Mundo ficciónIniciar sesiónOs dias seguintes àquela noite não trouxeram mudanças visíveis na mansão Castelli.
Tudo continuava impecavelmente organizado, silencioso e distante, como se nada tivesse acontecido. Mas dentro de Aurora, algo havia mudado de forma irreversível. Ela já não esperava por passos no corredor. Já não se assustava com o som da porta principal abrindo tarde da noite. E, principalmente, já não criava expectativas. Pela primeira vez em três anos de casamento, ela começou a observar Dante com outros olhos — não os de alguém que espera ser amada, mas os de alguém que finalmente está acordando de um sonho que nunca existiu. E o que via… doía. --- Naquela manhã, Aurora desceu até a cozinha mais cedo do que o habitual. O aroma de café fresco já preenchia o ambiente quando encontrou a governanta organizando a mesa do café da manhã. Dante estava sentado, como sempre impecável, lendo algumas páginas de um relatório enquanto tomava café preto. Ao seu lado, um celular vibrava sem parar. Aurora hesitou por um segundo antes de se aproximar. — Bom dia — disse com calma. Dante não levantou os olhos. — Bom dia. A resposta foi automática. Sem calor. Sem atenção. Ela sentou-se à mesa, tentando ignorar o aperto no peito que ainda surgia, mesmo depois de tudo o que havia entendido. Foi então que o celular dele vibrou novamente. Dante olhou a tela. E, naquele instante, algo mudou em seu rosto. A rigidez habitual suavizou. Os olhos escurecidos ganharam uma expressão quase… viva. Ele desbloqueou o aparelho e respondeu imediatamente. Aurora não precisou ver o nome para saber quem era. Valentina. — Hoje à noite vou sair — disse ele, ainda olhando para o celular. — De novo com ela? — a pergunta escapou antes que pudesse se conter. Dante finalmente ergueu os olhos. Não havia surpresa. Nem irritação. Apenas frieza. — Isso não te diz respeito. A frase caiu como uma lâmina silenciosa. Aurora sentiu o ar faltar por um instante. — Somos casados — respondeu, mais baixo. Dante fechou o celular e o colocou sobre a mesa com calma. — Casamento não significa posse, Aurora. Ela desviou o olhar. — Eu não quis dizer isso. — Não importa o que você quis dizer. O tom dele era firme, cortante. — Você continua confundindo as coisas. Aurora respirou fundo, tentando manter o controle. — Eu só achei que… — Esse é o problema — interrompeu ele, seco. — Você acha demais. O silêncio que seguiu foi pesado. Aurora baixou os olhos para a xícara de café, sem conseguir responder. Dante se levantou logo em seguida. — Não me espere hoje. E saiu. Sem olhar para trás. --- Horas depois, Aurora já não conseguia permanecer dentro da mansão. O silêncio ali dentro parecia crescer com o passar do dia, como se as paredes absorvessem qualquer tentativa de fuga emocional. Vestiu algo simples e saiu. Pela primeira vez, pediu ao motorista que a deixasse na cidade, sem destino específico. Ela só precisava respirar fora daquelas paredes. E, de alguma forma, acabou parando em um café pequeno no centro. Foi ali que conheceu Helena. Helena não era como as pessoas da alta sociedade. Não falava baixo demais, não escolhia palavras com cuidado excessivo, não fingia gentileza. Ela era direta. Viva. Real. — Você parece alguém que está fugindo de alguma coisa — disse Helena, após alguns minutos de conversa casual. Aurora quase sorriu. Quase. — Talvez eu esteja. Helena a observou com curiosidade, apoiando o queixo na mão. — Problemas de amor? Aurora hesitou. — Algo assim. — O tipo que não te vê? Aurora não respondeu. Mas o silêncio foi suficiente. Helena suspirou. — Homens assim são sempre iguais. Eles não mudam. Só te fazem perder tempo tentando mudar eles. A frase ficou ecoando na mente de Aurora. --- Quando voltou à mansão, já era noite. E Dante estava na sala. Valentina não estava. Mas o clima ainda parecia carregado dela. Ele a observou entrar. — Onde estava? Aurora largou a bolsa sobre a mesa. — Saí. — Sem avisar. Ela respirou fundo. — Eu não sabia que precisava de permissão. Dante fechou o livro que segurava. E então a olhou de verdade. — Não distorça as coisas. A voz dele era baixa, mas cortante. — Você vive nessa casa como se tivesse algum tipo de importância aqui. Aurora congelou. O impacto da frase foi imediato. Dante continuou, frio como sempre: — Você não está presa. Não está sendo impedida de nada. Esse casamento é um acordo. Nada mais. Ela engoliu em seco. — Então é isso que eu sou pra você? Ele não hesitou. — Sim. A resposta foi simples. Direta. Definitiva. Aurora sentiu algo dentro dela quebrar de vez. Mas não chorou. Dessa vez, não. Apenas assentiu lentamente. — Entendi. E subiu as escadas. Dante permaneceu onde estava, sem mudar a expressão. Sem perceber que, pela primeira vez, não tinha vencido uma discussão. Tinha apenas empurrado ela um pouco mais para longe. --- Naquela noite, Aurora não dormiu. Sentou-se na estufa da mansão em silêncio, observando as flores que cuidava como se fossem pequenas partes dela mesma. E pela primeira vez, não pensou em Dante. Pensou nela. Em Helena. Em liberdade. Em algo que ainda não tinha nome, mas começava a crescer dentro dela. Um desejo de existir fora daquele casamento. De respirar sem peso. De viver sem esperar migalhas de alguém que nunca soube oferecer mais do que indiferença. Enquanto tocava delicadamente uma rosa branca, tomou uma decisão silenciosa. Não tentaria mais ser vista. Não tentaria mais ser escolhida. Se Dante escolhia Valentina sem hesitar… Então ela também escolheria a si mesma. E, pela primeira vez em três anos, esse pensamento não doeu. Aliviou.






