pior tipo de coisa que alguém pode sentir: perceber o quanto decepcionou alguém com quem se importa.

Contorno o carro e abro a porta me sentando no volante. Dallas abre a porta para Jordan, atirando primeiro a mochila e depois fazendo a garota entrar. Ela fecha a porta e abre a da frente, se sentando. Pelo espelho eu encaro os olhos verdes de Jordan, ela mordisca as unhas postiças, nervosa.

— Para onde? — Dou ignição no motor.

— Para o chalé.

— Não vou levar essa menina para meu lugar secreto, nunca!

— Faça o que estou mandando. — Dallas me encara seca e range os dentes.

— Caralho. — É meu único protesto, saio da vaga com destino traçado.

Por um momento seguimos em silêncio, apenas o som dos pneus do carro no asfalto enquanto uma fina neve começa a cair e o sol fica encoberto pela névoa. Minha garganta parece seca, mas não consigo dizer nada.

O silêncio é opressor, mas piora quando percebo Jordan chorando no banco detrás, se encolhendo e escondendo o rosto com o capuz da jaqueta, disfarçando. Dallas também não diz nada, evitando inclusive olhar para mim.

Tento segurar sua mão, mas ela puxa e cruza os braços, virando o rosto para a janela, por onde fica olhando até chegarmos no ponto da estrada onde fica o chalé viking que estou construindo.

 

 

Abro a porta de madeira rústica com um empurrão. Dallas atira a mochila de Jordan para dentro antes de entrar. Jordan hesita, como se o fato de entrar ali fosse para ser assassinada.

— O que é? — Dallas pergunta, percebendo que ela travou na porta, com as duas mãos pequenas e brancas no batente.

— É que parece um galpão… Como o que nos levavam.

— Apenas entra, Jordan. — Ela a empurra sem paciência. — Vai anoitecer e a floresta é muito fria.

— Vou pegar um pouco de lenha para a lareira. — Aviso.

Contorno a casa semi-enterrada pulando raízes até um cubículo lateral onde deixo um pouco de lenha já cortada. Quando venho para o chalé descansar gosto de passar o fim de semana e costumo vir a noite, horário que não dá para fazer nada por causa da escuridão, então mantenho sempre lenha cortada.

Junto a madeira com as mãos em meu braço, pensando como o fogo poderia ser uma melhor opção do que encarar a ira de Dallas. Volto para o chalé e fecho rapidamente a porta atrás de mim. Jordan já está sentada em uma das camas e Dallas se senta ao lado dela, suspirando forte.

— Vamos, me conte. — Minha esposa desliza a mão na perna dela com carinho preocupado. Simplesmente odeio esse momento com todas as minhas forças. Viro as costas, enfiando as madeiras na pequena lareira no meio da sala, para esquentar a casa. — Como foi que você saiu do Canadá e parou aqui nesse inferno? Soube que estava em um bordel… Isso não é você, Jordan.

O tom de voz de Dallas é permissivo, de um jeito que está se segurando para não surtar. Claro, eu acho que no lugar dela eu também surtaria, quer dizer. Não é que torna as coisas menos estressantes no momento. Fecho a portinhola de metal, limpo as mãos e vou para perto delas.

— Disseram que iam me agenciar em Paris, que era um esquema que eles tinham com o departamento de imigração se fosse de barco. — A ruivinha explica com a voz um pouco trêmula, segurando as mãos juntas por entre as pernas, nitidamente nervosa. — Eu lembro de entrar no carro que foi me pegar na esquina de casa, eu estava chorando, tinha brigado com meu pai para variar e… Sei lá, me deram algo para beber. Quando acordei, já estava naquele muquifo do bordel, sem passaporte e com as outras garotas.

— É o esquema de tráfico. — Explico. Dallas ergue os olhos para mim de um jeito que seu olhar parece soltar lasers mortais em cima de mim. — Sem passaporte ficam vulneráveis, não há embaixadas por aqui, a maioria fica em outros países aliados.

— Se Karvel mandou buscar você, vou cortá-lo em mil pedacinhos. — Dallas range os dentes.

— Wow, calma aí, não pode acusá-lo. — Digo. Ela estreita os olhos castanhos com fúria na minha direção comos e fosse ofensa ou eu estivesse defendendo-o. — Acredite em mim, queria enforcá-lo, mas sem provas...

— Karvel? O Sr. Olafsson? — Jordan transita os olhos de mim para Dallas, que vira o rosto para encará-la. — Foi o agente que me contratou!

— Que piada mais fodida. —  Resfolego.

— Isso não é uma piada, Sieg! — Dallas esbraveja irada. Seus cabelos se soltam do rabo de cavalo, caindo algumas mechas para frente. Eu nunca a vi tão alterada dessa forma! Dallas é quem normalmente segura bem os sentimentos. Ela passa as mãos pelos cabelos castanhos contendo-os, acertando-os para trás. — Oh, pelos Deuses. — Desliza a mão no rosto, cobrindo a boca.

— Dallas… — Coloco a mão no seu ombro, apertando.

— Não me toque! — Ela se debate, até que eu a solte. Coloco minhas mãos para dentro dos bolsos da jaqueta. Por que ele não me deixa segurá-la? Essa recusa machuca, como se ele tivesse repulsa do meu toque agora. Dallas segura nas mãos de Jordan, envolvendo-as com as suas. — Jordan, oh, droga, como isso foi acontecer?

— Que drama. — Reviro os olhos, mas na verdade, eu estou com ciúmes. Pronto, admito!

— Cale a boca, Siegfried, você não consegue ver o tamanho do problema? — Dallas ralha irada, a voz inflamada. — Karvel armou para trazer Jordan como clandestina e para que ela se metesse em confusão. Você seria seu algoz se não tivesse… Espere. — Ela solta as mãos de Jordan de repente e fica em pé, nos dando as costas, ponderando tudo e compreendendo o que infernos estava acontecendo. — Você estava tendo um caso com Jordan?

— Eu não sabia que ele era casado! — Jordan se defende, fodendo tudo. Dallas gira encarando-a. — Eu juro. Não me disseram, ele nunca falou, também.

— Não falei mesmo. Ia falar pra quê? Para essa putinha exigir ver você? — Grito revoltado. — E eu não estava tendo um caso. Transamos uma vez porque você fica regulando, mas a vadia é totalmente descartável.

— Não fale assim dela! — Dallas vira me encarando, irada, eu acho até que vou levar um soco, mas ela se contém, resfolega, coloca as mãos na cintura por dentro da jaqueta. — Então você sabia que eu conhecia Jordan?

— O destino é um cárcere às vezes não é? — Deslizo a mão pela barba, coçando o queixo. Os dois ficam calados na minha frente. — Eu disse a você que tinha um detetive na sua cola. É claro que Jordan está diferente com essa peruca ruiva…

— Meu cabelo foi pintado, não é peruca. — Protesta como se eu tivesse ofendido seu cabelereiro.

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