Às seis e quinze da manhã, Helena Montenegro já estava diante das portas de vidro da empresa que carregava o nome de sua família.
Por alguns segundos, permaneceu parada, observando o reflexo no vidro.
A mulher que via ali parecia diferente da jovem que, anos atrás, entrava naquele mesmo prédio acompanhando o pai, cheia de sonhos e planos para o futuro.
Agora, ela carregava olheiras de noites mal dormidas, uma pasta cheia de documentos e uma responsabilidade que parecia grande demais até para os seus próprios ombros.
A Montenegro Alimentos não era apenas uma empresa.
Era a história da sua família.
Era o sonho de Augusto Montenegro, seu pai.
E agora estava em suas mãos.
Helena respirou fundo antes de entrar.
— Bom dia, senhorita Helena.
A voz de Dona Célia, a recepcionista, fez com que ela sorrisse.
— Bom dia, Célia.
A senhora de cabelos grisalhos sorriu, mas Helena percebeu imediatamente que havia preocupação em seus olhos.
— O senhor Ricardo está esperando na sua sala.
Helena segurou a alça da bolsa com mais força.
— Ele disse o motivo?
Dona Célia hesitou.
— Apenas pediu que a senhora fosse assim que chegasse.
A resposta foi suficiente.
Nos últimos meses, todas as conversas que começavam daquela forma terminavam com más notícias.
Helena seguiu pelo corredor.
Cada passo trazia uma lembrança.
A antiga sala de reuniões onde seu pai comemorava novos contratos.
O corredor onde ela corria quando era criança.
A fábrica que ele mostrava com orgulho, dizendo que cada funcionário fazia parte da família Montenegro.
Ela parou diante da fotografia pendurada na parede.
Augusto Montenegro sorria ao lado dos primeiros funcionários da empresa.
Ele sempre dizia a mesma coisa:
"Uma empresa não é construída por máquinas. É construída pelas pessoas que acreditam nela."
Helena fechou os olhos por um instante.
— Eu estou tentando, pai.
Sua voz saiu baixa.
— Eu prometi que cuidaria disso.
Ela continuou até sua sala.
Ricardo, diretor financeiro da empresa, levantou-se assim que ela entrou.
Pelo rosto dele, Helena já sabia.
As notícias seriam ruins.
— Bom dia, Helena.
— Bom dia, Ricardo. O que aconteceu?
Ele colocou uma pasta sobre a mesa.
— Recebemos uma nova notificação do banco.
Ela abriu os documentos.
Seus olhos correram rapidamente pelas páginas.
Cobranças.
Juros.
Prazos.
Cada número parecia uma ameaça.
— Eles anteciparam a cobrança?
Ricardo assentiu.
— Sim.
Helena respirou lentamente.
— Mas tínhamos um acordo.
— O acordo mudou depois da perda dos últimos contratos.
Ela ficou em silêncio.
A Rede Prime.
O maior cliente da empresa.
A perda daquele contrato havia sido um golpe difícil de recuperar.
— Quanto tempo temos?
Ricardo demorou alguns segundos para responder.
— Duas semanas.
A palavra ficou presa no ar.
Duas semanas.
Helena encarou os documentos.
Quarenta anos de história reduzidos a um prazo.
— E se conseguirmos novos investidores?
— Precisaríamos de alguém disposto a assumir uma dívida alta e acreditar em uma recuperação que muitos consideram improvável.
Ela sabia o que aquilo significava.
O mercado já tinha decidido que a Montenegro estava perdendo a batalha.
Mas Helena não aceitava perder.
Não ainda.
— Existe alguma outra alternativa?
Ricardo ficou em silêncio.
E aquele silêncio respondeu antes mesmo das palavras.
— Talvez uma.
Helena levantou o olhar.
— Qual?
Ele hesitou.
— Existe um grupo interessado em comprar parte da empresa.
Ela franziu a testa.
— Comprar?
— Sim.
— Não.
A resposta saiu imediatamente.
Ricardo suspirou.
— Helena...
— Meu pai passou a vida construindo isso. Eu não vou entregar tudo para alguém que só enxerga números.
Ela levantou-se.
A emoção começava a tomar conta, mas ela não deixaria aparecer.
— Nós vamos encontrar outra solução.
Ricardo observou a determinação dela.
Era exatamente por isso que todos ainda acreditavam nela.
Helena podia estar cansada.
Podia estar com medo.
Mas nunca desistia.
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Naquela noite, a empresa estava quase vazia quando Helena finalmente saiu.
As luzes dos corredores estavam apagadas em alguns setores.
Ela caminhou sozinha até a sala do pai.
Ainda mantinha a chave daquela sala.
Como se uma parte dela esperasse que ele aparecesse a qualquer momento, sentasse atrás da mesa e dissesse que tudo ficaria bem.
Sentou-se na cadeira dele.
Sobre a mesa havia uma pequena caixa de madeira.
Ela abriu.
Dentro estavam algumas lembranças.
Uma caneta antiga.
Uma fotografia dos dois.
E uma carta que ele havia deixado para ela antes de morrer.
Helena já havia lido aquela carta centenas de vezes.
Mas naquela noite precisava ler novamente.
"Helena, nunca confunda dificuldade com derrota. Algumas batalhas parecem impossíveis porque exigem coragem antes de exigirem força."
Ela segurou o papel contra o peito.
As lágrimas finalmente caíram.
Ela podia ser forte.
Podia lutar.
Mas também era humana.
E estava cansada de carregar tudo sozinha.
O celular vibrou sobre a mesa.
Helena enxugou rapidamente o rosto antes de atender.
— Alô?
— Senhorita Montenegro?
A voz masculina era desconhecida.
— Sim.
— Meu nome é Marcelo Ferraz. Sou representante da Valenti Corporation.
O nome chamou sua atenção.
Valenti Corporation.
Um dos maiores grupos empresariais do país.
— Como posso ajudar?
Houve uma pequena pausa.
— O senhor Dante Valenti gostaria de marcar uma reunião com a senhora.
Helena franziu a testa.
Dante Valenti.
Ela conhecia o nome.
Todo mundo conhecia.
Um homem conhecido por sua inteligência, seu império e sua frieza nos negócios.
— Sobre o quê seria essa reunião?
— Isso ele explicará pessoalmente.
Helena olhou novamente para a fotografia do pai.
Não sabia por quê, mas sentiu que aquela ligação não era coincidência.
— Quando?
— Amanhã, às nove horas.
Ela ficou em silêncio.
Uma parte dela dizia para recusar.
Outra dizia que talvez aquela fosse a oportunidade que estava procurando.
Depois de alguns segundos, respondeu:
— Estarei lá.
Ao desligar, Helena permaneceu olhando para o telefone.
Ela ainda não sabia que aquele encontro mudaria completamente sua vida.
Não sabia que Dante Valenti não estava oferecendo apenas uma solução para a empresa.
Ele estava prestes a propor um acordo que colocaria seu mundo inteiro de cabeça para baixo.